Caoi defende que Declaração da OEA sobre os Direitos dos Povos Indígenas deve corrigir restrições da Declaração da ONU

Texto: Natasha Pitts  –  Jornalista da Adital
Entre os dias dois e cinco de junho acontece em Cochabamba, na Bolívia, o 42º Período de Sessões da Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) e entre os 86 pontos de pauta desta reunião está o Projeto de Declaração Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas. O projeto está engavetado há vários anos e por este motivo a Coordenadora Andina de Organizações Indígenas (Caoi) duvida que ele finalmente seja aprovado.
Em carta aberta assinada por Miguel Palacín Quispe, coordenador geral da Caoi, é lançado um questionamento sobre a verdadeira necessidade de uma Declaração Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas, já que está em vigor há quase cinco anos a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas, que aponta padrões internacionais a serem seguidos e é o marco interpretativo das normas nacionais sobre os direitos desta população. Contudo, segundo considera a Caoi, o mecanismo tem uma série de restrições que precisam ser superadas.
“Não precisamos de uma Declaração da OEA se esta só vai copiar a Declaração da ONU, sem superar restrições, contidas, entre outros, nos artigos 4 e 46”, explicam. Também reclamam o fato de alguns Estados relutarem em corroborar direitos que já estão reconhecidos, como é o caso dos Estados Unidos e do Canadá, que bloqueiam a aprovação de uma Declaração que apenas serviria para reconhecer o que já foi reconhecido e aprovado por eles em outra ocasião. A falta de consenso, além de atrasar a aprovação da Declaração Americana, tornou o documento defaso, já que ele data de 1997. Hoje, diversos pontos da Declaração já se tornaram parte de outros instrumentos internacionais e até de leis nacionais e constituições.
“As negociações da Declaração da OEA não são democráticas, pesa mais a palavra e o voto dos países do norte. Não só os Estados Unidos, suas multinacionais, suas bases militares e seus tratados de ‘livre comércio’. Três das dez maiores corporações mineiras do mundo têm sua sede no Canadá e estas operam na América do Sul com uma longa história de desastres ambientais e repressão das comunidades: Barrick Gold (a maior empresa de mineração aurífera do globo), Kinross Gold e Gold Corp”, afirma a Caoi, deixando claro porque não é interesse dessas nações garantir os direitos dos povos indígenas.
O que esta população quer é que a opinião de organizações regionais como COICA Amazônica, CAOI andina, CIMA e CICA na Mesoamérica e América Central seja ouvida e que se leve em consideração a realidade particular do continente e de seus povos indígenas. Realidade esta que consiste, entre outras coisas, no fato de a América abrigar as maiores zonas de biodiversidade e reserva de água do planeta.
Por isso, acreditam na necessidade de proteger estas riquezas, sobretudo na América Latina, onde os governantes abrem as portas e oferecem a melhor parte de seus territórios para corporações transnacionais interessadas em praticar atividades extrativas, sobretudo mineiras, petroleiras e florestais, que vulneram os direitos territoriais, ambientais, culturais e o direito à consulta e consentimento prévio, livre e informado dos povos indígenas.
Caoi defende que todos estes pontos precisam ser abordados na Declaração da OEA sobre os Direitos dos Povos Indígenas, caso contrário não é necessário aprovar um novo documento que apenas servirá de réplica da Declaração das Nações Unidas e que não representará um avanço.
Fonte: Adital – www.adital.com.br

Índios do Alto Xingu iniciam montagem de aldeia

Imagem extraída do Google. Oca Rio+20

A casa dos povos indígenas durante a conferência Rio+20 começou a tomar forma na tarde de ontem pelas mãos de 21 índios Kamaiurá, do Alto Xingu, em Mato Grosso. A aldeia Kari-Oca, sede do encontro de povos nativos de todo o mundo, está sendo erguida no campus da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Jacarepaguá, zona oeste do Rio. No terreno, de 7 mil m2, os índios trabalham para levantar duas ocas de debates, alojamentos e uma tenda tecnológica, de onde as discussões serão transmitidas via internet para povos indígenas dos EUA ao Japão. A oca sediará encontros e debates sobre temas como alimentação, mudanças climáticas, energia limpa, erradicação da pobreza e economia verde. No total, cerca de 1.200 índios circularão pelos espaços. Eles vão preparar um documento que será entregue aos representantes da ONU – OESP, 30/5, Vida, p.A22.

21 de maio 2012: Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento

Imagem extarída do site Adital
Fonte: Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e Adital
Relatório Mundial da Unesco Investir na diversidade cultural e no diálogo intercultural
Introdução

           A diversidade cultural vem suscitando um interesse notável desde o começo do novo século. Porém os significados que se associam a esta expressão “cômoda” são tão variados como mutáveis. Para alguns a diversidade cultural é intrinsecamente positiva, na medida em que se refere a um intercâmbio da riqueza inerente a cada cultura do mundo e, assim, aos vínculos que nos unem nos processos de diálogo e de troca.

Para outros, as diferenças culturais fazem-nos perder de vista o que temos em comum como seres humanos, constituindo assim a raiz de numerosos conflitos. Este segundo diagnóstico parece hoje mais crível na medida em que a globalização aumentou os pontos de interação e fricção entre as culturas, originando tensões, fraturas e reivindicações relativamente à identidade, particularmente a religiosa, que se convertem em fontes potenciais de conflito. Por conseguinte, o desafio fundamental consistiria em propor uma perspectiva coerente da diversidade cultural e, assim, clarificar que, longe de ser ameaça, a diversidade pode ser benéfica para a ação da comunidade internacional. É esse o objetivo essencial do presente relatório.
Relatório mundial da Unesco
Na linha da convicção da UNESCO sobre a necessidade e o valor intrínseco da fecunda diversidade das culturas do mundo, inscrita na sua Constituição de 1945, os objetivos do Relatório Mundial sobre a Diversidade Cultural são os seguintes:
– analisar a diversidade cultural em todas as suas facetas, esforçando-se por expor a complexidade dos processos, ao passo que identifica um fio condutor principal entre a multiplicidade de possíveis interpretações;
– mostrar a importância da diversidade cultural nos diferentes domínios de intervenção (línguas, educação, comunicação e criatividade) que, à margem das suas funções intrínsecas, se revelam essenciais para a salvaguarda e para a promoção da diversidade cultural;
– convencer os decisores e as diferentes partes intervenientes sobre a importância em investir na diversidade cultural como dimensão essencial do diálogo intercultural, pois ela pode renovar a nossa percepção sobre o desenvolvimento sustentável, garantir o exercício eficaz das liberdades e dos direitos humanos e fortalecer a coesão social e a governança democrática.
Deste modo, o Relatório Mundial propõe-se a fazer uma resenha das novas perspectivas abertas pela análise dos desafios da diversidade cultural e, ao fazê-lo, traçar novas modalidades para acompanhar e orientar as transformações em curso. Por conseguinte, o Relatório Mundial não pretende fornecer soluções pré-determinadas às questões com as quais se podem confrontar os decisores. O seu objetivo consiste, antes, em sublinhar a complexidade desses problemas, que não podem solucionar-se simplesmente pela vontade política, mas que na generalidade exigem uma melhor compreensão dos fenômenos subjacentes e maior cooperação internacional, em particular mediante o intercâmbio de boas práticas e a adoção de diretrizes comuns.
O Relatório não pretende fazer o inventário universal da diversidade cultural, estabelecido na base de indicadores disponíveis, como faz com o Relatório Global de Monitoramento de Educação para Todos, que a UNESCO publica. Ainda que este Relatório Mundial inclua um anexo estatístico com 19 quadros referentes a diversos âmbitos da cultura e um capítulo dedicado a considerações metodológicas, elaborado em estreita colaboração com o Instituto de Estatística da UNESCO em Montreal, a formulação de indicadores na esfera da diversidade cultural encontra-se apenas no seu início. Para realizar um inventário dessa natureza seria necessário levar a cabo, com o acordo dos EstadosMembros da UNESCO, uma verdadeira investigação mundial sobre a diversidade cultural, tarefa que necessitaria de recursos muito mais amplos que os consignados a este Relatório, embora pudesse no futuro vir a ser realizado pelo Observatório Mundial sobre a Diversidade Cultural, cuja criação é recomendada pelo presente Relatório.
A UNESCO espera participar deste modo no novo rumo que ultimamente tomou a análise da diversidade cultural, em consonância com o trabalho realizado na década de 1950 e as conclusões do relatório da Comissão Mundial de Cultura e Desenvolvimento (1996).
Num trabalho apresentado em 1952 à UNESCO, sob o título “Raça e História”, o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss sustentava que a proteção da diversidade cultural não deveria limitar-se à manutenção do status quo, pois é a própria diversidade que deve ser salva e não o conteúdo histórico que cada época lhe conferiu.
Proteger a diversidade cultural consistiria, assim, não tanto em garantir a perpetuação indefinida de determinada fase da diversidade, mas em assegurar que ela possa continuar a desenvolver-se. Pressuporia uma razoável capacidade de aceitar e manter o intercâmbio cultural, sem o considerar, no entanto, uma imposição do destino. O Relatório da Comissão Mundial de Cultura e Desenvolvimento havia já defendido, em termos semelhantes, que a diversidade cultural não era simplesmente um bem que se deveria preservar, antes consistia num recurso a fomentar, tendo em vista os seus potenciais dividendos, nomeadamente em âmbitos relativamente distanciados de um entendimento estrito de cultura. O presente Relatório procura dar sequência às principais conclusões do relatório anteriormente referido.
Nos últimos anos, os argumentos que a UNESCO incorporou na sua reflexão sobre a diversidade cultural foram assumidos por um número considerável de programas e organismos no quadro do sistema das Nações Unidas e das instituições de Bretton Woods.
O Banco Mundial, por exemplo, seguiu em diversas ocasiões o exemplo fornecido pela UNESCO no contexto da Década Mundial para o Desenvolvimento Cultural (1988-1997), tendo levado a cabo investigações sobre os vínculos entre a cultura e o desenvolvimento. Também o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) publicaram importantes relatórios sobre o assunto. Posteriormente, o Grupo de Alto Nível para a Aliança das Civilizações conferiu um relevo sem precedentes às iniciativas de fomento do diálogo entre pessoas, culturas e civilizações. Um outro objetivo do presente relatório consiste em contribuir para a reflexão e os estudos a que se dedicam os programas e organismos associados à UNESCO, em particular os relativos ao desenvolvimento.
O que é a diversidade cultural?
A diversidade cultural é, antes de mais nada, um fato: existe uma grande variedade de culturas que é possível distinguir rapidamente a partir de observações etnográficas, mesmo se os contornos que delimitam uma determinada cultura se revelem mais difíceis de identificar do que, à primeira vista, poderia parecer. A consciência dessa diversidade parece até estar sendo banalizada, graças à globalização dos intercâmbios e à maior receptividade mútua das sociedades. Apesar dessa maior tomada de consciência não garantir de modo algum a preservação da diversidade cultural, contribuiu para que o tema obtivesse maior notoriedade.
A diversidade cultural converteu-se também numa questão social de primeira ordem vinculada à maior diversidade dos códigos sociais que operam no interior das sociedades e entre estas. Perante essa variedade de códigos e perspectivas, os estados nem sempre encontram as respostas apropriadas, por vezes urgentes, nem logram colocar a diversidade cultural ao serviço do bem comum. Em contribuição à elaboração de respostas específicas para esta situação, este Relatório procura ser um marco de referência que permita compreender melhor os desafios inerentes à diversidade cultural. Nesse sentido, torna-se necessário identificar, para além da própria existência da diversidade, algumas das necessidades teóricas e políticas que inevitavelmente a diversidade não deixa de levantar.
A primeira dessas dificuldades liga-se à natureza especificamente cultural da diversidade. Para medir a sua heterogeneidade cultural, muitas sociedades lançam mão de indicadores étnicos ou linguísticos.
A primeira tarefa será, assim, examinar as diferentes políticas aplicadas sem perder de vista que o tema em análise é a diversidade cultural e não esses indicadores a que por vezes se reduz a diversidade. Uma solução poderia ser a adoção da mais ampla definição possível de cultura, segundo o espírito de consenso consagrado pela Declaração da Cidade do México sobre Políticas Culturais da UNESCO (1982), isto é, ”o conjunto dos traços distintivos, espirituais e materiais, intelectuais e efetivos que caracterizam uma sociedade ou um grupo social e que abarca, para além das artes e das letras, os modos de vida, os direitos fundamentais do ser humano, os sistemas de valores, as tradições e as crenças”. Esta definição tem o mérito de não adotar uma visão da cultura demasiado restritiva e de não se centrar num aspecto particular para definir o que a caracteriza.
Uma outra dificuldade tem a ver com a caracterização dos elementos constitutivos da diversidade cultural. A esse respeito, os conceitos de cultura, civilização e povos têm conotações diferentes segundo o contexto, por exemplo, científico ou político. Enquanto o conceito de culturas evoca entidades que tendem a definir-se com relação umas às outras, o termo civilização refere-se a culturas que afirmam os seus valores ou visões do mundo como universais e assumem uma atitude expansionista relativamente a outras que as não partilham (ou ainda o não fazem). É, pois, um desafio muito real procurar levar à coexistência pacífica diferentes centros de civilização. Segundo a concepção da UNESCO – e esta é uma construção muito afastada das construções ideológicas que profetizam o choque de civilizações – deve entender-se por civilização um processo em curso encaminhado para a conciliação de todas as culturas do mundo com base no reconhecimento da sua igual dignidade, no quadro de um projeto universal contínuo.
Uma terceira dificuldade prende-se à relação entre as culturas e a mudança. Transcorreram praticamente sete décadas do século XX antes que se compreendesse que as culturas são entidades que se transformam. Até então, verificava-se a tendência para considerar que permaneciam essencialmente imutáveis, e que o seu conteúdo se transmitia por canais diversos, como a educação ou ritos iniciáticos de diferentes tipos. Na atualidade, a cultura é entendida mais como processo: as sociedades vão-se modificando de acordo com os caminhos que lhes são próprios. O conceito de diferença resume bem essa dinâmica particular, segundo a qual, ainda que se modifique, uma dada cultura permanece a mesma.
Torna-se, portanto, necessário definir políticas que confiram uma inflexão positiva a estas diferenças culturais, de modo a que os grupos e as pessoas que venham a entrar em contato, em lugar de se entrincheirarem em identidades fechadas, descubram na diferença um incitamento para continuar a evoluir e a mudar.
Essas considerações vão no sentido de uma nova perspectiva sobre a diversidade cultural, uma perspectiva que leve em conta a sua natureza dinâmica e os desafios q ue as mudanças culturais impõem à identidade.
Isso envolve necessariamente uma mudança substancial na função que a UNESCO desempenha neste contexto. Na verdade, se, durante muito tempo, a preocupação da Organização se centrou na salvaguarda de locais, práticas e expressões culturais sob risco de desaparecer, agora deve aprender-se também a acompanhar a mudança cultural de modo a ajudar os indivíduos e os grupos a gerir mais eficazmente a diversidade. Assim, constitui o desafio último: gerir a diversidade.