O sentimento de transitoriedade em Cecília Meireles

Imagem extraída do Google
“No momento da tua renúncia 
estende sobre a vida os teus olhos 
e tu verás o que vias: mas tu verás melhor… 
e tudo que era efêmero se desfez. 
E ficaste só tu, que és eterno” (Cecília Meireles)

 
A intimidade de Cecília Meireles (n.1901+1964) com a morte começou desde cedo. Ainda criança, aos três meses, perdeu o pai. Aos três anos de idade, perdeu a mãe. O sentimento de transitoriedade moldou a sua personalidade, a ponto de perceber algo de positivo na solidão e no silêncio como sugere a profundidade da sua poesia. Em novembro, os fiéis leitores recordarão os 50 anos da morte da mulher que escreveu o Romanceiro da Inconfidência. Mas a poesia não morre, de tal forma que Cecília continuará nos cobrindo com o seu raio de luz; com os motivos que lhe fizeram poeta e pudesse cantar com suavidade e senso crítico os instantes; cada instante a nos lembrar, também, que por meio da poesia o ser humano pode tornar o mundo melhor, sem temer a necessária liberdade de expressão para externar as vontades e sentires que nos faz sentir mais vivos e, desse modo, (possivelmente nessa ordem) respeitar, amar e desejar o outro em todas as circunstâncias.
Graça Graúna (indígena otiguara/RN).
 
Retrato
 
 
Eu não tinha este rosto de hoje, 
assim calmo, assim triste, assim magro, 
nem estes olhos tão vazios, 
nem o lábio amargo.
 
Eu não tinha estas mãos sem força, 
tão paradas e frias e mortas; 
eu não tinha este coração 
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
_Em que espelho ficou perdida 
a minha face?
Cecília Meireles, Antologia Poética. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2001.

O coração de um guerreiro Tukano silenciou

Álvaro Tukano e Moura Tukano na Feira do Livro Indígena, em Mato Grosso.
Ontem, dia 3 de agosto, em Manaus(AM), o coração do guerreiro Moura Tukano silenciou. Nós ficamos/estamos sem jeito, sem o seu sorriso largo.
O cidadão Manuel Fernandes Moura também se chamava Ahkëto, que significa líder responsável pelas danças e cerimônias sagradas. Filho do povo Tukano ou Yepamansã, o guerreiro Moura presidiu a Federação Indígena pela Unificação e Paz Mundial. Agora, ele está habitando entre os encantados, rodeado de eternos e sagrados cantos.
A saudade que eu tenho de Moura é bem grande e a cada vez se alastra, desde os encontros de Escritores Indígenas no Rio de Janeiros, em Manaus, em Mato Grosso e noutras paragens onde Ñanderu permitiu que nós indígenas mostrássemos a nossa luta para não perder a nossa cultura, a nossa família, a nossa vida, a nossa história de tradição milenar.
Não me esquecerei do parente amigo Moura, do pensador que um dia conduziu outros parentes a prestigiar uma palestra minha na Academia Brasileira de Letras (ABL); só comecei a falar, quando o vi entrar acompanhado de outros parentes, olhando para mim com firmeza e um sorriso largo.
Uma das gratas recordações que eu tenho do Moura remete ao encontro que reuniu dezenas de escritores e artistas de diferentes etnias na I Feira do Livro Indígena, em Mato Grosso. Ao lado de outro líder indígena (Álvaro Tukano), o guerreiro Moura conduziu a cerimônia de abertura do evento, numa grande oca construída para acolher indígenas e não indígenas participantes do evento.
Tenho saudades de Moura. Guardarei os seus ensinamentos.  Aqui, destaco parte das respostas que gentilmente ele respondeu as questões relacionadas ao meu estudo sobre a lei 11645/08. Dezenas de parentes indígenas também colaboraram com a minha pesquisa, durante o meu estágio na Umesp, em 2011. A respeito dos desafios e perspectivas para o ensino da história e da cultura indígena, Moura ressaltou, entre outros aspectos, que a referida Lei:
vai despertar nos alunos a curiosidade de conhecer o processo de formação das culturas e sociedades indígenas, a educação real imposta aos brasileiros e desvendar a perversa trajetória da vida e história da sobrevivência do índio (…); que deve haver um novo início e uma nova formação da sociedade humana, mais justa no Brasil e na América Latina. (Cf. Revista Educação e Linguagem, Umesp, 2011, n.23/24).
Em nossa conversa, em 2011, Moura lamentou o fato de nós indígenas sermos vistos como selvagens, incapazes, preguiçosos, feiticeiros, diabólicos, atrasados, dementes e – como se não bastasse –  rotulados também de empecilhos para o progresso do Brasil.
Ontem, dia 3 de agosto, ao buscarmos consolo em meio a saudade que sentimos do Moura Tukano, o parente Ademario Ribeiro (etnia payaya), por e-mail, comentou:
Grão… em poucas palavras, leia o que nos enviou a Verônica há 7 minutos: “Confirmo que o coração do meu amado esposo parou ao meio dia, horário de Manaus. O corpo está velado na capela São Francisco da Cachoeirinha”.
Que Nanderu Lhe e nos acolha!
Nordeste do Brasil, 4 de agosto de 2014
Graça Graúna (indígena potiguara/RN)