Trilhas de mulheres guerreiras (I)

8 de março, dia Internacional dedicado as Mulheres, é lembrado também pelas mulheres indígenas. Entre os povos originários, o dia internacional da mulher indígena é celebrado em 5 de setembro; em memória de Bartolina Sisa, mulher quéchua que foi assassinada na rebelião de Túpaj Katari, em 1782, no Alto Perú. Essas datas, ao meu ver, remetem a um conjunto de manifestações em prol da resistência. Isto quer dizer que é contínua a nossa luta contra a desigualdade, contra o machismo e todas as formas de violência.

O nosso Blog Tecido de Vozes saúda todas as mulheres do mundo. Nesta perspectiva, criamos a série “Trilhas de mulheres guerreiras” com o objetivo de apresentar um pouco do dia-a-dia das mulheres indígenas em suas comunidades ou na cidade grande. Em tempo, registro _ desde já _ o meu agradecimento a todas e todos que compartilham os saberes ancestrais e que arrecadam um pouco do seu tempo, do seu dia-a-dia para fortalecer o espírito coletivo.

Com relação às postagens que seguem, as mesmas foram enviadas para esta série (Trilhas de mulheres…) em diferentes datas (de janeiro a março de 2021), razão pela qual só nos foi possível apresentar, agora, este painel de mulheres guerreiras de diferentes etnias e que seguem na luta com a força dos Ancestrais.

Que Nhanderu/Tupã nos acolha,

Graça Graúna (Indígena Potiguara/RN)

POVO ATIKUM

Inicialmente, apresentamos o vídeo das Mulheres Guerreiras do povo Atikum: mulheres indígenas que vivem no município de Salgueiro, em Pernambucano.

POVO PANKARARU

Maria das Dores de Oliveira (povo Pankararu/PE). Linguísta, atua na área de educação escolar para os povos indígenas; junto à ONG Thydêwá, Maria co-dirigiu o documentário: Mensagem da Terra. Recentemente (11/03/2021), Maria Pankararu participou do debate “Preservação de saberes no cinema das mulheres indígenas“; também participaram do debate: Joana Brandão (mediadora/poeta) Maria Corrêa (Cineasta/Video nas aldeias), Barbara Matias (kariri) e Tipuici Manoki.

No programa de Extensão Cultural da Universidade de Pernambuco (UPE), Maria Pankararu participou (na condição de convidada pela Coordenação do Curso de Licenciatura em Ciências Sociais da UPE) do Podcast Saberes Indígenas (n. 14, vol. 1.3 ), “Educação e literatura em movimento”; por meio do qual ela traz um importante depoimento sobre a história e a cultura dos povos originários, especificamente do seu povo Pankararu/PE.

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Crédito da foto: Thydêwá

Responsável pela Associação das Mulheres Guerreiras do Povo Pankararu, a indígena Barbara Pankararu (PE) cmpartilhará, assim que possivel, em depoimento um vídeo.

POVOS INDÍGENAS DO RIO GRANDE DO NORTE

No Rio Grande do Norte existem 15 comunidades indígenas, onde em cada comunidade há pelo menos uma mulher que exerce o papel de liderança. No painel seguinte, a homenagem da Articulação dos Povos Indigenas do Rio Grande do Norte (APIRN) às mulheres guerreiras dos povos originários.

Painel fotográfico enviado por Kaline Potiguara, da Apirn.

… e mais e mais guerreiras nas comunidades indígenas do Rio Grande do Norte: Maeryane (Aldeia Catu); Mãe Maria (Natal); Valda (Aldeia Catu); Ana Paula Campelo (Natsinga), da comunidade indígena Tapará; Karollen Potiguara (Apirn); Mestra Benedita e Wilkflane (indígenas da comunidade Tapará), Kaline (Apirn) e Andriele (Natal) e as mulheres indígenas da comunidade município Rio dos Índios, no municío de Ceará Mirim. Como afirmam as lideranças indígenas do local, essa comunidade “pede socorro, pois grande parte dos indígenas enfrentam vulnerabilidade social e estão em dificuldade para obter alimento”. Para ajudar a comunidade Rio dos Índios, divulguem a Campanha que segue:

Sobre as vozes de Ameríndia

NOTA DE ESCLARECIMENTO. A resenha a seguir foi publicada originalmente na Revista Brasileira de Literatura Comparada. Trata-se das reflexões de Zilá Bernd, para o livro “Vozes de mulheres ameríndias nas literaturas brasileira e quebequense”, de Rita Godet. Esse livro encontra-se também, no formato PDF. Para compartalihar a rsenha de Z. Bernd, neste blog, solicitei permissão à pesquisadora Rita Godet que, muito gentilmente, concordou com a postagem. Às pesquisadoras Godet e Bernd: eterna gratidão por acolher os meus escritos. Saudações indígenas, Graça Graúna.

LEITURA COMPARADA INTERAMERICANA DA LITERATURA AMERÍNDIA

AN INTERAMERICAN COMPARATIVE INTERPRETATION OF AMERINIDIAN LITERATURE

Zilá Bernd1

Resumo: Em seu último livro, Rita Olivieri-Godet desvela as vozes de mulheres ameríndias nas literaturas brasileira e quebequense, elaborando uma reflexão aprofundada e sensível sobre a obra de duas escritoras indígenas do Brasil e duas do Quebec.

Palavras-chave: Rita Olivieri-Godet; Eliane Potiguara; Graça Graúna; Naomi Fontaine; Natasha Kanapé Fontaine

Keywords: Rita Olivieri-Godet; Eliane Potiguara; Graça Graúna; Naomi Fontaine; Natasha Kanapé Fontaine

OLIVIERI – GODET, Rita. Vozes de mulheres ameríndias nas literaturas brasileira e quebequense. Rio de Janeiro: Makunaima, 2020. (http://edicoesmakunaima.com.br/catalogo/2- critica-literaria/38-vozes-de-mulheres-amerindias-nas-literaturas-brasileira-e-quebequense)

A temática abordada neste recente livro da professora Rita Olivieri-Godet, da Universidade de Rennes 2 e pesquisadora do Institut National de France, é das mais relevantes já que ainda vivemos no Brasil e nas Américas em geral, tempos de apagamento, de silenciamento de obras e autores que não trafegam no main-stream literário. Assim, só recentemente a literatura negra ou afro-brasileira vem sendo estudada, revelando-se sua presença efetiva nas letras brasileiras. A literatura indígena, ou como Rita Olivieri-Godet prefere chamar, ameríndia, talvez tenha merecido ainda menos atenção permanecendo ausente até bem recentemente. Salientem-se os estudos de Eloína Prati dos Santos (UFRGS) e de Rubelise da Cunha (FURG) que envidaram esforços nesse sentido, publicando estudos sobre Eliane Potiguara e sobre autores autóctones de língua inglesa do Canadá.

Rita Olivieri-Godet que, de sua cátedra de literatura brasileira em Rennes II, vem tornando visível a literatura brasileira para o leitorado francês, interessa-se há bastante tempo pelas literaturas ameríndias, tentando com suas pesquisas desfazer a invisibilidade que as cerca. Em 2013, publicou A alteridade ameríndia na ficção contemporânea das Américas (Brasil, Argentina, Quebec), pela editora Fino Traço, de Belo Horizonte. Nessa obra, a autora procurou retraçar as representações ou figurações da alteridade ameríndia nas literaturas brasileira, argentina e quebequense. Trabalho pioneiro e de grande fôlego revelado pelo alentado número de escritores estudados entre os quais Antonio Torres, Gérard Bouchard e Juan Jose Saer.

Seu interesse pela temática estava apenas começando. Em 2018, publica com Rachel Bouvet, um conjunto de textos sobre a geopoética dos confins, desvendando o imaginário das literaturas nômades e inuits em emergência durante o século XX. Em 2019, suas pesquisas sobre as vozes de mulheres ameríndias são reunidas na importante publicação intitulada Ecrire l’espace des Amériques : représentations littéraires et voix de femmes amérindiennes, publicado pela editora P.I.E. Peter Lang (Nova York), na Coleção Brazilian Studies, vol. 5.

Na presente publicação da editora Makunaima, Rita Olivieri-Godet desvela as vozes de mulheres ameríndias nas literaturas brasileira e quebequense, brindando os leitores brasileiros com reflexão aprofundada e sensível sobre a obra de duas escritoras indígenas do Brasil e duas do Quebec, portanto, sobre escritoras que se exprimem em língua portuguesa e em língua francesa no território das Américas.

Eliana Potiguara e Graça Graúna são o destaque em língua portuguesa, enquanto Naomi Fontaine e Natasha Kanapé Fontaine são as autoras escolhidas do Quebec, província francófona do Canadá.

Eliane Potiguara está entre as primeiras a assumir a tarefa de descolonização de sua etnia, dando voz, pela primeira vez, em toda a história da literatura brasileira, àqueles que, embora tenham sido protagonistas da História do Brasil, foram silenciados durante todos estes anos. Merece destaque a dimensão híbrida da escrita de Eliane Potiguara, sublinhando em seu livro Metade cara, metade máscara, de 2004, o ponto de vista da mulher indígena que assume-se como sujeito da enunciação. Rita Olivieri-Godet destaca o importante papel da autora na denúncia da violência colonial e pós-colonial, apontando a metamorfose de identidade, “correlacionada à potencialização da voz”.

É interessante ressaltar a importância, na obra poética de Eliane Potiguara, da memória ancestral: será somente ao reivindicar o legado da memória intergeracional que a identidade ameríndia vai sendo reconquistada:

Graça Graúna que é, além de poeta e ensaísta, professora universitária, desenvolve estratégias de sobrevivência para a cultura indígena através de várias coletâneas, entre as quais se destaca Tear da palavra, de 2007. Rita Olivieri-Godet sublinha também na obra de Graúna a intenção de reapropriar-se de suas referências culturais ameríndias, grande ausente do panorama cultural brasileiro. A poeta busca reinventar o lugar da poesia através do diálogo com os resquícios da memória ancestral, buscando representificar essa falta ao identificar-se com os demais excluídos, como os afro-descendentes, inaugurando, desta forma, um diálogo tanto no plano político quanto no literário. Expropriada do território geo-cultural de seus ancestrais, Graúna produz o que Rita Olivieri-Godet chama de “discurso transcultural”, caracterizado pelo reconhecimento dos elementos da perda, os quais são compensados pela reinvenção de elementos culturais novos.

Ao fazer a leitura da obra Kuessipan (2011), de Naomi Fontaine, da literatura do Quebec, Rita Godet destaca o destino trágico do povo innu2 , ressaltando os vínculos históricos dos povos autóctones com seu território. Na obra, a poeta questiona a segregação e recusa o confinamento nas reservas, que são espaços designados pelo governo, mantendo, assim, os povos indígenas segregados do resto dos habitantes do Canadá. Pertencendo a uma nova geração de poetas, Naomi Fontaine manifesta um sentimento ambivalente em relação à sua comunidade de origem, que é ao mesmo tempo de pertencimento e de desejo de abandono.

Em Kuessipan (que significa “para ti”) Naomi Fontaine faz uma leitura intimista da reserva de Uashat que o sociólogo, historiador e romancista quebequense Gérard Bouchard descreveu em seu romance de mesmo nome de modo mais dicotômico, opondo a vida na reserva à vida nas cidades. Na leitura de Rita Olivieri-Godet, a narrativa de Naomi Fontaine faz um elogio do nomadismo e uma crítica do confinamento imposto pelo governo aos innus. “Nômade: gosto de conceber esse modo de viver como natural” (Fontaine, 2011, p. 22), explicita a autora, rendendo homenagem à característica de nomadismo dos povos autóctones e reivindicando essa característica como herança ancestral. Na visão da autora, da transmissão da herança depende o devir dessa comunidade: “Da transmissão da experiência do território tradicional dependia a sobrevivência material e cultural dos innus” (Olivieri-Godet, p. 95).

Natasha Kanapé Fontaine, também da linhagem de autoras ameríndias do Quebec, é a quarta e última autora estudada na obra que ora resenhamos. Natasha é militante dos direitos autóctones e ambientais e também poeta, atriz e pintora. É autora de N’entre pas dans mon âme avec tes chaussures (2012, prêmio de poesia da Sociedade dos Escritores Francófonos da América); do Manifeste Assi (2014); de Bleuets et abricots (2016) et Nanimissuat Île-Tonnerre (2018), sendo uma das escritoras mais produtivas da nova geração de autoras ameríndias.

Como as demais autoras, anteriormente estudadas por Rita Olivieri-Godet, Natasha realiza em suas obras o trabalho de recuperação memorial e de reapropriação do território geocultural de seus ancestrais, acrescentando o dever de memória de preservar e de transmitir essa herança, garantindo assim sua sobrevivência nos corações das futuras gerações.

As quatro escritoras vivem entre dois mundos. Rita Olivieri-Godet destaca em todas elas a prática de uma escrita da sobrevivência e uma determinação de incluir a presença autóctone no âmbito da literatura contemporânea. Se em trabalhos anteriores Rita Olivieri-Godet estudou a representação da presença autóctone em obras de autores contemporâneos, aqui ela traz aos leitores as vozes de mulheres ameríndias, analisando suas obras na perspectiva das relações literárias interamericanas, que é aliás nome do GT da ANPOLL ao qual nós duas pertencemos e no âmbito do qual desenvolvemos um comparatismo literário inter e transamericano.

REFERÊNCIAS:

GODET, Rita Olivieri. A alteridade ameríndia na ficção contemporânea das Américas (Brasil, Argentina, Quebec). Belo Horizonte: Fino Traço, 2013.

SANTOS, Eloína P. dos. A autoinclusão da literatura indígena contemporânea no cânone brasileiro: uma herança cultural a ser reconhecida. Revista literatura em debate, v. 12, p. 107- 121, 2018.

Notas:

1 Professora da Universidade LaSalle, Canoas RS/Brasil; Bolsista PQ CNPq – 1 A – https://orcid.org/0000- 0002-2546-6099; zilabster@gmail.com / zila.bernd@unilasale.edu.br

2 As denominações “Innu” e “innuit” não são intercambiáveis; enquanto innu se refere aos indígenas que habitam a área, que denominam de Nitassinam (Our Land), e que corresponde à região onde hoje se situa a província do Quebec, os innuit são originários do Ártico, tendo sido por muito tempo chamados pelos brancos de “esquimós”.

Zilá Bernd é professora titular aposentada do Instituto de Letras da UFRGS e professora do Programa de Pós-Graduação em Memória Social e Bens Culturais da Universidade LaSalle/Canoas/RS. É pesquisadora 1 A do CNPq ; foi presidente da ABECAN (Associação Brasileira de Estudos Canadenses) e do ICC-CIEC (International Council for Canadian Studies). Recebeu a Ordem Nacional do Quebec e das Palmes académiques, ambas nos graus de chevalière et officière. Fundou a revista Interfaces Brasil Canadá, em 2001, permanecendo como membro do conselho editorial até os dias atuais. Entre suas publicações recentes, estão: A persistência da memória. Porto Alegre: Besouro Box, 2018; La persistance de la mémoire: les romans de l ́antériorité et leurs modes de transmission intergénérationnelle. Paris: Société des écrivains, 2018 e BERND, Z.; IMBERT, P.; OLIVIERI-GODET, R. (dir) Espaces et littératures des Amériques; mutation, complémentarité, partage. Québec : Presses de l ́Université Laval, 2018.

(Submetido em 03/05/2020. Aprovado em 13/06/2020)

Rev. Bras. Lit. Comp. Niterói, v. 22, n. 41, pp. 132-135, set. /dez. 2020 https://doi.org/10.1590/2596-304X20202241zb