Vitral de mulher

A propósito do dia 8 de março, compartilho o vitral poético que recebi da minha filha Ana Inês. A imagem que segue é parte de um conjunto de vitrais que eu fiz,  há quase uma década, para enfeitar as portas e  as janelas da casa de Ana.
Saudações poéticas,
Graça Graúna (indígena potiguara/RN)
Foto: Ana Inês
Parabéns por cada dia de conquista
Assim ficou meu cartão pra todas nós, num “Vitral de mulher”: (Ana Inês).
 
Vitral de  Mulher
(Ana Inês)
Mulher forte,
mesmo de coração partido
… libido traído
Mulher de sorte,
mesmo com olhar perdido…
ao encontrar nos filhos  seu mais belo  sorriso
Mulher de hoje, mulher de ontem,
mesmo quando no espelho não se vê…
saber ser  mulher
Mulher que se ama e se admira
mesmo quando, ao  olhar para outras, se inspira…
lembra sua raiz e, transparente, reflete a veia forte de mulher

Hoje é dia de gente grande!!

Imagem extraída do Google.
Íris Ferreira Cruz (Brasília/DF)
 
Quando tinha 2 anos ia caminhar todos os dias com minha vó… e o porteiro me dizia: “Bom dia, pequena!!” , logo… eu respondia: “Não sou pequena, sou grande igual a minha vó!!”.  Minha vozinha, hoje, é menor que eu… e sei lá minha atura, mas de 1,58 não passo!!   Quando comecei  a dar aula pra um bando de pimpolho vi a força com que esses pinguinhos de gente dizem ser tão grande!!  E num é que eles têm razão…  são maiores que muita gente por aí!! Não brincam de dissimular o mundo, porque brincam dizendo a verdade… não querem esconder nada, refletem desde uma  simples “conversa entre bonecas” até numa resposta a realidade em que vivem: “Não tenho nem irmão, nem irmã porque minha mãe precisa passar num concurso primeiro”!! É um povo que mostra o caráter, que não tem medo de aprender, mas é preciso tomar cuidado com o que ensina!! Eles tem a arte de contagiar sorriso e fazer tantas perguntas pra descobrir o mundo… mas ao mesmo tempo dizem saber de tudo!! Inventam histórias com a imaginação do tamanho de um elefante: “Não estou muito bem hoje, porque quando estava vindo pra escola um tubarão me mordeu!!”.  Dão cambalhota pra ver de um jeito diferente e mostram  o maior sorriso do mundo pra falar de quem admira: “Hoje é meu pai que vem me buscar, ele faz tanta bagunça…”!! Têm um pensamento tão limpo que acreditam que o pum de alguém que gostam pode ter cheiro de flor!! É um povo bonito e inteligente… que sabe quando é preciso parar a bagunça: “Pode mandar um bilhetinho pra minha mãe, dizendo que me comportei muito bem hoje?! …… Oba!!agora vou poder jogar vídeo game de noite”!! É uma galera difícil de convencer, mas que com um combinado tudo se resolve… Deixam uma pessoa doidinha quando só aceitam ser chamados por nomes de príncipes, princesas, super heróis… mas deixam o coração sempre mole: ”Gosto tanto de você, você é minha professora mais doidinha”!! Imagina só …  pensar o que fazer com um monte de gente pequena olhando pra você… esperando que os faça rir, mas nos final são eles que te fazem sorrir… você dança, ensina palavras novas, corre, pula e quando vê… eles estão fazendo tudo igualzinho a você… Olho pra minha bisa, olho pra minha vó… e vejo a força das crianças correndo pra abraçar o mundo!!

Guarani, Kaiowá e muitas mais – literatura indígena

 XVI BIENAL DO LIVRO RIO
Dia 3.set.2013, Café Literário
Tema:
Guarani, Kaiowá e muitas mais – literatura de índio.
Palestrante:
Graça Graúna
(indígena Potiguara/RN)

O tema deste Café Literário sugere que há muito mais literatura de autoria indígena do que supõe o senso comum.
Pensando nas muitas histórias que os parentes indígenas (de diferentes etnias) têm para contar, a intuição me diz que a memória e a poesia revelam que as utopias não se perderam. Nos caminhos da Ameríndia as utopias se realizam toda vez que as pessoas se unem para superar as barreiras a que são submetidas pelo capital e pela arquitetura do preconceito.
O fato de estarmos aqui nos permite afirmar que não perdemos nossa identidade, nossa memória, ainda que o nosso jeito de ser e de viver cause estranhamento  às pessoas da cidade grande. A identidade e a memória (à semelhança do amor) dão sentido a nossa existência.
Há mais literatura de autoria indígena do que supõe a vã filosofia. Este fato nos permite apresentar (embora resumidamente) um exemplo da força que tem a memória ancestral no cotidiano das mulheres indígenas em várias partes do mundo. Vejamos o pensamento de Nicolasa Quintreman, uma liderança entre o povo Mapuche, no Chile (Cf. PORANTIM apud GRAÚNA, 2013, p. 36):

Não me interessa o dinheiro, nem uma casa com cozinha. Tenho o meu lugar, meu fogão e minha terra para trabalhar. Tampouco quero a luz que me oferecem, para isso tenho o sol… com isso estou bem. […] a barragem não melhora a qualidade de vida, como disse o presidente. Tirar uma pessoa como se fosse um animal para um lugar que não lhe serve, que não conhece, isso não é qualidade de vida. Viver bem é permanecer na mesma casa onde eu nasci. A terra nos pertence, temos que cuidar dela, da mesma forma que a madeira, o rio e o capim que os porquinhos, as ovelhas e os cabritos comem. […] não vou amolecer, […] meu futuro será sempre o mesmo, não vou muda-lo. Morrerei na minha terra.
Outro exemplo edificante vem da poesia Mapuche escrita por Rayen Kvyeh. Em seus versos, ela nos convida a romper o silêncio, a lutar pelos nossos direitos; sua poesia nos encoraja a contar a nossa autohistória. Vejamos um fragmento:

rompe o silêncio

da memória milenar
do povo mapuche
neste relato
da história, gravada
nos espíritos
de nosso povo

A sabedoria ancestral é vida que corre pelas gerações, afirma o crítico português Salvato Trigo (apud GRAÚNA, 2013, p. 113). Dentro desta perspectiva, a poesia de Rayen Kvyeh fala dos sonhos, onde os ancestrais (seus avós) aconselham desde sempre a lutar pela liberdade, a lutar pela terra. Vejamos mais um trecho dessa poesia (Cf. GRAÚNA, p. 113):

nos meus sonhos

meus avós têm falado.
Da cordilheira ao mar
de norte a sul,
desde o mais profundo
da nossa mãe terra
suas vozes aconselham
que expulsemos
os usurpadores
da nossa terra.
Os usurpadores
da nossa liberdade.

Em várias partes do mundo há milhares de povos indígenas que expressam seu amor à terra, seu desejo permanente de justiça e liberdade, seja por meio da contação de histórias, da poesia, da arte plumária, do grafismo, do barro ou dos sonhos que trazem as canções da mata e do amor à natureza; pois como diria Ana da Luz Fortes do Nascimento (uma anciã Kaingang): somos a raiz da esperança, a multiplicação da luta à semelhança da terra que multiplica o cereal plantado.

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Rio de Janeiro, 3.set. 2013

GRAÚNA, Graça. Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2013.