A tradição oral e as novas tecnologias da memória

Ilustração: Fernando Vilela, no livro Sabedoria das águas, de Daniel Munduruku
Entre os dias 15 e 20 de junho de 2009, no Rio de Janeiro, acontecerá o VI Encontro Nacional de Escritores(as) e Artistas Indígenas. O tema em pauta enfatiza a “A tradição oral e as novas tecnologias da memória”. O objetivo é discutir os usos das tecnologias para a preservação e a atualização da memória ancestral de nossa gente.
O Encontro acontece no XI Salão do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e pretende também reunir pessoas que estão desenvolvendo trabalhos teóricos e práticos dentro desta área de pesquisa com especial enfoque na produção literária. O evento se realizará junto ao 11º Salão FNLIJ , no Centro Cultural Ação da Cidadania (Av. Barão de Tefé, 75, Bairro Saúde, no Rio de Janeiro, CEP 20220-460). Participarão os parentes indígenas oriundos das diversas regiões do Brasil. Da programação, vale ressaltar o momento em que estaremos reunidos com os imortais da Academia Brasileira de Letras, com os educadores das redes pública e particular de ensino, com estudantes universitários da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em meio ao evento, crianças e jovens serão atendidos em nosso estande institucional dentro do salão do livro.
Daniel Munduruku, presidente do Instituto Indígena Brasileiro para a Propriedade Intelectual (Inbrapi) e grande articulador do VI Encontro, fala da expectativa de trazer o debate para o universo da literatura a fim de “mostrar como esta atualização está se dando de forma a complementar – e não destruir – a oralidade dos povos indígenas brasileiros”. Para Daniel, a intenção é “contribuir para o desenvolvimento de um pensamento holístico que mostre o congraçamento entre tradição e as tecnologias”. Confira a programação:Dia 17 de Junho
Período da manhã

Ritual e mesa de abertura com a presença de Beth Serra e convidados.
Palavras de boas vindas por Daniel Munduruku

TEMA: CAMINHOS DA MEMÓRIA
Mesa 01: Memória, Oralidade e Literatura.
Esta mesa pretende investigar o processo de como os povos indígenas vão se apossando de novos instrumentais sejam sociais ou acadêmicos para estabelecer parâmetros de coexistência entre as sociedades.
Mediação: Ely Macuxi
Graça Graúna – Doutora em Literatura
Marcos Terena – Liderança e diretor do Memorial dos Povos Indígenas de Brasília.
Severiá Xavante – Professora de Língua e Literatura brasileira.
INTERVALO: CONTAÇÃO DE HISTÓRIASMesa 02: Memória, Oralidade e as artes (grafismo, dança, música e ritual).
Esta mesa tem como finalidade apresentar o pensamento de artistas e agentes culturais indígenas no processo das apresentações da arte e da cultura indígenas.
Mediação: Eliane Potiguara
Siridiwê Xavante – Coordenador do Instituto das Tradições Indígenas – IDETI
Luciana Kaingang – Artista Plástica e Graduanda em Biologia pela UPF. Atua como educadora social no Ponto de Cultura Kaingang
Xohã Karajá – Artista Plástico e arte-educador

Período da tarde

TEMA: NOVAS TECNOLOGIAS DA MEMÓRIA
Mesa 01: Memória: Imagem em ação
Esta mesa tem como objetivo principal apresentar como os indígenas têm buscado atualizar a memória ancestral a partir do domínio das tecnologias ocidentais nos mais variados campos da ciência.
Athya Pankararu – Diretor da Ong indiosonline que utiliza a internet para divulgação dos conhecimentos ancestrais.
Isabel Taukane – Coordenadora da iniciativa “Círculo dos saberes” que reúne jovens de diferentes povos do Mato Grosso com o objetivo de reavivar a cultura tradicional entre eles.
Um representante da ONG videonasaldeias iniciativa que faz registro de imagens dos diversos saberes tradicionais.
Mediação: Ailton Krenak – Jornalista, diretor do Núcleo de Culturas Indígenas e da “Aliança dos Povos da Floresta”.

MOSTRA DE FILMES INDÍGENAS

Sorteio de livros e cultura material para o público presente.
Encerramento do seminário com a presença de Beth Serra, da FNLIJ.

Para saber mais:

FNLIJ
http://www.fnlij.org.br/principal.asp?cod_diario=21

Informações pelo e-mail: seminario@fnlij.org.br
E pelo telefone: 21-22629130 com Maria Beatriz

Ingresso do 11º salão da FNLIJ – R$ 3,00 (três reais) para os professores que acompanham as turmas não pagam.
Graça Graúna (indígena potiguara/RN), 15 de maio de 2009
Nota: resenha publicada no Overmundo.

Caleidoscópio da história

Em 64, a poesia me dizia:
as nuvens escuras
parecem um negro véu.
Foi o fim da alegria
Foram tempos de negruras.
Afronta a terra e ao céu.
 
Em 74, outra vez um céu nublado.
Latino América em prantos
nossos sonhos exilados.
Houve prisão e tortura,
Em tudo houve censura.
Houve mortos e mutilados
 
84: sinais que a gente pressente
No clamor dos excluídos:
Diretas, já! Diretas, já!
Não cedeu o bem da gente
Com entes e bens perdidos.
 
O que nos resta é caminhar.
Tempo de espera, atenção e memória
De liberdade pra reconstruir os sonhos
Na luta pelos direitos humanos.
Sem reparação, só inglória,
Só enganos tamanhos e ardilosos.
 
Memória dos tempos desumanos
No caleidoscópio da história
A poesia continua se perguntando:
Em quanto tempo passam 40 anos?
Não podem apagar essa História.
Senão estarão renovando.
 
Os mesmos crimes e enganos
É a História indo em frente.
No caminhar vai toda gente.
Mas só poucos vão ganhar.
Pelos poucos que é definida.
Sua partilha é resumida.
Não se libertou do enganar.
 
 
Graça Graúna & Azuir Filho,
Brasil, abril/maio de 2009

  • Nota: escrevi um recadinho para Azuir (meu amigo no Overmundo), convidando-o a compartilhar as mal-traçadas linhas de um poema que eu vinha burilando há alguns anos e que intitulei de Caleidoscópio da História. Sem pestanejar, ele topou e foi logo derramando a sua luz e o poema foi se formando em meio ao nosso sonho de um mundo melhor. Valeu, Azuir! Que os personagens do grande Henfil nos acolha. Agradecida por tudo e para sempre, Graça Graúna




Kuá, a explosão feminina!

…a mesma história, sim,
de sangrar todo mês
de chegar na farmácia
e pedir um tampão pra calar o mugido.
Se isto te aborrece,
paciência!
Quem disse que se mede uma dor,
se é maior ou pequena?Trago sede de viver
apesar da exclusão
e de sangrar por dentro.
Se isto te enfurece,
paciência!
Custa entender
que Deus também veste saia
e conversa comigo?

Graça Graúna, (indígena potiguara/RN), 3 de maio de 2009.

Nota: era aproximadamente 15 horas, quando acabei de parir mais um poema. Ademario Ribeiro, mesmo longe, ajudou na hora da “pensação” (como ele diz) na feitura do nome do rebento. Ele sugeriu kuá (em tupi, significa: fenda, luz, mundo, buraco, vida no universo…); tudo a ver com a fertilidade vermelha que sai do buraco feminino que enche de vida e dá “luz” para o mundo. A imagem de Frida foi uma sugestação de Agnes, minha filha. E o nome do poema ficou assim: Kuá, a explosão feminina!

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Nota: poema publicado no Overmundo.