A Ancestralidade nos une

Graça Graúna (RN) e o Cacique Reginaldo (RN).
Imagem: Acervo Compós/Ufrn

CONFERÊCIA DE ABERTURA 1

A ancestralidade nos une

Graça Graúna2

O que é, como e quando a Ancestralidade se revela em nossas vidas? 

Entre os povos originários, que pessoas são reconhecidas por sua capacidade de perceber/intuir a presença especial da IA, isto é, a Inteligência Ancestral?

Existe fronteira no campo da Ancestralidade?

Os Pajés, os Caciques, os Benzedores e os Xamãs são os únicos a percorrer os caminhos que nos levam ao que há de sagrado? E as mulheres Pajés, Cacicas, Benzedeiras e Xamãs, o que elas comunicam? 

Esse questionamento é uma tentativa de propor diálogo e reflexão acerca dos povos indígenas do Rio Grande do Norte. Existem muitas barreiras que promovem o apagamento étnico; apagamento esse executado pelos órgãos neocoloniais. Ocorre que nós indígenas do RN existimos e resistimos. A nossa luta é contínua. Nesse sentido, as mulheres Cacicas, Pajés, Benzedeiras e Xamãs também são destaques. Entre outros saberes, elas trazem o dialogo, semeando a luta pelo Bem Viver.

Nessa direção e com a Ciência do Toré, intuímos que a Ancestralidade nos une. A Ancestralidade é uma ponte viva que muitos desconhecem. Por isso, não hesitamos em abraçar a bandeira da resistência que nos acolhe pelo que somos, sonhamos e somamos, pois somos filhos e filhas; somos parentes nesta Terra de Tupã. A Ancestralidade nos convida a transmitir e a receber afetos; a Ancestralidade nos chama a compartilhar e multiplicar as sementes da alma-palavra; a Ancestralidade nos ensina a ouvir e retribuir a escuta; a Ancestralidade nos prepara a pedir licença ao entrar na mata e expressar gratidão ao sair dela. A Ancestralidade revela que a palavra tem alma e aguça o nosso entendimento; fortalece as raízes do nosso jeito de ser e viver e de enxergar os diferentes mundos. A Ancestralidade é nossa guardiã e um dos caminhos contra a dominação. 

E o que fazer para sobrevivermos a esses tempos de invasão e exploração dos nossos saberes, da nossa mente, da nossa memória?  

Não existe resposta fácil. O fato é que precisamos estar mais atentos ao que desejamos e herdamos. E mais: foi quando desejaram a nossa vinda ao mundo, que uma inteligência especial começou a habitar em nós: a Inteligência Ancestral. Ao conviver com essa Inteligência, mais uma dádiva nos revela seu acolhimento com os sopros de vida oriundos da nossa Encantaria. 

À luz do coletivo nos sentimos mais preparados a combater os tantos males causados à nossa Mãe Terra e aos povos originários. A Ancestralidade é um dos caminhos da resistência. As vozes dos parentes de sangue e dos parent’amigos e parent’amigas de etnia e de poet’amigos e poet’amigas são testemunhas da nossa luta por um mundo melhor, de justiça e Bem Viver. E é com esse espírito que apresento alguns versos de minha autoria; versos de resistência, porque a Ancestralidade nos une:

Canção peregrina3

I

Eu canto a dor
desde o exílio
tecendo um colar
de muitas histórias
e diferentes etnias

II

Em cada parto
e canção de partida,
à Mãe Terra peço refúgio
ao Irmão Sol, mais energia
e à Lua Irmã peço licença poética
para esquentar os tambores
e tecer um colar
de muitas histórias
e diferentes etnias

III

As pedras do meu colar
são história e memória
são fluxos do espírito
de montanhas e riachos
de lagos e cordilheiras
de irmãos e irmãs
nos desertos das cidades
ou no seio da floresta

IV

São as pedras do meu colar
e as cores dos meus guias
amarela
vermelha
brancos
e negros
de Norte a Sul
de Leste a Oeste
de Ameríndia ou de Latinoamérica
povos excluídos

V
Eu tenho um colar
e muitas histórias
e diferentes etnias.
Se não o reconhecem, paciência!
Haveremos de continuar gritandos
a angústia acumulada
há mais de 500 anos

VI

E se nos largarem ao vento?
Nao temerei, não temeremos
pois antes do exílio,
o nosso Irmão Vento
conduz as nossas asas
ao Sagrado Circulo
onde o amalgama do saber
de crianças e anciões
faz eco nos sonhos
dos excluídos

VII
Eu tenho um colar
de muitas histórias
e diferentes etnias
Imagem: Dr. Fabiano José Arcádio. Pesquisadora Lu Vitório (povo Kocama, Região amazônica), Dr. Cadu Araújo (Potiguara), Dra. Andriele Mendes (Potiguara), Pajé Rafael Potiguara (RN), Cacique Reginaldo Ymembira, Lagoa Grande/RN, Graça Graúna (Potiguara/RN) e Prof. Dr. Juciano Lacerda (Ufrn).

Escrever é um respiro. À luz da Ancestralidade, compartilho alguns dos versos que escrevi ao longo a pandemia. Confesso que não foi confortável escrever durante um período tenebroso que se alastrou pelo mundo. Apesar disso, acatei o convite (o desafio) do Instituto Moreira Sales e entrei no Projeto Quarentena Covid19. Foi assustador escrever no meio das noites mais escuras e apresentar uma produção textual nesse contexto. Assim mesmo, me vesti de coragem; evoquei os guardiões e as guardiãs da nossa Mãe Terra. Por alguns momentos cheguei a pensar que havia trihado por caminhos que me pareceram familiar. Respirei e encarei a necessidade de compor os seguintes poemas:

Pela noite mais pytuna4

Os Ancestrais cantam e dançam
pintados de açafrão, jenipapo
e urucum para saudar os parentes
com arco, flecha e maraca
pela noite mais pytuna
O sol, a lua e as estrelas
são acolhidos nos sonhos
dos encantados em festa

Aqui, onde estou agora
(distante dos parentes)
o mundo em abismo:
pandemia, pandemônio...
ilhas virtuais...onde estou?
Perdida no isolamento
a noite não é a mesma
tão longe assim, dos parentes

Até quando esse confinamento?
Rogo à força do Encantado
que venha o sol em meus sonhos
com os Ancestrais em festa.
E vem o sonho: a aldeia canta
pra guardar a noite
e dança pra alvar os céus
no ritmo sagrado das maracas

Sonho e a noite se faz mais pytuna
na epifania das constelações
sobre o tempo da caça e da pesca
do plantio e da colheita
e uma voz nos anima:
"olha pro céu meu amor
olha como ele está lindo"...
mesclas de sonho e realidade

Lá em Pedra Lavrada, na Paraíba
uma porção do céu mais estrelado
vence o tempo e segue
pela noite mais pytuna
..."olha pro céu meu amor"
é Colibri trazendo no voo
o frêmito da primavera
pela noite mais pytuna

Olha! Mira o verão amazônico!
Em noite pytuna, a canoa ancestral
e a constelação da garça
anunciam a fartura de peixe.
O pajé canta pra segurar o céu
e conta que no meio da noite pytuna
o homem velho da constelação
saúda os parentes do Sul

e quando o dia é igual à noite
o outono vem no desapego de tudo
como sempre foi e é ainda
pela noite mais pytuna.
Na leitura do céu em tempo de inverno
os pajés contam que a Via Láctea
é a morada dos deuses
pela noite mais pytuna

e que os filhos e filhas da Terra
têm seus parentes celestes
desde sempre à luz da história
pelas noites pytunas.
A vida segue
e a memória em nós
tece a alma da palavra ancestral
no meio da noite mais pytuna

Ao redor da fogueira

Estamos aqui,
apesar dos tempos sombrios.
Aqui estamos
pelo direito de ser
diferente e viver
porque somos iguais
nas diferenças

O tempo desaba!
Mas estamos aqui
do nosso jeito,
imagine há quanto tempo!
Há séculos sobrevivemos
em meio à intromissão
de outros valores

Aqui, estamos!
E apesar da incerteza,
o nosso povo avança
no preparo da chicha
da mandioca e o beiju
no embalo da cantoria
de cigarras e pássaros

Aqui, estamos!
Apesar das injúrias,
do nosso jeito lutamos
para manter o costume
de manejar as maracas
e reconhecer no cocar
a nossa resistência

Aqui, estamos!
Apesar da exclusão,
existimos!
No meio da noite
bem ao redor da fogueira
de luta e glória
muitas histórias ouvimos

Aqui, estamos!
E apesar das perdas,
a luta continua no solo sagrado,
na caça, na pesca,
na crença, na dança
na roda de Toré,
no manejo da Terra, resistimos!

Aqui, estamos!
E apesar dessa atroz agonia
do nosso jeito, existimos
pra recuperar a Terra
e cuidar do plantio
na luta contínua
por um lugar no mundo

E assim, para não esconder a saudade que eu sinto, neste momento, deste encontro com vocês; despeço-me com uns versos do Toré. São versos sagrados que ouvi, que ouvimos desde criança. Desse modo, a Ciência do Toré se revela e desenvolve em nós a sabedoria ancestral que fortalece os nossos costumes, as nossas tradições, nossos saberes no Nordeste e em outras regiões do Brasil. Com os versos do Toré, reitero a riqueza da nossa origem e da nossa relação com o Sagrado.  Saudemos os Povos Indígenas do Rio Grande do Norte!

“Sou Potiguara
nessa Terra de Tupã
tem arara, craúna e xexéu
todos pássaros do céu
quem me deu foi Tupã
foi Tupã, foi Tupã
sou Potiguara

NOTAS

(1) 35º Encontro Anual de Pós-Graduação em Comunicação – UFRN, 09/06/2026Tema: “Saberes Ancestrais e novos horizontes da pesquisa em comunicação”

(2) Mulher indígena, povo Potiguara/RN. Mãe, avó, escritora. Professora da UPE. Doutora em Letras/Literatura pela UFPE. Pós Doutora em Literatura, Educação e Direitos Indígenas pela UMESP.

(3) Canção peregrina, poema escrito em 2006 e publicado em 2007, no livro Tear da palavra (de minha autoria), pela Editora Mulheres Emergentes, Belo Horizonte/MG.

(4)O poema “Pela noite mais pytuna” foi publicado em 20/08/2020. O termo “pytuna”, na língua Tupi, significa: escura





Oferenda

Imagem de maracas cubanas no Google
Apesar da distância
preciso dizer
que te ofereço
cada palavra-gesto
cada imagem-palavra
da minh'alma
e o cantar solidário
que dançamos
(entre a serra e o mar)
ao ritmo das maracas


Autoria: Graça Graúna
(Filha do Povo Potiguara/RN)
Nota: estes versos que dedico ao Dia da Poesia, escrevi em Trinidad/Cuba, em 23/12/2019

“Escrever é expressar quem a gente é”

Randra K. B. Barros:

Nasci e fui criada na Ilha de Itaparica/BA. A maior parte da minha infância aconteceu em um lugar muito especial: o quintal. Gostava de brincar correndo no mato, subindo na mangueira, coqueiro e bananeira.

Muitas vezes a gente brincava de pega-pega e esconde-esconde, no quintal e na ladeira de casa. Lembro também dos sabores mais fortes da minha infância: o cuscuz com o coco colhido do quintal; e a moqueca de peixe mussambê.

Mural do Mercado Municipal de Itaparica/BA. Foto: Randra K. B. Barros

Sempre fui muito observadora e via o trabalho duro de pescadores e marisqueiras, uma atividade comum na minha terra. Da minha família, apenas a minha tia às vezes se arriscava a pescar. Lembro que ela tinha um jereré, que é um tipo de rede de pesca; e um cesto grande, onde colocava alguns siris catados e o marisco chumbinho. Mainha também fazia moqueca com esse chumbinho. Ainda hoje, quando venho à Itaparica e caminho bem cedo pela praia, observo o quanto o trabalho das marisqueiras é árduo. Com um chapéu na cabeça, sentam-se na areia com suas bacias e colheres e cavam para encontrar os mariscos. Mesmo sendo expostas ao sol, ali estão nesse trabalho. Tenho muita admiração por esse ofício.

A vida acadêmica me levou para fora da ilha, mas sempre retorno. Desde 2023, me tornei professora de Literatura na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC, Ilhéus, sul da Bahia). Trabalho frequentemente com os componentes curriculares de Literatura Brasileira. Lemos e refletimos sobre textos poéticos e ficcionais. Acredito que a literatura nos ajuda a viver melhor, compreender a nós mesmos, o outro e o mundo. Levo essa percepção para a sala de aula.

Randra K. B. Barros:

Durante o ensino médio, eu tive uma professora de História que me inspirou a querer cursar essa área ou Letras. Eu já gostava muito de ler e toda semana trocava livros que pegava na biblioteca pública da minha cidade. Era fascinada especialmente por narrativas que falavam de acontecimentos históricos. Inclusive, a minha professora colocava a gente para ler obras de Lima Barreto no intuito de tentarmos entender o que acontecia no país no início do século XX; fazia saraus na biblioteca e dizia que por muito tempo a poesia foi vista como um bem cultural da elite, mas nós temos direito de acessá-la e recitá-la. As suas práticas mostravam que o ensino de História poderia estar conectado com a Literatura e outras Artes.

Eu sou o que essas aulas fizeram comigo. Eu me espelhei na minha professora porque eu queria despertar nas pessoas o que ela despertava em mim. Ela despertava em mim uma vontade incontrolável de ler, escrever, pensar, mudar a sociedade, que era extraordinária! Eu queria ser ela, por isso decidi que seria professora. Como o prazer pela literatura me acompanhava, especialmente nas aulas de História, decidi prestar vestibular para Letras – Língua Portuguesa e suas Literaturas na Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Fui aprovada e fiz esse curso em Salvador.

Na universidade, todas as disciplinas da área de Literatura me encantavam. Desde o primeiro semestre, quando cursei Introdução aos Estudos Literários, eu sabia que seguiria os caminhos da Literatura.

Randra K. B. Barros:

Acredito que herdei o gosto pela leitura do meu pai, mas ele não lia. Explico: painho cursava a Educação de Jovens e Adultos (EJA), à noite, morava em Salvador. Quando vinha à Itaparica, ele trazia muitos livros. Painho não lia essas obras, mas chegava com várias para a gente, especialmente módulos didáticos, enciclopédias antigas e revistas científicas. Lembro que eu guardava tudo em malas e mochilas, abria todo dia para ler algo. Painho sempre incentivou a minha leitura, embora ele não lesse.

Mainha fazia o mesmo. Ela me ensinou a ler e escrever, fazia ditado de palavras. Comprava coleção de livros de fábulas para nós treinarmos a leitura. Como eu tinha muito prazer em ler, comecei a frequentar a biblioteca pública de Itaparica. A princípio, para fazer as pesquisas escolares. Fiz a minha carteirinha de leitora e sempre pegava novos livros, geralmente obras literárias, uma produção que não era muito adquirida em casa.

Randra K. B. Barros:

Escrever sempre esteve presente na minha vida. No começo, era uma forma de guardar ideias. Eu lembro que gostava de anotar no caderno as letras das canções que escutava, as fábulas que lia no livro didático, poemas, tudo o que eu queria revisitar depois. Com o tempo, passei a escrever os acontecimentos que vivia, o que observava no mundo. Colocar ideias no papel sempre me fascinou e eu tinha um enorme respeito por quem se dedicava a isso.

Eu entendo o ato de escrever como um gesto visceral. A gente coloca muito do nosso corpo, da nossa alma em cada palavra. Escrever é expressar quem a gente é. Penso que tudo o que eu escrevo fala de mim, mesmo quando a temática não sou eu. Porque escrever é materializar o que está dentro da gente, registrar o nosso existir no mundo para que faça muitos voos e encontre outras pessoas.

Randra K. B. Barros:

Para mim, todo poema tem um cunho social e político, porém alguns textos assumem mais isso. O(a) poeta que intencionalmente quer mostrar o seu comprometimento com os problemas sociais e entende que sua arte ajuda de alguma forma nessa luta é, acima de tudo, uma pessoa corajosa. Admiro essa poesia e me encanto por ela, especialmente quando faz isso de maneira inventiva na linguagem. Acredito que o trabalho estético aliado ao engajamento social consegue produzir obras poéticas extraordinárias. 

Randra K. B. Barros:

O(a) poeta é afetado(a) pelo mundo. O seu fazer é influenciado por tudo o que lhe rodeia. Lembro de um verso seu, Graça, no poema “Cantar”: “As dores do mundo são as dores do poeta”. Concordo com essa ideia. 

Confesso que os(as) poetas que mais me encantam são aqueles(as) que me fazem enxergar o mundo, e a mim mesma, de forma diferente. Tenho fascínio por Manoel de Barros por causa disso. Olhares menos atentos podem achar a poesia dele simples demais, sem algo extraordinário. Mas o que eu enxergo é diferente! Eu aprendi com Manoel de Barros que o extraordinário está nas miudezas. Leio, releio os seus poemas, com uma necessidade voraz de perceber modos outros de viver. A sua poesia diz tanto que me emociona. 

Quando leio no poema “A tartaruga” os versos: “A gente só chega ao fim quando o fim chega!/Então pra que atropelar?”, eu repenso a minha existência. Manoel de Barros via no ritmo da tartaruga um aprendizado para nós, pessoas, vivermos melhor e acolhermos o nosso próprio ritmo. Isso é se engajar com a vida, com o mundo! 

Acervo de Randra K.B. Barros

Randra K. B. Barros:

Tenho a alegria de trabalhar em um lugar repleto de árvores e diferentes espécies de plantas. A árvore Pau-brasil, por exemplo, é muito comum no campus da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Na universidade, há um Horto Florestal com trilha interpretativa que nos guia pelo caminho que escolhemos no trajeto. Cada árvore tem uma placa com o nome da sua espécie e algumas informações sobre ela. Acabamos conhecendo mais sobre a vegetação de Mata Atlântica. 

Em novembro de 2025, escrevi um poema enquanto estava nessa trilha. Surgiu como um impulso, sem título, expressando a profunda conexão que senti naquele momento com as vozes da mata:

nem tudo o que é visto 
pode ser tocado 
lá na folha 
bem atrás dela 
pode ter tanta vida
pode ter tanto bicho
pode ter tanta gente 
a folha pode ser casa
ela é