No tempo da natureza com o povo Assurini

Crédito: pesquisadora Maria Gorete Cruz Procópio.

Chegou a hora da retomada!

Nota: agradecimentos à Paula Santana por esse texto maravilhoso e por compartilhar a imagem fotografada por M. Gorete C. Procópio. Que Nhanderu nos acolha!!!

Autoria do Texto: Paula Santana*

O povo Assurini louva o Jacaré todos os anos. O jacaré é um bicho que olha de lado, por cima do espelho d’água e observa ao longe porque sabe das coisas. Por isso, a festa do jacaré dos Assurini é um espaço educativo e de manifestação de saberes, em que os mais novos têm a oportunidade de aprender com os mais velhos. Melhor analogia para o dia de hoje não há. Quiseram nos assustar e nos matar. Como um jacaré à espreita, esperamos no tempo da natureza. Seguimos em frente com a cabeça erguida e a mira afiada, aguardando com sagacidade. Celebrar o jacaré é um rito de fortalecimento e de vitória para os Assurini, e pra gente também. No posto de saúde, encontrei outras educadoras desse sertão véio de guerra e os sorrisos escapavam das máscaras pelos olhos. Estávamos vivas e juntas num abraço cósmico. A festa do Jacaré está só no começo. Agora que aprendemos um bocado à espreita, partiremos pra luta! Chegou a hora da retomada! Por mais vacinas para todos! Por comida no prato! Por justiça pelos que tombaram! Como ensinou cacique Xicão sabiamente, avançaremos! 

(*)Paula Santana: socióloga, antropóloga, poeta, editora, escritora, agitadora cultural, professora do Curso de Ciências Sociais, UFRST.

A poesia Macuxi de Sony Ferseck

Foto de Devair Fiorotti compartilhada por Sony Ferseck

NOTA: quando Sony Ferseck (poeta Macuxi) compartilhou por telefone o seu poema “Grande reencontro”, recebi com alegria a grandeza que ele contempla. Eu já conhecia, pela Internet, a veia poética de Sony e o trabalho que ela e o eterno poeta Davair Fiorotti realizaram junto à Wei Editora (Boa Vista/RR). Pedi à Sony autorização para publicar o seu poema no Blog Tecido de Vozes e que compartilhasse comigo e com os(as) leitores(as) algumas linhas acerca da sua trajetória na condição de mulher indígena, escritora, editora e outros assuntos que quisesse falar. Pedi também que ela enviasse algumas fotos para ilustrar o poema e ela, generosamente, compartilhou três imagens fotografadas pelo querido Devair.

Sendo assim, convido a todos(as) que acompanham este Blog para um momento especial de leitura. Com vocês, as boas palavras de Sony que nos brindou com a sua autohistória e com o encanto das imagens registradas por Devair.

Querida Sony, gratidão pelo carinho e atenção por compartilhar seus escritos neste “Tecido de Vozes” que é de todos nós.

Saudações indígenas,

Graça Graúna

Foto de Devair Fiorotti compartilhada por Sony Ferseck

Grande reencontro

                  Sony Ferseck


por sob o dourado
a palha viva
ornamento ocre
do vento que passa
por sobre as serras
meu tom de terra
me confunde o corpo
cor de semente
de sucupira
Por sob a sombra
o caminho e a pegada
ardo em trilhas (de fogo)
:Não existe o nada
Por entre as mãos
trabalho tuas mãos
em minhas
que se abrem
em dedos de cinza
fumaça, tabatinga e jenipapo
em tinta se fecham
em roda, canto, voz, meninas
Gesto gestos
meu lugar – junto – às irmãs
à Wei*
Assim me a – guardo
te a – guardo
em via.


*Dizem que as filhas de Wei, da Sol, iluminam os caminhos dos mortos pela Via Láctea, pelas plêiades, elas que permitem o grande reencontro com os que já se foram. Aguardo nelas. Em tempo, como neta de Wei, ela é quem também me permite todo dia que me reencontre com o povo Macuxi. 

Foto de Devair Fiorotti compartilhada por Sony Ferseck

SOBRE A AUTORA

Me chamo Sony Ferseck, mas também me chamo Wei paasi, em makuxi, que significa algo como “irmã em Sol”. Nasci em 1988 e desde então busco me reencontrar com meu povo, o Makuxi, aqui no Império de Wei, como chamo o estado de Roraima. Meu despertar foi longo, pois só em 2010, já na graduação em Letras na Universidade Federal de Roraima, decidi pelo reencontro e saí junto com professores pesquisadores de comunidade em comunidade conhecer mais os povos indígenas em Roraima. Em 2014 meu caminho encontrou o caminho de Devair Fiorotti, coordenador do Projeto Panton Pia’ e meu marido mais adiante no tempo que, em especial, ouvia os mais velhos e sábios do povo Makuxi.

Gosto de pensar que sou neta de Wei, da sol, e não consigo imaginá-la que não assim, no gênero feminino, pois foi ela quem deu as formas à mãe primordial do clã Makunaima, a partir do barro. É também Wei que fermenta no ventre escuro da terra a macaxeira que dá de comer e beber a todos os parentes. Que ajuda as mulheres a queimar os potes e panelas de barro da maneira certa para que preparem tuma, a damurida das gentes. Ela que dá o tom de ocre ao parixara, quando tinge as saias e roupas de palha de buriti e inajá nas grandes rodas de festas, assim como também dá o tom terroso das sementes secas de kewei (aguaí) e sucupira que retinem nos chocalhos macuxis, que curiosamente combina com o tom de pele que temos. Gosto de ver como a Grande Vó estende seus longos e finos dedos dourados por sobre o lavrado, seus cabelos desde sempre. Também creio que foi ela que decidiu encantar Devair, em 2020, para seu reino, para que ele a ajudasse a incendiar a efeméride das manhãs e tingir de infinitos azuis e dourados os caminhos da Grande Vó quando ela se volta aos seus aposentos de dormir. Tenho ciúmes, mas sei que só com ela tive de compartilhar meu amor por Devair. Escrevo assim. Mas nem sempre foi deste jeito. A cada dia me reencontro mais e mais com meu povo. Foi por isso que decidi chamar a editora que eu e Devair Fiorotti fundamos em 2019 de Wei e desde então buscamos financiar e publicar obras de artistas da palavra indígenas, como Clemente Flores, Bernaldina José Pedro e logo mais Casilda Bernardo e Caetano Raposo.  Publiquei em 2013 meu primeiro livro de poesia intitulado Pouco Verbo e o segundo em 2020, chamado Movejo, pela própria Wei Editora.

Quando escrevi o poema Grande reencontro lembrei de duas mulheres incríveis que pude conhecer nessas andanças da vida e uma delas foi a minha irmãzinha Graça Graúna e assim que o finalizei, mandei quase que de imediato para ela, para que saiba o quanto a tenho em pensamento e coração.