Ivan Maia: poet’amigo de “abraços filosofortes”

Quem é Ivan, o que ele faz, por onde anda? Esta poderia ser uma pergunta genérica, mas em se tratando de um poeta, tem o nome transformado em verbete; habita inúmeras páginas, sites, blogs, antologias dentro e fora do Brasil. Aqui, faço referência ao poet’amigo Ivan Maia de Mello que também é compositor, pai-coruja, Mestre e Doutor no campo da Filosofia.

Em Pernambuco, ele marcou presença em muitos eventos culturais, a exemplo do inesquecível “Poesia na Praça”, um movimento adotado pela Prefeitura da Cidade de Recife, em 2000. Atualmente, mora em Salvador (BA), é professor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Milton Santos da UFBA. O seu livro mais recente “Poemas políticos”, tem lançamento na Latinas Livraria (Rua Padre Lourenço Rodrigues de Andrade, 650, Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis, SC).

Para saber mais do nosso poet’amigo e ganhar seu “filosoforte abraço”, compareçam ao lançamento e acessem também o blog: www.corpoema.blogspot.com

Texto: Graça Graúna (indígena potiguara/rn)

Literatura e democracia na construção dos saberes indígenas

XVIII Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada ABRALIC, Salvador/BA, julho de 2023.

Literatura e democracia na construção dos saberes indígenas

Graça Graúna (UPE), filha do povo potiguara/RN

Imagem: acervo da Abralic/2023

O presente relato (em construção) sugere uma leitura das diferenças a começar pela relação entre Literatura Indígena, Democracia e Ancestralidade, considerando a indagação da mesa-redonda: Como ensinar literatura com vistas à construção de espaços democráticos de aprendizagem?

Uma possível resposta para essa questão, acolho em Jerome Rothenberg1: “Dê aulas com um chocalho & um tambor”. Busco também em Vera Candau2 um dos caminhos, pois  em seus ensinamentos, ela aconselha que um saber só se constrói se houver a noção de conjunto1. Penso na força do coletivo e evoco a liberdade de sublinhar os saberes ancestrais para guiar-me a uma roda de conversa; de maneira que a gente possa revisitar também algumas leituras de minha lavra (em prosa e verso). Aqui, reitero o que afirmo em estudos anteriores: que a voz do texto indígena reivindica o direito dos povos originários de expressar seu amor à Mãe Terra; o direito a bem viver seus costumes, sua organização social, suas línguas e de manifestar suas crenças e que, apesar da intromissão de outros valores, “o jeito de ser e de viver dos povos indígenas vence o tempo: a tradição literária (oral, escrita, individual, coletiva, hibrida, plural) é uma prova dessa resistência”3.

Recordo que ao participar da coordenação do “Projeto Literatura de Direitos Humanos”, junto à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR) e à Universidade de Pernambuco, no período 2007/2009; muitas barreiras surgiram, pois transitamos entre o desejo, a ação e a reflexão em uma dimensão de quem vive intensamente a experiência humana. E não poderia ser de outra forma, ao falar dessa experiência, pois:

Entendemos que uma experiência dessa natureza tem sempre a companhia de muitos sujeitos. Daí a importância de contá-la em conjunto, pois elas tratam de histórias que vivemos na companhia do outro […] De fato, [essa experiência] carrega um modo singular de estar no mundo e, para nós, carrega também o modo coletivo de estar com o mundo. Essa condição de humanidade que envolve a todos(as) que trabalham com os Direitos Humanos é prova da inseparabilidade entre pensamento e ação4.

Leio Ruffato e me encanto com a seguinte observação: “a literatura só pode se realizar plenamente em um ambiente de liberdade de expressão e de amplo acesso a uma educação de qualidade _ coisas que só são possíveis naqueles lugares onde os fundamentos da democracia encontram-se solidamente enraizados”5. Nesse patamar, sublinho a força da solidariedade às pessoas que vivenciam situações difíceis no campo da arte, da educação. Poucos se dão conta do sofrimento, do abuso de poder, das ameaças, do desrespeito que afligem muitos/as indígenas. Destaco a situação da parente Marcia Tañamak: uma mulher guerreira do Povo Mura (RO), professora, escritora, poeta, doutora pela USP, fundadora do Coletivo Mura: um espaço cultural de vivências, encontro e acolhimento de parentes.

Em uma canoa, Marcia Mura circula bravamente pelo Rio Madeira, numa luta constante contra as hidrelétricas que ameaçam a população ribeirinha e os parentes indígenas em Rondônia. Constantemente, Marcia desce o Rio Madeira para chegar na cabeceira do lago Uruapeara, lugar de origem da sua avó _ onde a sua mãe está retomando um castanhal, como afirma a parente em entrevista ao jornalista Marcelo Carnevale. Nesse ambiente e integrada na luta pelo bem viver e com mais de vinte anos no magistério, Marcia é um exemplo de educadora indígena. Ela dedicou cinco anos ao dia a dia de aulas na Escola Estadual Professor Francisco Desmorest Passos. Nessa Escola foi articulada a sua remoção “sob a queixa de Marcia insistir na temática indígena para estudantes”. A manobra operada pela coordenação pedagógica da Escola “resultou numa sindicância por abandono de emprego, por conta da recusa da professora em se mudar do vilarejo, abrir mão da própria casa, do roçado, da vida comunitária e assumir um novo posto na capital de Porto Velho”.6

No livro “O espaço lembrado”, Marcia Mura narra as experiências de vida nos seringais da Amazônia. Um trecho dessa narrativa revela o quanto Marcia sofreu para tornar-se referência na reconstrução das suas memórias pelo caminho das águas, que é também um caminho sagrado para o seu povo. Em sua narrativa sobre o deslocamento, Marcia Mura descreve _ conforme ela mesma diz_ uma bela imagem; sobre uma embarcação que ela conduz pelas águas do Rio Madeira:

A busca dos homens por melhores estradas de seringais, o encontro familiar, o destino das mulheres em seguir seus maridos, levaram a família de Francisca a navegar para mais longe, nas águas do rio Madeira. Sem dúvida, os novos rumos da vida de muitas famílias na região amazônica foram e ainda são percorridos pelos rios. O rio levou-os para destinos traçados a partir das escolhas feitas no decorrer de suas vidas.7

No poema “Caminho de volta”8, da escritora indígena Marcia Mura, temos um recorte de sua autohistória, isto é, a história de vida contada, versejada pela própria autora:

Sonhei com a maloca ancestral

Sentada no chão batido no cantinho da maloca uma Anciã

Seu olhar transcendia ancestralidade

Tudo emanava o espírito sagrado

As palhas de paxiúba

E aquela anciã que era eu mesma

Agora eu sei o caminho que levará à maloca

Ancestral!

À propósito da feitura do presente texto, na forma de relato; confesso que se trata de uma escrita-respiro oriunda do ato de apreender a importância de ler os mundos pelo viés dos saberes ancestrais. Aqui, cabe uma autohistória. Não é à toa que eu penso nos ensinamentos do educador Paulo Freire, e imagino e (re)escrevo à medida que a (re)leitura vinda da oralidade _ transfigurada na escrita _ se transforma no ato de escrever e viver; no sentido mesmo de que estão vivas (em mim) a poesia, a história e a memória dos antigos.

Expor essa experiência e preservá-la em forma de relato significa um dos modos de ver, de intuir que o nosso papel também é fazer arte9; significa fortalecer a nossa resistência, a nossa identidade indígena. Negar essa resistência configura uma afronta, como diria Jerome Rothenberg, na obra Etnopoesia do milênio10. Sendo assim, compartilho uma porção atávica como sugere o poema “Ao redor da fogueira”; um poema-respiro-resistência que eu escrevi ao longo da Covid-19. Essa escrita se deu como necessidade de respirar. Mediante o convite do Instituto Moreira Sales (IMS), abracei esse projeto que convidou cerca de 170 artistas individuais e coletivos que participaram do programa de fomento à criação em tempos de pandemia. O poema que segue foi acolhido pelo IMS, no projeto da Quarentena11:

Ao redor da fogueira*

Aui estamos

apesar dos tempos sombrios

Aqui estamos

pelo direito de ser

diferente e viver

porque somos iguais

nas diferenças existimos

O tempo desaba

e aqui estamos

do nosso jeito, resistindo

imagine há quanto tempo…

há séculos sobrevivendo

em meio a itromissão

de outros valores

Aqui estamos!

Apesar dos perigos,

do nosso jeito, existimos

pra recuperar a Terra

e cuidar do plantio

na luta contínua

por um lugar no mundo

Aqui, estamos!

Apesar da incerteza,

nosso povo segue

no preparo da chicha

da mandioca e o beiju

no embalo da cantoria

de cigarras e pássaros

Aqui, estamos!

Apesar das injúrias, seguimos!

Do nosso jeito,

mantendo os costumes

de manejar as maracas

e reconhecer no cocar

os sinais da resistência

Aqui, estamos!

Apesar dos tempos obscuros,

a luta continua

no solo sagrado, na caça

na pesca, na crença, na dança

na roda de Toré,

no manejo da Terra, resistimos!

Aqui, estamos!

Apesar da exclusão,

ouvimos os ancestrais

no meio da noite escura

contando muitas histórias

bem ao redor da fogueira.

Resistimos!

Aqui, alhures, na condição de mulher potiguara nessa terra de Tupã; afirmo que os saberes indígenas norteiam meus escritos, quer seja em prosa ou em verso. Nesse ritmo, segurei lutando pelo direito de existir e resistir; pelo direito de falar e escrever do nosso jeito, ciente de que muito antes dos colonizadores atravancarem os nossos caminhos; já singrávamos com a nossa canoa (a literatura indígena) pelo mar da Ancestralidade. Dos ensinamentos, tomo a liberdade de imaginar e escreviver à medida que a (re)leitura oriunda da oralidade _ transfigurada na escrita _ se transforma no ato de escrever e viver; no sentido mesmo de que estão vivas (em mim) a poesia, a história e a memória dos antigos.

Notas

  • Graça Graúna, escritora indígena potiguara/rn.
  1. Jerome Rothenberg. Etnopoesia do milênio. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2006, p.80.
  2. Vera Maria Candau. Oficinas pedagógicas de direitos humanos. Petrópolis/RJ, Vozes, 2003.
  3. Graça Graúna. Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil. Belo Horizonte: Mazza, 2013, p.15.
  4. Graça Graúna, Ernani M. dos Santos e Waldênia L. de Carvalho. Direitos humanos em movimento. Recife: Edupe, 2011, p.18.
  5. Luiz Ruffato. Rascunho: o jornal de literatura no Brasil. /Democracia e literatura/. Disponível em: rascunho.com.br. Acesso em 29/06/2023.
  6. Marcelo Carnevale. A palavra como flecha. Entrevista com Marcia Mura. Disponível em: amazoniareal.com.br. Acesso em 01/jul/2023. Ao longo da entrevista, consta o poema “Caminho de volta”, de Marcia Mura.
  7. Marcia Mura. O espaço lembrado: experiências de vida em seringais da Amazônia. Manaus: Edua, 2013, p.195.
  8. Ver nota 6.
  9. Graça Graúna. Nosso papel também é fazer arte. Revista Literatura em Debate, v. 12, n. 22, p. 223-230, jan/jul. 2018. Recebido em: 18 ago. 2017. Aceito em: 06 dez. 2017.
  10. Ver nota 1.
  11. IMS Convida/Quarentena. Disponível em: https://ims.com.br/convida/graca-grauna/. Acesso em 02/jul./2023.

	

MinC e MEC 2023: aprender para construir

O Ministério da Cultura (MinC) e o Ministério da Educação (MEC) realizam entre os dias 14 e 16 de junho, em Brasília, o Seminário Nacional de Cultura e Educação – Aprender para Construir. O objetivo é promover o debate sobre a construção de políticas públicas intersetoriais que destaquem a integração entre arte, cultura e educação como estratégias fundamentais para a criação de repertórios e a democratização de atividades culturais e educativas. 

“Esse seminário vai ser crucial para compormos esse movimento novo, de diálogo entre tantos agentes. É disso que estamos precisando para poder, daqui a alguns anos, ver florescer oportunidades novas, compreendendo a aliança entre cultura e educação como vitais em nossas vidas e na formação humana. O MinC e o MEC vão caminhar juntos e vamos aproveitar o máximo para trazer conquistas para o povo brasileiro”, disse a ministra Margareth Menezes. 

Cultura e educação andam juntos e são essenciais para a promoção da cidadania, dos direitos humanos, da diversidade, da sustentabilidade e do desenvolvimento. Por isso, o Ministério da Educação está ao lado do Ministério da Cultura na promoção do Seminário Nacional de Cultura e Educação: aprender para construir. Juntos, vamos pensar políticas públicas integradas, com ênfase na formação artística e cultural na educação básica”, reforçou o ministro da Educação, Camilo Santana.

De acordo com o secretário de Formação, Livro e Leitura do MinC, Fabiano Piúba, o Seminário vai proporcionar um espaço de debate e reflexão em torno das políticas integradas de cultura e educação. “Com ênfase nas agendas de formação artística cultural e do Plano Nacional do Livro e Leitura, pretendemos pautar dentro dos Ministérios, dos governos e da sociedade brasileira a integração entre as políticas de cultura e de educação como vetores estratégicos para o desenvolvimento da Nação”, afirma. 

Democratização

O Seminário também será uma oportunidade para discutir as interfaces entre o Plano Nacional de Cultura, o Plano Nacional de Educação e o Plano Nacional de Livro e Leitura, dando relevo às  políticas de formação artística cultural e à democratização do acesso ao livro e formação de leitores.

Além de apontar possíveis ações com ênfase na promoção da cidadania e no respeito aos direitos humanos, à diversidade e à sustentabilidade socioambiental, contribuindo para a qualificação da educação e para desenvolvimento cultural. 

A programação inclui a realização de painéis abertos ao público e a discussão em Câmaras Técnicas, restrita a participantes do primeiro encontro dos GTs, que devem propor um calendário de encontros e estratégias de atuação. 

Serviço: 

Seminário Nacional de Cultura e Educação – Aprender para Construir

Abertura 

Dia: 14/6 (quarta-feira)

Hora: 10h às 12h

Local: Memorial Darcy Ribeiro (Beijódromo) na UnB

Asa Norte, Brasília-DF

Transmissão online pelo canal do YouTube do MEC

Local dos Painéis e GT´s: Hotel Planalto Bittar, Setor Hoteleiro Sul, Qd. 3 Bl. A

Programação completa abaixo 

Dia 14 de junho

10h – 12h: ABERTURA
Ministra da Cultura, Margareth Menezes, e secretária executiva do Ministério da Educação, Maria Izolda Cela De Arruda Coelho

13h30 – 15h: PAINEL 1
“Nada sobre nós sem nós” – Ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena (Leis nº 11.645/08 e nº 10.639/2003)

Dia 15 de junho

9h – 10h: PAINEL 2
Experiências e boas práticas nas relações entre a educação formal e informal – Tempo integral e educação integrada

10h – 12h: PAINEL 3
O Plano Nacional de Livro e Leitura

13h30 – 15h30: PAINEL 4
Espaços para a criação de repertórios, formação artística e cultural no Brasil – Diálogos possíveis

Dia 16 de junho

13h30 – 15h: PAINEL 5
“Cultura e Educação: evidências para o desenvolvimento integral

15h – 17h: CONFERÊNCIA DE ENCERRAMENTO
Conceição Evaristo, Graça Graúna e Eliane Cruz
Mediação: Zara Figueiredo (SECADI/MinC) e Fabiano Piúba (SEFLI/MinC)

Disponível em:

https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/aprender-para-construir-minc-e-mec-realizam-seminario-nacional-sobre-cultura-e-educacao