Tocar o mundo*

Imagem: Fernando Stanknus, no Flickr

Estar no mundo
Não é favor
É louvor.

Raças, etnias se fizeram uma…
No Brasil
Se fizeram ânima.

E as brumas se desfizeram
Numa única pena da graúna
No ribombar da vida esperança
Essa ave augura a recriação humana
Brasileiríssima graúna.

Seu solopio por sobre grotas e veredas
Metafórica imagem de liberdade.
Sinaliza o último lugar de sonhos
Pois lá na plácida alvorada
Das promessas descalçadas de esperança
Não permite
Alva lembrança.
Única vontade de por fim ao desengano
Dos desenganados.

Só uma certeza resta.
Na fresta.
O sonhar, o espanto.
O solopio da graúna
Que teima.
Que levanta.
Um desabafo desafio
Tocar o mundo “com a justa ira dos traídos”.

(*)poema de Josuado Meneses

Nota 1: Eu, Graça Graúna, gostaria de compartilhar o poema “Tocar o mundo“; um presente que ganhei de Josualdo Meneses: poetamigo, professor de História na UPE. Ele aprendeu com Paulo Freire a não esconder o desejo de um mundo mais justo, um mundo melhor.
Nota 2: solopio é um neologismo do poeta Josualdo.
Nota 3 – poema disponível também no Overmundo.

Haiti : ajuda humanitária

UNICEF no Brasil recebe doações para as vítimas do terremoto no Haiti
Uma vez que quase a metade da população do Haiti tem menos de 18 anos, o UNICEF possui um papel especialmente decisivo e espera conseguir pelo menos 120 milhões de dólares, em todo o mundo, para sua ação de ajuda humanitária às vítimas do terremoto do último dia 12 de janeiro. Em um primeiro momento, os esforços do UNICEF para ajudar a salvar vidas e contribuir para a recuperação do Haiti estarão focados no abastecimento de água potável e saneamento, na alimentação terapêutica para bebês e crianças pequenas, no fornecimento de medicamentos e abrigos temporários.
O UNICEF no Brasil está recebendo doações para as vítimas do terremoto no Haiti. As doações podem ser feitas em favor do Fundo das Nações Unidas para a Infância, no Banco do Brasil; agência 3382-0; conta-corrente nº 404700-1. O CNPJ do UNICEF é 03744126/0001-69.
Essa arrecadação do UNICEF no Brasil está sendo feita em articulação com as outras agências do Sistema ONU e tem como foco prestar socorro às crianças e aos adolescentes vítimas do terremoto.
O UNICEF no Brasil também está recebendo doações para o Haiti por meio de seu site seguro: doe agora! Mais informações sobre as doações podem ser obtidas pelo telefone 0800 601 8407.
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Nota: imagem disponível no Global Voices

…sobre um “canto peregrino e mestizo”

Ilustração: indios kadiweu
Capa: Agnes Pires
          Nada de novo e tudo de novo. No baú de lembranças, reencontro as boas palavras escritas em 2001 por um amigo, acerca de “Canto Mestizo – meu primeiro livro de poemas. Trata-se das impressões do professor e amigo Antonio Viana que, agora, compartilha o andar de cima com Manuel Bandeira e Irene preta, com Drummond e Cecília Meireles e outros que se foram; mas que deixaram o brilho de sua simplicidade, sensibilidade e sabedoria.
Confesso que senti uma grande vontade de comemorar os 10 anos de “Canto mestizo”, isto é, meu filho de papel e tinta publicado em 1999, pela Editora Blocos, com o prefácio de Leila Miccolis, poetamiga. Pensei em reunir os amigos, ouvir musica, falar de literatura…. enfim, reconhecer que estamos sobrevivendo e que há dez anos me vesti de coragem para mostrar timidamente meu canto atravessado de blues e sol. Pensei em fazer tanta coisa, mas não deu. Contudo, só o fato de estar aqui para compartilhar o desejo de rever os amigos e falar de poesia já é uma conquista, porque a poesia é parte de tudo aquilo que me move. A poesia é possível, não acaba nunca. Enquanto houver poesia, há vida; há esperança. Basta não desistir.
Assim, sem mais delongas, tomo a liberdade de convidar a todos(as) para celebrar a palavra à luz do pensamento vivo de Antonio Viana.
Graça Graúna (indígena potiguara/RN), 18 de dezembro de 2009
Impressões sobre um “canto peregrino e mestizo”
Tentarei expressar nestas palavras minha surpresa e meu encanto ao descobrir a poesia de Graça Graúna no seu Canto Mestizo, apresentado em duas partes: na primeira vemos a autora mostrando-se como um haijin (poeta de haicai), unindo simplicidade, sensibilidade e sabedoria, em poemetos concisos, em três versos, como o faziam os antigos haicaístas. Fiel à estética e aos princípios desta forma poética, a autora cristaliza a instantaneidade do momento, a transitoriedade do sentimento, assim como a fugacidade do tempo através de imagens do dia, palavras, cores e sons do cotidiano, da maneira mais simples possível, como deve realmente ser um belo e autentico haicai. Aqui captamos toda a emoção, a sensação e o sentimento da poetisa apresentados como uma espécie de convite a um diálogo e encontro maior com a sua poesia.
Na segunda parte do livro, Graça, não como uma cotovia, mas como a própria Graúna, nos leva em suas asas, a revisitar espaços poéticos: Recife, Pasárgada, Lisboa, entre outros, na companhia de escritores e artistas de todos os tempos. O “Inventário amoroso” que inicia esta parte, abre-nos as portas ao universo poético-intertextual; partindo de Cervantes passamos por Hesse, Rilke, Neruda, Eliot, Borges, Bandeira, Ascenso, Pessoa, Régio, Mário, Quintana e outros mais.
Uma discreta e sentida homenagem é feita a autores-cantores que com o seu canto e a força de suas mensagens marcaram com uma gota de desespero toda uma geração: Janis Joplin, Victor Jara, Violeta Parra.
A temática do Canto Mestizo desdobra-se em várias direções; o descobrimento dos “brasis” e o destino incerto do nosso povo: o índio, o negro e o próprio mestiço, no dizer da autora “crias de um homem submerso”. Podemos ainda descobrir os mares literários por onde navega Graça Graúna, através das evocações, alusões e citações dos seus mitos poéticos e por fim penetramos num mundo pessoal, povoado de mágoas, desencontros, “esperanças pardas”, incerteza, ânsias, mas também de “riquezas infinitas”; mundo este que nos faz lembrar a poética ferida de Florbela Espanca.
O azul que colore os poemas de Graça assemelha-se ao azul que corre dos dedos de Cecília e “colore as areias desertas”, ao “azul ausente” de Carlos Pena Filho, tentando aprisionar na cor as coisas que lhe são gratas. Graúna pousa sua tristeza no azul quase preto, cor da ausência das cores, ausência de tudo. E parafraseando a autora no poema “Gênesis”, aqui termino afirmando:
Faça-se eco este “canto mestizo”!

Antonio Viana, Recife, 2001.

Nota: texto publicado no Overmundo