Uma leitura crítico-afetiva de Heliene Rosa

O texto crítico-afetivo que segue (originalmente publicado em 02/02/2022, no Blog Feminário Conexões) foi escrito por Heliene Rosa (professra, crítica literária), contadora de histórias, amiga/irmã das Letras e grande colaboradora do Feminário Conexões. Desde já e sempre, registro os meus agradecimentos à querida Heliene pelo afeto e atenção aos meus escritos. Saudações indígenas, Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Fios do Tempo: poesia e luta tecendo a vida nos haikais da escritora indígena Graça Graúna

          Nesse momento em que escrevo, sou tomada por gratidão e ternura; ao mesmo tempo em que me sinto em débito com a querida poeta Graça Graúna. Eu posso explicar o motivo: fui convidada para o lançamento virtual de seu mais recente livro, onde deveria declamar um belíssimo haikai presente nessa obra e que fora ofertado a mim, de forma muito graciosa, por ela mesma. Então aconteceu o fato inesperado, por problemas de instabilidade na rede da internet, eu não consegui adentrar a sala virtual do evento.

        Assim, quero aproveitar para me justificar de modo público e inadiável. Devo confessar que não se trata de tarefa difícil ou desgastante, já que a leitura foi deliciosamente desfrutada e venho aqui alegremente compartilhar um pouco desse prazer. Não antes sem, novamente agradecer a nossa querida poeta, minha amiga Graça Graúna, pela oportunidade do deleite poético, compartilhar alguns momentos da agradabilíssima leitura e recomendar o livro, pois sei que irão apreciar.

        O lançamento de Fios Do Tempo: quase haikais consolida uma costura poética da sensível escritora indígena brasileira Graça Graúna. O conjunto de sua obra evidencia um importante movimento de luta por visibilidade e respeito para o seu povo Potiguara, para os povos originários, de forma ampla e, sobretudo para as mulheres.

        Esse protagonismo feminino vem desaguar em um contexto maior: as lutas do Movimento Indígena Brasileiro, cuja consolidação se deu, de forma mais perceptível, a partir da década de 1980. Nesse contexto, além da produção literária rica em narrativas ancestrais e em refinada poesia, Graça Graúna tem se dedicado a uma bem sucedida carreira acadêmica, na qual a prática docente, a pesquisa e as contribuições para o arcabouço teórico dessa vertente da literatura brasileira contemporânea caminham juntas e permanecem atreladas.

        A poeta potiguara possui diversas outras obras, entre elas: Canto Mestizo,  publicada pela Editora Blocos no ano de 1999, na cidade do Rio de Janeiro; Tessituras da Terra da Editora M.E Tânia Diniz, em Belo Horizonte, em 2000; Tear da Palavra, também editado na capital mineira e lançada no ano 2007; Criaturas de Ñanderu, obra infanto-juvenil publicada em 2010, pela Edições Amarylis ‘Selo Manole’, na cidade de Barueri, n o interior do Estado de São Paulo; Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil, lançada no ano de 2013, em Belo Horizonte-MG, pela Mazza Edições; e Flor da Mata, em 2014, pela Peninha Edições (BH).

         Na sequência, lançou no ano de 2021, na bela cidade do Recife pela Editora Baleia Cartonera, essa magnífica obra Fios Do Tempo: quase haikais que é, ao mesmo tempo, singular e complexa em sua tessitura. Nela há recortes, dobraduras, trilhas e fios de algodão encobrindo um conjunto de admiráveis haikais, em que a poeta faz jorrar flagrantes do sensível, em intensa magia e feminilidade.

        No miolo, páginas cuidadosamente recortadas por onde voam e cantam pássaros de variadas espécies, tangidos pelo vento e atraídos por quaresmeiras, ipês, cajueiros e hibiscos em flor. As aves seguem o vento, por entre matas e rios e acabam por se deparar com redes elétricas e edifícios. Nessa encantada trajetória, volitam ao som de flautas e de cantos ancestrais. Enquanto seguem por esse fio mágico, galanteiam para acordar as cidades e espantar os males.

        A composição da paisagem poética se concretiza na multiplicidade de vozes e de identidades. Atendo ao chamado e, logo ao iniciar a leitura, a epifania. Um lampejo e já caí de encantos por um mensageiro xamã, na fugaz figura de um beija-flor. Amanheço na aldeia e sigo a trilha do vento, com olhos cafeomantes, miro a revelação: a imagem andarilha me traz à retina, o reino de Ameríndia e então celebro, junto aos indígenas, a alegria de pertencer a esse chão sagrado: “Viva!”.

        No percurso, o voo dos pássaros-origami na Praça da Liberdade me lembra que há vida também na selva de concreto: Freedom¿. O cheiro da maresia acalenta a lembrança do Caribe e seus negros ritmos: os blues e o esverdeado do mar entorpecem meus sentidos. De longe me chega o lamento do Cais do Valongo, apuro os ouvidos e reencontro meus irmãos expatriados. Novamente, me sinto invadida por um desejo ancestral de liberdade. Quase sem perceber, contemplo a tarde que vai se findando na trilha imaginária, onde, na grande oca, um “pajé tange o inverno” ao som de flautas para chamar Poesia: “escrever é resistir”. Arrepios!

         Em busca da cura, a pena da poeta “desliza e as palavras derramam sangue no papel”. Enquanto a autora confabula com parentes e escuta a Mãe-Terra, pássaros cantam para afastar os males e “um preto velho sonha na estação do metrô”. No campo e nas cidades, os dias e noites se sucedem ao som das maracas e do vai e vem das ondas do mar: “a água tem memória”.

        Os fios do tempo, poeticamente tecidos, desenham graúnas que, ao final da tarde, dormem dentro da mata. O desenrolar desses fios acorda manhãs que, embaladas por cantigas de roda, despertam a cidade com o calor morno do sol. No caminho da volta, a poeta maneja a palavra que se dobra, docilmente à sua pena. E a poesia se faz entre as flores das mangueiras “nos quintais vizinhos” enquanto pardais famintos devoram restos no “chão da rodoviária”.

        Ao lado dos canoeiros, das lavadeiras, dos pajés, dos barqueiros e dos parentes indígenas, a poeta e sua pena dialogam com culturas orientais e ressignificam a natureza. No cenário inóspito dos arranha-céus, enquanto se aguarda o abraço do sol, a pandemia vai se travestindo de inverno. A poesia, nesses quase hailkais, abre suas velhas asas e, ao final do entretecido poético, reflito a respeito da indagação da sábia tecelã indígena: “se eu parasse de escrever respiraria¿” Para continuar conhecendo a poeta, encontre-a em seu blog: https://gracagrauna.com/

Ao poeta Thiago de Mello

Foto: G.Graúna

Em abril de 1964, quando era adido cultural da embaixada do Brasil, no Chile; Thiago de Mello (1926-2022), filho da floresta amazônica, escreveu o poema “Estatutos do homem”. No mesmo período, o poeta chileno Pablo Neruda traduziu esse poema que, desde então, transita em praças, teatros, escolas e segue até hoje pelo mundo; comovendo multidões e afirmando a vocação de Thiago de Mello pela paz.  Que essa paz continue morando em nossos corações.

Com esta pequena homenagem ao poeta amazonense que habitou também a Cordilheira, reafirmamos o nosso grande respeito ao poeta que nos ensinou a viver, a acreditar no poder transformador da poesia. As suas palavras continuam vivas, atuais:

 “A poesia é uma arma contra as forças escuras, contra o império da injustiça, da arbitrariedade e do terrorismo”.

Descanse em paz, poeta.

Na luta de sempre pelos direitos humanos,

Graça Graúna (Indígena potiguara/RN)

Referência.

Thiago de Mello. Os estatutos do homem. Trad. Pablo Neruda. Ilustração: Dafni A. Tzitzivakos. Cotia/SP: Ed. Vergarariba, 2001.

Foto: G.Graúna

Rezos e flores

C. Monet, Buquê de Girassóis

Rezos e flores

…faz alguns dias, troquei algumas palavras com pessoas muito queridas.

Pessoas generosas me cercam!

Falamos da “roda viva” que nos sufoca ao longo dessa pandemia;  da Amizade e do Esperançar que nos sustenta. Para essas pessoas e mais um monte de gente que está atravessando momentos muito difíceis, ofereço rezos e flores; e para quem acolhe este blog, também dedico os primeiros versos (um quase haikai) que escrevi neste ano de 2022. Fiquem com a força de Tupã e dos Encantados!

Plantar girassóis
fazer rezos e canções
pra alegrar os dias

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Cerrado/DF, Jan. 2022