Da nossa Mãe Terra e outras histórias

POÉTICAS INDÍGENAS: da nossa Mãe Terra e outras histórias”  com a escritora e pesquisadora indígena Potiguara/RN, Graça Graúna.
O curso irá abordar a poesia e saberes indígenas a partir do processo de elaboração da escrita e vivência na obra Literária de Graça Graúna.

DATAS: 04, 11, 18 e 19 de Abril – às Segundas-feiras
HORÁRIO: 09:30 às 11:00 Turno: manhã
Curso Online 

INSCRIÇÕES GRATUITAS até 31/03! pelo e-mail: contato@iluminasartes.com.br  ou via direct @iluminas.artes (Instagram)

VAGAS LIMITADAS! Garanta a sua! 

Mais informações: (34) 98859-6023 (WhatsApp)

Realização:IluMinas Artes Produções com o patrocínio IAMAR Instagram: @institutoalairmartins Facebook: @institutoiamar


De fio a pavio: Lilia

Minha mãe Lilia/Noemia; Crédito: G.Graúna

O texto que segue é um fragmento/releitura da crônica “re-tra-tos”, de minha autoria e que foi publicada pela UNICAMP no projeto p-o-e-s-i-a: um dossiê sobre poesia contemporânea.

Lilia/Noemia. Crédito: Claramor

[…] O tempo marcado pela memória alcança um pouco mais de um século de existência; 101 anos de idade, que hoje (17 de março) faria a minha mãe: Dona Noemia, chamada também de Lilia.

Ela nasceu em Nova Cruz/RN e na infância migrou com minha avó Conceição (Vó Ção) para o distrito de São José do Campestre: atualmente, uma pequena cidade que fica a poucos quilômetros de Canguaretama e Goianinha. Entre esses dois municípios vivem os parentes indígenas potiguara, na Aldeia Catu/RN.

Da convivência com a minha mãe, eu teço entre as recordações mais fortes o dia em que ela juntou a filharada (quatro meninas e dois meninos) e com paciência e criatividade nos ensinou a fazer do comum o incomum. Nessa época, por volta dos anos 60, morávamos perto de uma antiga fábrica de enxofre, no bairro do Ibura, em Recife. Um dia, a empresa Pernambuco Tramways cortou a luz da nossa casa. Aos troncos e barrancos sobrevivemos à luz de vela. Essa foi uma das lições de resistência, resiliência, sobrevivência e de fazer parte do coletivo (dentro da família) que intui ao ver Lilia reunir as crias para transformar um velho travesseiro em pavios, e acender a única e velha lamparina de querosene que havia em casa.

Tentei por inúmeras vezes fazer um relato desse acontecimento e me veio, primeiro a ideia de manejar uns versos. Quis escrever para falar do desfecho da história, mas nem sempre a crua realidade cabe em um poema.

[…] ao fazer dezenas de pavios, acompanhei (na condição de filha mais velha) a minha mãe até à mercearia, onde ela vendeu os pavios e comprou cadernos e alguma mistura para o feijão. Chegamos em casa contentes pela façanha. Dias depois, ainda à luz da vela, voltei com Lilia até à mercearia para comprar alguns dos pavios que tecemos, mas não tínhamos dinheiro. Ao comprarmos no fiado, o dono da mercearia (todo arrogante) debochou do nosso trabalho, numa sentença: “um dia da caça, outro do caçador”. Voltamos para casa, de cabeça baixa e envergonhadas pela humilhação.

[…] tempos depois escrevi um poema chamado Tecelã, em homenagem à Lilia e a todos e todas que à luz dos Encantados e dos Ancestrais intuem que a palavra tem alma. É neste sentido que apresento o seguinte poema:

Noites a fio, Lilia
atenta aos desafios
desmancha travesseiros
e faz pavios

De fio a pavio
dá conta das crias
e tece esperanças no escuro
toda coragem-Lilia


Graça Graúna (indígena potiguara/RN)
Recife, 17 de março de 2022

Uma leitura crítico-afetiva de Heliene Rosa

O texto crítico-afetivo que segue (originalmente publicado em 02/02/2022, no Blog Feminário Conexões) foi escrito por Heliene Rosa (professra, crítica literária), contadora de histórias, amiga/irmã das Letras e grande colaboradora do Feminário Conexões. Desde já e sempre, registro os meus agradecimentos à querida Heliene pelo afeto e atenção aos meus escritos. Saudações indígenas, Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Fios do Tempo: poesia e luta tecendo a vida nos haikais da escritora indígena Graça Graúna

          Nesse momento em que escrevo, sou tomada por gratidão e ternura; ao mesmo tempo em que me sinto em débito com a querida poeta Graça Graúna. Eu posso explicar o motivo: fui convidada para o lançamento virtual de seu mais recente livro, onde deveria declamar um belíssimo haikai presente nessa obra e que fora ofertado a mim, de forma muito graciosa, por ela mesma. Então aconteceu o fato inesperado, por problemas de instabilidade na rede da internet, eu não consegui adentrar a sala virtual do evento.

        Assim, quero aproveitar para me justificar de modo público e inadiável. Devo confessar que não se trata de tarefa difícil ou desgastante, já que a leitura foi deliciosamente desfrutada e venho aqui alegremente compartilhar um pouco desse prazer. Não antes sem, novamente agradecer a nossa querida poeta, minha amiga Graça Graúna, pela oportunidade do deleite poético, compartilhar alguns momentos da agradabilíssima leitura e recomendar o livro, pois sei que irão apreciar.

        O lançamento de Fios Do Tempo: quase haikais consolida uma costura poética da sensível escritora indígena brasileira Graça Graúna. O conjunto de sua obra evidencia um importante movimento de luta por visibilidade e respeito para o seu povo Potiguara, para os povos originários, de forma ampla e, sobretudo para as mulheres.

        Esse protagonismo feminino vem desaguar em um contexto maior: as lutas do Movimento Indígena Brasileiro, cuja consolidação se deu, de forma mais perceptível, a partir da década de 1980. Nesse contexto, além da produção literária rica em narrativas ancestrais e em refinada poesia, Graça Graúna tem se dedicado a uma bem sucedida carreira acadêmica, na qual a prática docente, a pesquisa e as contribuições para o arcabouço teórico dessa vertente da literatura brasileira contemporânea caminham juntas e permanecem atreladas.

        A poeta potiguara possui diversas outras obras, entre elas: Canto Mestizo,  publicada pela Editora Blocos no ano de 1999, na cidade do Rio de Janeiro; Tessituras da Terra da Editora M.E Tânia Diniz, em Belo Horizonte, em 2000; Tear da Palavra, também editado na capital mineira e lançada no ano 2007; Criaturas de Ñanderu, obra infanto-juvenil publicada em 2010, pela Edições Amarylis ‘Selo Manole’, na cidade de Barueri, n o interior do Estado de São Paulo; Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil, lançada no ano de 2013, em Belo Horizonte-MG, pela Mazza Edições; e Flor da Mata, em 2014, pela Peninha Edições (BH).

         Na sequência, lançou no ano de 2021, na bela cidade do Recife pela Editora Baleia Cartonera, essa magnífica obra Fios Do Tempo: quase haikais que é, ao mesmo tempo, singular e complexa em sua tessitura. Nela há recortes, dobraduras, trilhas e fios de algodão encobrindo um conjunto de admiráveis haikais, em que a poeta faz jorrar flagrantes do sensível, em intensa magia e feminilidade.

        No miolo, páginas cuidadosamente recortadas por onde voam e cantam pássaros de variadas espécies, tangidos pelo vento e atraídos por quaresmeiras, ipês, cajueiros e hibiscos em flor. As aves seguem o vento, por entre matas e rios e acabam por se deparar com redes elétricas e edifícios. Nessa encantada trajetória, volitam ao som de flautas e de cantos ancestrais. Enquanto seguem por esse fio mágico, galanteiam para acordar as cidades e espantar os males.

        A composição da paisagem poética se concretiza na multiplicidade de vozes e de identidades. Atendo ao chamado e, logo ao iniciar a leitura, a epifania. Um lampejo e já caí de encantos por um mensageiro xamã, na fugaz figura de um beija-flor. Amanheço na aldeia e sigo a trilha do vento, com olhos cafeomantes, miro a revelação: a imagem andarilha me traz à retina, o reino de Ameríndia e então celebro, junto aos indígenas, a alegria de pertencer a esse chão sagrado: “Viva!”.

        No percurso, o voo dos pássaros-origami na Praça da Liberdade me lembra que há vida também na selva de concreto: Freedom¿. O cheiro da maresia acalenta a lembrança do Caribe e seus negros ritmos: os blues e o esverdeado do mar entorpecem meus sentidos. De longe me chega o lamento do Cais do Valongo, apuro os ouvidos e reencontro meus irmãos expatriados. Novamente, me sinto invadida por um desejo ancestral de liberdade. Quase sem perceber, contemplo a tarde que vai se findando na trilha imaginária, onde, na grande oca, um “pajé tange o inverno” ao som de flautas para chamar Poesia: “escrever é resistir”. Arrepios!

         Em busca da cura, a pena da poeta “desliza e as palavras derramam sangue no papel”. Enquanto a autora confabula com parentes e escuta a Mãe-Terra, pássaros cantam para afastar os males e “um preto velho sonha na estação do metrô”. No campo e nas cidades, os dias e noites se sucedem ao som das maracas e do vai e vem das ondas do mar: “a água tem memória”.

        Os fios do tempo, poeticamente tecidos, desenham graúnas que, ao final da tarde, dormem dentro da mata. O desenrolar desses fios acorda manhãs que, embaladas por cantigas de roda, despertam a cidade com o calor morno do sol. No caminho da volta, a poeta maneja a palavra que se dobra, docilmente à sua pena. E a poesia se faz entre as flores das mangueiras “nos quintais vizinhos” enquanto pardais famintos devoram restos no “chão da rodoviária”.

        Ao lado dos canoeiros, das lavadeiras, dos pajés, dos barqueiros e dos parentes indígenas, a poeta e sua pena dialogam com culturas orientais e ressignificam a natureza. No cenário inóspito dos arranha-céus, enquanto se aguarda o abraço do sol, a pandemia vai se travestindo de inverno. A poesia, nesses quase hailkais, abre suas velhas asas e, ao final do entretecido poético, reflito a respeito da indagação da sábia tecelã indígena: “se eu parasse de escrever respiraria¿” Para continuar conhecendo a poeta, encontre-a em seu blog: https://gracagrauna.com/