Texto teatral indígena no Rio Grande do Norte

Juão Nyn. Tybyra: uma tragédia indígena brasileira. João Paulo Querino da Silva. Ilustração: Denilson Baniwa. São Paulo: Selo duburro, 2020.

O que se espera de um livro em que a letra “i” é substituída pela vogal ”y” ao longo do texto?

Engana-se quem pensa que se trata de uma mera substituição de vogais. Isto acontece no livro “Tybyra: uma tragédia indígena brasileira’, do indígena potiguara Juão Nyn. O processo de transmutação da vogal “i” para “y” sugere uma alusão ao sagrado, à cosmovisão Tupy-Guarani; pois a palavra tem alma (Nheeng) e surge do “y” com os elementos da natureza:  yy (água), yvy (terra), ywa (céu).

As palavras da língua portuguesa se transformam no falar “potyguês”, como sugere a crítica-escritura de Juão Nyn: “Parece óbvyo, mas se somos uma plurynação multyétnyca, por que não aprendemos em todas as escolas ao menos uma lyngua natyva, já que temos mays de 274 lynguas locays?”. Nesta perspectiva, o autor provoca reflexões acerca de uma América-Matryx Colonyal, isto é, uma contramão de Abya Yala ou “Terra do florescymento”. Com efeito, as palavras “ryo”, “lyngua”, “Brasyl”, “famylyares”, “lyvro” e muytas e muytas outras fazem do Potyguês “um manifesto literário [que] se apropria do alfabeto grego latino para fazer uma demarcação Yndygena Potyguara no Português; ydyoma este que veyo nas caravelas [entre outros] que não são obvyamente, oryundos daquy”.

A dramaturgia de Juão Nyn apresenta cinco partes: Luz I – O prazer, Luz II – A prisão, Luz III – O cárcere, Luz IV – A sentença, Luz V – A execução; conta com o prefácio de Eliane Potiguara (PB/RJ) e opinião de Renata Aratykira (Rádio Yandê). No comentário de Eliane, esse livro é “um alerta sobre os conflitos internos e externos de uma população que sofreu e ainda sofre muito com esses séculos de imposição da aculturação”. Nessa direção, Renata Aratykira observa que o mártir Tybyra Tupynambá – símbolo de “uma cultura em que a liberdade afetiva não acreditava no pecado” – é libertado na obra de Juão Nyn.

O autor nasceu em Natal/RN. É formado em Teatro, pela UFRN; multiartista, integrante da Banda Androyde sem Par; participa do Coletivo Estopô Balaio, da Cia de Arte “Teatro Interrompido” e faz parte também da Ariticulação dos povos indígenas do Rio Grande do Norte (APIRN). Onde adquirir o livro: https://potyguaryas.lojaintegrada.com.br/TYBYRA

No início desta resenha, perguntei o que os leitores e leitoras esperam desse livro.  Creio que a resposta reside na alma-palavra de Juão Nyn, na voz do texto teatral indígena que alerta:

este lyvro, árvore – papel em tuas mãos, propõe-se a ser uma carta transtemporal sobre nossas exystências, para que nossas corpas não colham apenas a violêncya como herança. Um flerte com o teor hystóryco e as estruturas clássycas, deformando e reformando memóryas”.

Ameríndia, 05/02/2021

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Artesãs indígenas no Festival de Bonequeiras do RN

Mestra Benedita. Foto compartilhada por Ana Paula Natsinga

A Mestra Benedita das bonecas e a bonequeira Wilflane (ou Flane), indígenas do povo Tapuia Tarairiú/RN, são participantes do I Festival de Bonequeiras do RN. Elas vivem na Comunidade Indígena da Lagoa do Tapará, localizada entre os municipios de Macaíba e São Gonçalo do Amarante, no Rio Grande do Norte. Pelo YouTube, elas contaram da arte de fazer bonecas de pano e como essa arte sobrevive de geração em geração. A Mestra Benedita e a bonequeira Flane não medem esforços para falar dos detalhes acerca do trabalho que produzem com tecido, linha, lã e bordados.

A criação das bonecas traz história e memória; as bonecas e os bonecos ganham características à luz da observação das bonequeiras sobre o cotidiano. É a Arte Tapará, como sugerem as artesãs em alusão ao nome da Comunidade. Na aldeia, por meio das redes sociais, são constantes os pedidos de pessoas (de diferentes regiões do país) a encomendarem miniaturas de casais de bonecos vestidos de noivos; bonecas-sereias inspiradas na lenda de uma moça loira de cabelas longos e que aparece na lagoa do Tapará.

Entre outras criações, a pedido da Fundação José Augusto (Natal/RN), Benedita criou a boneca indígena chamada Potira; em homenagem as mulheres indígenas Tapuia Tarairiu, da Comunidade Tapará. Recentemente, a boneqira Benedita recebeu o título de Mestre Artesã do município de Macaíba e apesar dos tempos difíceis, Benedita bonequeira participará da FIART (Feira Intrnacional de Artezanato), em Natal/RN.

E é nesse ritmo, por meio da arte, que o povo Tapuia Tarairiú/RN mostra uma das faces da sua resistência; quer seja pela retomada da lingua Brobó, quer seja pelo reflorestamento do terrtório ou pelo cuidado constante com a fauna e flora da região, como quer Tupã e a força dos Encantados.

Saudações indígenas,

Graça Graúna (indígena potigara/RN)

Poesia Indígena no Rio Grande do Norte (IX)

Foto: Ana Paula Natsinga.

Texto: Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Na primeira semana de janeiro/2021, tive a grata satisfação de conhecer um pouco da luta de Ana Paula Campelo. Na conversa que tivemos por telefone, Ana Paula falou da alegria que é pertencer ao grupo familiar Tapuia Tarairiú/RN. Ela é professora, poeta e se dedica, desde 2016, ao trabalho de retomada da língua indígena Brobó.

Na opinião de Kadu Xukuru (@kaduxukuru), o idioma Brobó, do tronco linguístico Macro-Jê, é a língua materna do Povo Tarairiú e Xukuru, e também da Zona da Mata Sul de Pernambuco. Por meio do Twitter (em 04/11/2020), ele informa também, que “no território Xukuru do Ororubá, as escolas são a principal ferramenta de manutenção do que restou da língua. No Rio Grande do Norte, os parentes Tarairiú produzem zines em Brobó como forma de difundir a língua através da arte”.

Com relação aos escritos de sua autoria, Ana Paula comenta que os mesmos podem ser encontrados no site www.wattpad.com e que adota o nome Natsinga para assinar os poemas que escreve. Na língua Brobó, Natsinga significa “saber”. Sua poesia evoca a luta; o seu dia a dia na Comunidade Indígena Tapará, localizada no município de Macaíba/RN. Um de seus poemas (Queimada) focaliza o cenário da devastação e dos prejuízos causados pela queima da palha de cana de açúcar. Por outro lado, Ana Paula fala também dos encantos da sua aldeia, tanto assim que compartilhou um mosaico da flora e da fauna fotografado por seu irmão Josué Campelo.

Fauna e flora. Mosaico de Josué Campelo

O irmão de Ana Paula Natsinga recebeu o nome de Kialonã Tarairiú, que na língua Brobó significa “guerreiro da natureza”. Ele assim foi chamado pela atividade que exerce voluntariamente na comunidade indígena Lagoa do Tapará. Em 2016, Josué iniciou o Projeto “Conhecer para preservar”, por meio do qual faz coleta de sementes nativas. É seu costume distribuir mudas de plantas ao final de cada palestra sobre conscientização ambiental, que realiza na comunidade indígena.

Vejamos, agora, o poema “Queimada:

No sussurro da noite
se ouve a fúria do fogo
que arde, queima que lambe
a força da mãe terra

Oh! Mãe terra que sofre
pelos gemidos de seus filhos
queridos e oprimidos
no seu seio que arde em chamas

e que chamam e clamam
buscam socorro e abrigo
mas somente encontram
o vazio noite a dentro
e o eco de suas vozes a procura de alento

Oh! Toípa Lemolaigo!
Que o eco dessas vozes
não fique somente no vento
mas que transpasse
e alcance visibilidade

e que traga a seus filhos queridos
o socorro e o alento tão merecido
que a fumaça que os sufocam
se transforme em cheiro Silvestre
que os embala e os encantam
da sua tão querida
a exuberante natureza.


                                                Comunidade indígena do Tapará. 

Ana Paula Natsinga