MinC e MEC 2023: aprender para construir

O Ministério da Cultura (MinC) e o Ministério da Educação (MEC) realizam entre os dias 14 e 16 de junho, em Brasília, o Seminário Nacional de Cultura e Educação – Aprender para Construir. O objetivo é promover o debate sobre a construção de políticas públicas intersetoriais que destaquem a integração entre arte, cultura e educação como estratégias fundamentais para a criação de repertórios e a democratização de atividades culturais e educativas. 

“Esse seminário vai ser crucial para compormos esse movimento novo, de diálogo entre tantos agentes. É disso que estamos precisando para poder, daqui a alguns anos, ver florescer oportunidades novas, compreendendo a aliança entre cultura e educação como vitais em nossas vidas e na formação humana. O MinC e o MEC vão caminhar juntos e vamos aproveitar o máximo para trazer conquistas para o povo brasileiro”, disse a ministra Margareth Menezes. 

Cultura e educação andam juntos e são essenciais para a promoção da cidadania, dos direitos humanos, da diversidade, da sustentabilidade e do desenvolvimento. Por isso, o Ministério da Educação está ao lado do Ministério da Cultura na promoção do Seminário Nacional de Cultura e Educação: aprender para construir. Juntos, vamos pensar políticas públicas integradas, com ênfase na formação artística e cultural na educação básica”, reforçou o ministro da Educação, Camilo Santana.

De acordo com o secretário de Formação, Livro e Leitura do MinC, Fabiano Piúba, o Seminário vai proporcionar um espaço de debate e reflexão em torno das políticas integradas de cultura e educação. “Com ênfase nas agendas de formação artística cultural e do Plano Nacional do Livro e Leitura, pretendemos pautar dentro dos Ministérios, dos governos e da sociedade brasileira a integração entre as políticas de cultura e de educação como vetores estratégicos para o desenvolvimento da Nação”, afirma. 

Democratização

O Seminário também será uma oportunidade para discutir as interfaces entre o Plano Nacional de Cultura, o Plano Nacional de Educação e o Plano Nacional de Livro e Leitura, dando relevo às  políticas de formação artística cultural e à democratização do acesso ao livro e formação de leitores.

Além de apontar possíveis ações com ênfase na promoção da cidadania e no respeito aos direitos humanos, à diversidade e à sustentabilidade socioambiental, contribuindo para a qualificação da educação e para desenvolvimento cultural. 

A programação inclui a realização de painéis abertos ao público e a discussão em Câmaras Técnicas, restrita a participantes do primeiro encontro dos GTs, que devem propor um calendário de encontros e estratégias de atuação. 

Serviço: 

Seminário Nacional de Cultura e Educação – Aprender para Construir

Abertura 

Dia: 14/6 (quarta-feira)

Hora: 10h às 12h

Local: Memorial Darcy Ribeiro (Beijódromo) na UnB

Asa Norte, Brasília-DF

Transmissão online pelo canal do YouTube do MEC

Local dos Painéis e GT´s: Hotel Planalto Bittar, Setor Hoteleiro Sul, Qd. 3 Bl. A

Programação completa abaixo 

Dia 14 de junho

10h – 12h: ABERTURA
Ministra da Cultura, Margareth Menezes, e secretária executiva do Ministério da Educação, Maria Izolda Cela De Arruda Coelho

13h30 – 15h: PAINEL 1
“Nada sobre nós sem nós” – Ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena (Leis nº 11.645/08 e nº 10.639/2003)

Dia 15 de junho

9h – 10h: PAINEL 2
Experiências e boas práticas nas relações entre a educação formal e informal – Tempo integral e educação integrada

10h – 12h: PAINEL 3
O Plano Nacional de Livro e Leitura

13h30 – 15h30: PAINEL 4
Espaços para a criação de repertórios, formação artística e cultural no Brasil – Diálogos possíveis

Dia 16 de junho

13h30 – 15h: PAINEL 5
“Cultura e Educação: evidências para o desenvolvimento integral

15h – 17h: CONFERÊNCIA DE ENCERRAMENTO
Conceição Evaristo, Graça Graúna e Eliane Cruz
Mediação: Zara Figueiredo (SECADI/MinC) e Fabiano Piúba (SEFLI/MinC)

Disponível em:

https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/aprender-para-construir-minc-e-mec-realizam-seminario-nacional-sobre-cultura-e-educacao

Carta da semana da Terra

Cosmovisão andina da Mãe Terra.
Imagem: Google

Carta da Semana da Terra

Abril indígena de 2023

Mãe, tá difícil até de respirar…

Hoje seria seu dia, mas nos deparamos com as pessoas envolvidas em celebrações com tintas no rosto e cocares de plástico; pessoas que nos chamam de “índio” e que agem como se tivessem nos “descoberto”. A realidade é que brincam com a nossa identidade como se fôssemos parte da fantasia; como se a gente fosse distante e não fossemos todos filhos da Terra, seus filhos. Mãe, essas pessoas nos sufocam!  Todos os dias escutamos coisas absurdas sobre como devemos ser e viver, mas essas pessoas não estão em nossa pele e, como se não bastasse, esquecem daqueles que vieram antes de nós; esquecem que te banharam com nosso sangue; mas sabemos Mãe, que ouviste o nosso choro, os nossos cantos e as nossas maracas. Por todo esse tempo, Mãe Terra, você tem sido nosso alento; você é nossa origem: surgimos de ti e para os teus braços voltamos. Mãe, estamos sofrendo porque te contaminam, jogam mercúrio em tuas águas e poluem o teu solo sagrado. Esses venenos continuam matando teus filhos. Até quando, continuarão arrancando de ti os teus braços – as tuas árvores que nos acolhem, que purificam o ar que respiramos?

Mãe, tá difícil de respirar! Na cidade continuam degradando teu solo, teu ventre. Constroem edifícios que te sufocam e nos marginalizam. Não somos considerados teus filhos, mesmo quando na urbanidade nos encontramos. Somos feitos de ti, onde quer que estejamos.

Mãe, temos fome! Não apenas aquela fome que dói a barriga e tira o sono, mas aquela fome de justiça. O alimento que sacia nossa fome é aquele que vem do reconhecimento do território como nosso. A fome de justiça alimenta a nossa luta, mas precisamos também de descanso. Estamos cansados, mãe! Cansados de precisar afirmar quem somos; cansados de nos matarem; cansados de não ocuparmos o espaço que nos pertence. Estamos exaustos de falarem por nós!

Mãe, a vacina chegou! Ajudou muitos de nós a respirar, mas ainda não há remédio para estancar a ignorância e a violência. Ainda é preciso aprender a sair da vaidade que corrompe o espírito e as (n)ações. Perderam a humanidade, mas o Amanhã, Mãe, dependerá de nós, de todos os teus filhos juntos. Depende de voltar para casa, de voltar para ti. Voltar para a Mãe Terra e saciar a fome. Temos fome de alimentar nossos “eus”, porque somos parte do Coletivo com a força dos ancestrais; com a simplicidade e, ao mesmo tempo, com a força da natureza.  Mãe, o Coletivo nos chama para entoar os cânticos e, nesse ritmo, pedir ao nosso Pai Tupã que nos proteja e nos guie ao longo da nossa jornada. Existir e Resistir é preciso.

Assinam esta Carta da Semana da Terra

Profª Graça Graúna, filha do povo Potiguara/RN, (Ciências Sociais/Fensg); Profª Waldênia Leão de Carvalho (Coor. Ciências Sociais/Fensg);  Prof. Renan Cabral da Silva (Ciências Sociais/Fensg) e o seguinte grupo Discente junto à Disciplina Antropologia Indígena: Alberth Alexsander da Silva Pereira, Dayane Bezerra da Silva, Deborah Larissa Afonso de Arruda, Glória Maria Nemesio da Silva, Jecenita Ferreira da Silva, Júlia Lucena de França, Karen Maria de França Silva, Maria Liz Medeiros Nery da Fonseca, Maria Vitória Tetéas de Moura Ferreira, Mileide Vitorina Moreira, Mirella Barbosa Fernandes, Nikolas Kotronakis Ramos Lopes Barreto e Thais dos Santos Barbosa.

Al corazón de la tierra

Al corazón de la tierra”: uma canção necessária

Quando compartilhei a “Carta da Terra”, recebi afetuosos comentários.

À medida que as visitas foram chegando ao blog e por whatsapp e e-mails, senti necessidade de buscar possíveis canções com temática referente à nossa Mãe Terra. Desse modo, tive a grata satisfação de encontrar no Instagram de uma amiga gestora de projetos culturais (@eliene_r_o) um áudio que me chamou atenção; a começar pelo título: “Al corazón de la tierra”. Imediatamente, perguntei a Eliene se ela me ajudaria a entrar em contato com os autores do precioso áudio.  Não demorou muito e no mesmo dia, a minha amiga falou com muito entusiasmo que conseguira falar com um dos autores do áudio e foi logo passando a ficha técnica do grupo.

Trata-se de um trabalho artístico compartilhado por @aristimusica, da Colômbia. A canção e a letra foram compostas por Sebastian (@casaumapaz) com o produtor musical Aristi. A capa do áudio foi ilustrada por Paola León (@frq1320). O áudio também conta com a participação de @juanignacioarbaiza, na flauta.

No dia seguinte, ao comentar com Eliene sobre o meu desejo de postar o áudio junto a Carta da Terra, recebi a noticia de que Sebastian & Aristi permitiram a publicação do áudio neste blog. Então, sintam-se à vontade para escutar a canção, neste link: https://ditto.fm/al-corazon-de-la-tierra

Creio que esse áudio sugere uma estreita relação de amor com a Terra, uma relação semelhante a que expomos na carta coletiva; pois como diria o Chefe Sealth (em 1854): a terra não pertence ao homem. Somos nós que pertencemos à Terra.

Saudações indígenas,

Graça Graúna (filha do povo potiguara/RN)

Saberes indígenas: de sonhos e resistência

Paulo Petronílio (UnB), Gustavo Caboco (Artista indígena), Graça Graúna (UPE, indígena) e Pedro Mandagará(UnB)

Saberes Indígenas: de sonhos e resistência(*)

Graça Graúna (filha do povo Potiguara/RN)

Na apresentação do livro “A queda do céu”, escrito pelo yanomami Davi Kopenawa e traduzido pelo antropólogo francês Bruce Albert (1), o xamã revela que as palavras de Omama são muito antigas, mas os xamãs as renovam o tempo todo. Assim é e será, pois Omama (único professor do xamã yanomami) alerta que todos/as nós carecemos de sabedoria. Sigamos, então, à luz das palavras dos encantados e, dessa forma, abrir o nosso pensamento.

Das palavras dadas, um diálogo possível. Nesta perspectiva, eu me recordo da oportunidade que me foi dada por meio de um convite, para escrever um artigo (2) acerca desse livro xamânico.  Escrever “a quatro mãos” não é uma tarefa fácil, pois requer um olhar crítico-afetivo sobre o assunto. Desse modo, o exercício de escrita foi acontecendo e maturando na tessitura da confiança, do respeito e da amizade entre as partes; as palavras foram se revelando mais inquietas entre os e-mails, os seminários e os encontros literários presenciais (antes da pandemia) e em diferentes locais:  ora em Minas, Acre, Roraima, Recife, Brasília, França, Bahia e algures. A escritura minha e do outro; a escritura do outro atrelada as minhas palavras oriundas da ancestralidade. O fato é que a consciência de ser o que somos (indígenas ou não) nos autoriza a lutar pelo Bem Viver, por um mundo melhor, ou como diria o xamã Yanomami sobre a urgência de assumirmos as possibilidades de renovar as nossas próprias palavras e, desse modo, nos unirmos as forças encantadas, sagradas, ancestrais para evitar a queda do céu.

Penso, imagino a minha escrita com a escritura do outro, melhor dizendo; a minha critica-escritura e a critica-escritura do outro e nessa instância, cabe dizer que os Encantados revelam para nós o quão importante podemos ser ao cuidar da nossa Mãe Terra. Quando temos consciência dessa relação com a terra, com o sagrado, a Ancestralidade vem dialogar por meio dos sonhos. Esse diálogo pode acontecer quando intuímos o nosso pertencimento (quer tenhamos ou não raiz afro brasileira, indígena e cigana, por exemplo). Esta percepção é e pode ser também fruto de diálogo entre os povos (3).

Quando dialogamos acerca da enunciação em Kopenawa; podemos ressaltar que ele assume desde a voz dos animais e da floresta até a voz coletiva de seu povo. Cabe, aqui, enfatizar que a narrativa de Kopenawa configura-se em “auto-história” na qual o protagonista conta como se tornou um xamã após deixar o convívio com os “outros”. O xamã diz: “Eu, um Yanomami, dou a vocês, os brancos, esta pele de imagem que é minha”.

À luz dessa enunciação, humildemente atrevo-me na seguinte sentença: como sugere o tema, eu – Graça Graúna, mulher indígena – apenas desenho a invisibilidade de um pássaro e as penas que também são minhas. Porque “o futuro indígena é hoje” (4), atrevo-me tanto quanto me apresso em sair por aí, de mãos dadas, contra as armadilhas dos tempos nus, severos. Torno a me apressar e insisto: devemos combater os desafetos, as injúrias. E pelo direito de me reconhecer filha da terra, digo que o meu povo também me reconhece.

Observação: a propósito da relação entre diálogo e ancestralidade, apresentei (na ocasião) textos poéticos em alguns livros de minha autoria: Canto Mestizo (1999), Tear da palavra (2007), Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil (2013), Fios do tempo (2021), e na Antologia Poesia para mudar o mundo, v. 1, da Blocos Editora (versão e-book, 2013 e versão impressa, 2019).

Notas:

(*) CONVERSAS SOBRE LITERATURA III, no Auditório do IL-UnB (ICC-Sul, BSS-099), as 16h do dia 13 de abril de 2023.

1) Davi Kopenawa. A queda do céu. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 65.

2) Graça Graúna e Viviane Maia. A palavra habitada: a enunciação narrativa de um xamã em “A queda do céu”. Revista Verbo de Minas, v. 20, n. 36, p. 48-58, dez. 2019.

3) Enquanto eu escrevia este relato, troquei ideias sobre diálogo e ancestralidade com a pesquisadora Randra Kevelyn Barbosa Barros (via WhatsApp), 13/04/2023.

4) No canal You Tube, conferir o vídeo de Cristian Wariu (@cristianwariu), sobre o tema da maior mobilização indígena do Brasil: “O futuro é indígena”. Acesso em 13.04.2023.