Ao poeta Thiago de Mello

Foto: G.Graúna

Em abril de 1964, quando era adido cultural da embaixada do Brasil, no Chile; Thiago de Mello (1926-2022), filho da floresta amazônica, escreveu o poema “Estatutos do homem”. No mesmo período, o poeta chileno Pablo Neruda traduziu esse poema que, desde então, transita em praças, teatros, escolas e segue até hoje pelo mundo; comovendo multidões e afirmando a vocação de Thiago de Mello pela paz.  Que essa paz continue morando em nossos corações.

Com esta pequena homenagem ao poeta amazonense que habitou também a Cordilheira, reafirmamos o nosso grande respeito ao poeta que nos ensinou a viver, a acreditar no poder transformador da poesia. As suas palavras continuam vivas, atuais:

 “A poesia é uma arma contra as forças escuras, contra o império da injustiça, da arbitrariedade e do terrorismo”.

Descanse em paz, poeta.

Na luta de sempre pelos direitos humanos,

Graça Graúna

(Indígena potiguara/RN)

Referência.

Thiago de Mello. Os estatutos do homem. Trad. Pablo Neruda. Ilustração: Dafni A. Tzitzivakos. Cotia/SP: Ed. Vergarariba, 2001.

Foto: G.Graúna

Fios do tempo em forma de haikai

FIOS DO TEMPO: RESISTÊNCIA INDÍGENA EM FORMA DE HAIKAI

Escritora indígena do Rio Grande do Norte lança obra no Dia Internacional dos Direitos Humanos.

por Isabel Taukane (povo Kurâ-Bakairi,  Drª em Cultura Contemporânea, pela UFMT)

A produção de escritores indígenas tem levado o pensamento e o modo de vida indígena para púbico interessado pela temática da cultura indígena. Por outro lado, para escritores indígenas a produção de obras literárias é uma ferramenta de luta e resistência.

A palavra é resistência, resistir é fazer a defesa daquilo que importa para os povos indígenas, os valores ancestrais. O mundo capitalista a cada dia impõe a esses povos uma vida que é alheia, e nos últimos tempos cresceram as ofensivas para diminuir direitos já adquiridos pelos povos originários, na Constituição de 1988.

O livro é uma ferramenta, no qual se faz também conhecer a singularidade dos povos indígenas. A obra literária dá voz para aquilo que não se expressa por palavras, como por exemplo: as árvores, os animais, a água e as aves, entre outros seres. O livro é um meio em que se pode trazer o mundo xamânico, aquele falado pelos pajés; um mundo em que os seres da natureza podem ganhar vida e falar diretamente ao coração das pessoas.

A linguagem do coração, talvez seja a que constitui a poética indígena e a obra “Fios do tempo: quase haikais” da escritora indígena Graça Graúna é um alento, uma mensagem de cura para um mundo que passou por uma pandemia. É um chamamento para retirar as poeiras do luto. É uma convocação para enxergar as belezas que existem na Ameríndia.

O livro está no formato cartonero, isto é, feito artesanalmente um a um pela Editora pernambucana Baleia Cartonera. O movimento cartonero surgiu em 2003, na Argentina, durante a crise econômica e o alto índice de desemprego no pais. Nesse contexto, o livro revela-se como um instrumento de resistência; traz o ativismo e a proposta de sustentabilidade ambiental, revolucionando o sistema de produção de obras literárias. Esses princípios também foram fundamentais para a escolha da escritora indígena Graça Graúna em publicar na editora Baleia Cartonera.

Para saber mais:

QUANDO: 10 de dezembro de 2021, às 19h.

ONDE: https://www.youtube.com/c/UFRPEoficial

SOBRE A AUTORA:

Graça Graúna é indígena do povo Potiguara, do Rio Grande do Norte. Nasceu na pequena cidade de São José do Campestre a 70km das cidades de Goianinha e Canguaretama; onde vivem os parentes indígenas potiguara, na Aldeia Catu. Filha da Terra e de Tupã. Mãe, avó, escritora, educadora, professora na Universidade de Pernambuco (UPE), na área de Literata e atua também, no curso Licenciatura em Ciências Sociais e responsável pelo Blog “Tecido de Vozes” (gracagrauna.com), no WordPress.

Paulo Freire: 100 anos por uma educação libertadora

Ilustração de Francisco Brenand para o método Paulo Freire de alfabetização de adultos, anos 60.

O grande pensador e educador nordestino Paulo Freire está vivo em nós, de maneira que nos impele sempre a estreitar os laços com a educação libertadora. Poucos se dão conta de que ele é também poeta e é nesse patamar que eu tomo a liberdade de apresentar, mais uma vez, os versos que escrevi em 2 de setembro de 2007, durante o VI Colóquio Internacional Paulo Freire, realizado no Centro de Convenções da UFPE. Em homenagem ao livro “Pedagogia da indignação” e ao centenário (19.09.1921/2021) do seu autor, apresento a minha “Poética da autonomia”:

I

Minha voz tem outra semântica,
outra música. Neste ritmo,
falo da resistência
da indignação
da justa ira dos traídos
e dos enganados

II
Apesar de tudo,
jamais desistir de apostar
na esperança
na palavra do outro
na seriedade
na amorosidade
na luta em que se aprende
o valor e a importância da raiva.
Jamais desistir de apostar demasiado
na liberdade

III

Apesar de tudo,
cabe o direito de sonhar
de estar no mundo
a favor da esperança
que nos anima

do cerrado/DF, setembro de 2021

Saudações libertárias,

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)