Direitos humanos em movimento

Graça Graúna, Ernani Martins e Waldenia Leão (Organizadores).
Direitos humanos em movimento. Recife: EDUPE, 2011, 188p.
Capa: Agnes Pires e Maurício Martins Nunes
ISBN: 978-85-7856–087-4

APRESENTAÇÃO

 

“A liberdade será algo vivo e transparente

como um fogo ou umrio

e a sua morada será sempre

o coração do homem” (Thiago de Mello)

 
          Este livro se propõe a partilhar as experiências construídas ao longo da segunda fase do Projeto de Literatura e Direitos Humanos, no período 2008/2009, junto à Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR) e à Universidade de Pernambuco (UPE), Campus Garanhuns. A primeira fase do projeto foi realizada em 2007/2008 [1], com apoio da SEDH/PR. Nesse período foi criada a página virtual do Projeto que reúne artigos, resenhas, poemas e outras reflexões em torno de educação, literatura e direitos humanos; essa página está disponível no site da UPE (http://www.ead.upe.br/extensao/). Falar dessas experiências é uma maneira de compartilhar o direito de sonhar uma sociedade mais justa. Nesta perspectiva, mais uma janela se abre para que outros sujeitos e outras práticas possam ser sentidas e ouvidas. Nada mais justo que o trabalho com Direitos Humanos transite entre o desejo, a ação e a reflexão. Esse triângulo conduz a muitas dimensões presentes na vida de quem vive intensamente a experiência humana.
          Uma experiência tem sempre a companhia do sujeito, ou melhor, de muitos sujeitos. Daí só podermos contá-la em conjunto porque se trata de histórias que vivemos na companhia do outro. Vocês devem estar se perguntando: mas a experiência não é individual? De fato, ela carrega o modo singular de estar no mundo e, para nós, carrega também o modo coletivo de estar com o mundo. Essa condição de humanidade que envolve a todos que trabalham com os Direitos Humanos é prova da inseparabilidade entre pensamento e ação. Partilhar a experiência de muitos outros a tantos outros, significa que podemos conversar numa grande roda. Ela foi organizada para que crianças, jovens ou adultos de diferentes etnias, no campo ou na cidade, nas escolas, universidades, associações ou em diferentes espaços possam sentir-se acolhidos em seus desejos. O importante é que, neste livro, a escrita de artigos e relatos atravessou o tempo e o espaço e os distintos modos de fazer e perceber-se humano. 
          Até o momento, apenas discutimos os motivos que mobilizaram a nossa escrita. Desse modo, intuímos a necessidade de criar uma série de publicações que intitulamos – Direitos Humanos em movimento. Com este primeiro volume, convidamos todos (as) a compartilhar os caminhos possíveis sob o signo da Bandeira da Paz; um símbolo criado pelo russo Nícholas Roerich, em 1929. Na visão do seu criador, a Bandeira da Paz é uma síntese de todas as artes, todas as ciências e todas as religiões dentro do círculo da cultura. Ele definiu cultura como o cultivo do potencial criativo no homem e acreditou que alcançar a paz por meio da cultura é um propósito para ser realizado através do esforço positivo da vontade humana.  Acolhemos a Bandeira da Paz e estampamos em camisas, panfletos, folders, cartazes o slogan: “Onde há Paz há Cultura. Onde há Cultura há Paz”. Com este espírito, convidamos todos(as) a conhecer este volume que, em seis partes, reúne  textos de escritores, pesquisadores, professores, estudantes universitários entre outros(as) ativistas em prol  de uma cultura dos direitos humanos.
Cinco artigos compõem a primeira parte deste livro.  O que é mesmo ser humano em direitos humanos? Reflexões psicológicas de Antonio Pereira Filho, oferece uma leitura da atualidade sobre os fazeres psicológicos e seus atores, construindo e reconstruindo práticas em torno dos direitos humanos. Para entender a relação entre matemática e direitos humanos, o artigo de Ernani Martins dos Santos convida a uma reflexão acerca de cidadania. Outra contribuição importante remete ao artigo Prática pedagógica e cidadania, de Fernanda Carvalho, que discute como a escola vem conseguindo vencer os altos índices de fracasso e de abandono escolar. Com Giovanna de Araújo Leite, as reflexões tratam da prática do jornalismo policial na contemporaneidade, desencadeando discussões relevantes em torno de como o jornalismo contribui ou não para o respeito aos Direitos Humanos. No artigo Educação: humana por direito?, Waldênia Leão de Carvalho nos aproxima de um desafio: até que ponto estaremos justificando para nós mesmos nossa impotência diante das injustiças do mundo social e ao mesmo tempo vislumbrando uma saída que a médio e longo prazo resolveria um problema do presente, mas com possibilidade de estender-se até o futuro?
Transitando por duas oficinas, a segunda parte do livro problematiza a relação entre literatura e direitos humanos, oficina ministrada por Graça Graúna. A ênfase remete a um conjunto de haikais. Na ocasião, a leitura foi acompanhada pela feitura de tsurus (pássaros) em origami (dobraduras em papel) para refletir os 60 anos da Declaração Universal dos Diretos Humanos e dos 100 anos da migração japonesa no Brasil. A oficina de Magdalena Almeida relaciona cultura e direitos humanos, apresentando possibilidades de transformação social a partir do conceito amplo de cultura e a alternativa de utilização da literatura e das histórias criadas e/ou contadas como fontes de promoção de reflexão e inclusão social.
A terceira parte do livro traz quatro poemas: a literatura (de Adeilzo Santos), Caleidoscópio da história (de Azuir Filho e Graça Graúna), Tsuru, (de Clésio Tapety) e Quando a primavera chegar (de Vanderley Caixe); os poemas nos aproximam da história-memória do oprimido; dos tempos de negruras que afrontam a terra e ao céu; dos bons ventos que fazem o desejo de paz florescer em solo fecundo e do inverno queimando o corpo e a alma dos prisioneiros castigados. Apesar dos tempos difíceis, haverá esperança enquanto houver poesia. Acreditamos.
O conjunto de Relatos de experiência acerca do Projeto de Literatura e Direitos Humanos configura a quarta parte deste volume e mostra como os professores e os bolsistas universitários perceberam e colaboraram para tornar possível a grandeza do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH, versão 2007), enfatizando os seguintes eixos: 1) Educação Básica, 2) Educação Superior, 3) Educação Não-Formal, 4) Educação dos Profissionais dos Sistemas de Justiça e Segurança e 5) Educação e Mídia. 
O registro fotográfico contempla a quinta parte do livro com os momentos marcantes da segunda fase do projeto: o I Fórum Direitos Humanos na Educação Básica em Pernambuco, em outubro de 2008; a comemoração dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, na Assembléia Legislativa de Pernambuco, em 10 de dezembro de 2008; Direitos humanos e cidadania – Roda de Conversa I, em Paranatama /PE; Encontro com as lideranças dos Movimentos Sociais; II Fórum Direitos Humanos e Tecnologia da Educação, com a participação de Roberto Monte (Comitê Nacional de Direitos Humanos) na mesa-redonda “Direitos e desejos humanos – imágicas”; Processo histórico dos direitos humanos no Agreste Meridional, com o jornalista Geraldo Mouret (mediador) e o Deputado Paulo Rubem (palestrante); Direitos humanos e cidadania – Roda de conversa II, no Colégio João da Mata, Garanhuns/PE; o III Fórum Direitos Humanos – Partilhando sonhos e lutas, tendo como palestrante a deputada Teresa Leitão e a participação de lideranças indígenas do povo Fulni-ô (Águas Belas/PE); Divulgação do Movimento de poesia pacífica; Exposição itinerante do acervo bibliográfico do projeto de Literatura e Direitos Humanos. Recital com a Professora Karina Calado e os poetas Gonzaga de Garanhuns e Adeilzo Santos. Formação da Comissão de Direitos Humanos da UPE.
A sexta parte do livro remete ao acervo bibliográfico  que disponibilizamos para consulta e que organizamos ao longo do nosso projeto junto à SEDH/PR e à UPE, no período 2007/2009. Cabe salientar que o projeto contou com o apoio da Profª Drª Aida Maria Monteiro (Secretária Executiva da Secretaria de Educação de Pernambuco), a quem prestamos justa homenagem pela grande articuladora que é no processo democrático do PNEDH em Pernambuco. É com o seu questionamento (In: O papel da escola na construção da cidadania, disponível no site DHNET) que encerramos esta Apresentação e convidamos todos(as) a repensar: “…o que significa, de fato, formar o cidadão enquanto sujeito consciente dos direitos e deveres no campo individual e no campo coletivo?”
 
Garanhuns, 10 de fevereiro de 2010
Os organizadores 
 
[1] Na primeira fase do Projeto, sob a coordenação de Graça Graúna, a responsável técnica foi Maria Perpétua Teles Monteiro – professora do Centro de Ensino Experimental de Garanhuns (CEEG).
 
 
 





	

Questões indígenas na VIII Bienal do Livro de Pernambuco

A VIII Bienal do Livro de Pernambuco acontecerá entre os dias 23 de setembro e 02 de outubro, no Centro de Convenções – Olinda, com o tema “Literatura e Cidadania”. O poeta recifense Mauro Mota e o escritor cearense Ronaldo Correia de Brito serão os grandes homenageados do evento.
No dia 23 de setembro (sexta-feira), às 16h, abordarei a relação entre  Literatura e Direitos Humanos, com o  painel “Tecidos de vozes: questões indígenas”, num debatepapo com Graça Graúna e  Karina Calado,  no Círculo das Ideias.

Site: www.tecidodevozes.blogspot.com
Fonte: http://www.bienalpernambuco.com/os-escritores

Marcha indígena por terra e justiça em Dourados

 Imagem extraída da Adital
Fonte: Adital e Egon Dionísio Heck (Assessor do CIMI, Mato Grosso do Sul)
Madrugada. O fogo na entrada dos acampamentos começa a receber mais gente. É hora de se aquecer um pouco e partir para os rituais de benção e batizado dos documentos da Aty Guasu. Eles serão levados a Dourados, para a marcha e posterior entrega às autoridades. A principal avenida da cidade será tomada pela “gente cor da terra”, os primeiros habitantes da região estarão fazendo ecoar seus gritos de “queremos nossas terras”, “exigimos justiça”, “exigimos respeito e dignidade”. http://www.youtube.com/watch?v=csyNRH0aFx4
Mas de 500 Kaiowá Guarani e Terena, percorreram mais de três quilômetros da região central da cidade na Av. Marcelino Pires. Cantando e manifestando sua indignação e esperança, vão andando alegremente pela avenida. Chamam atenção do comercio e transeuntes pelas vestimentas rituais, cocares, colares, pinturas…faixas e cartazes. Distribuem o folheto “Em Defesa dos Povos Indígenas de Mato Grosso do Sul”. Ali constam os índices alarmantes da violência em que se debatem as comunidades Kaiowá Guarani, confinadas ou acampadas à beira das estradas da região. “Não podemos aceitar calados e passivos tanta violência e impunidade. A sociedade precisa reagir a tanta infâmia e injustiça contra nossos irmãos indígenas, tratados pelo governo do estado de forma parcial e injusta”. E as chamadas nos dão a dimensão da gravidade da situação “Violência e Barbárie estão às soltas em MS”, ” A difusão do preconceito é uma das armas do latifúndio”. Ao receberem o folheto, as reações dos cidadãos eram bem diversas. Alguns demonstravam seu tímido apoio à manifestação e outros expressavam sua contrariedade, movidos pelo preconceito secular e ideologia racista. A marcha prosseguiu por quase duas horas, até chegar ao prédio da Funai. Entraram na sede do órgão e dentro dele fizeram um rápido ritual para trazer os bons espíritos ao local e afastar tudo que possa prejudicar os direitos indígenas. Na parte inferior do prédio estava um grande pôster em que o então presidente Lula e vários ministros fizeram a entrega do premio de Direitos Humanos dados aos povos indígenas do Mato Grosso do Sul, através do Conselho da Aty Guasu. A estatueta foi levada ao centro da manifestação, para chamar atenção a esse importante reconhecimento da luta Kaiowá Guarani por seus direitos.
  Imagem extraída da Adital
Mais violência sem providência
Lide Lopes, de Pyolito Kue, ligou falando de mais um covarde ataque dos pistoleiros, causando uma absurda situação de violência, destruição e pessoas feridas. Por se tratar já da terceira ação violenta que sofreram em menos de duas semanas, entendem ser essa uma obstinada decisão dos senhores do agronegócio, de impedir o reconhecimento das terras tradicionais Kaiowá Guarani no Mato Grosso do Sul.
É uma absurda declaração de guerra, onde de um lado estão homens armados e decididos a atirar, expulsar, destruir enquanto do outro lado está uma centena de homens, mulheres e crianças armados apenas de seu direito de retornar a um pedaço da terra da qual foram expulsos há poucas décadas. Os Kaiowá Guarani estão sendo alvo de uma ignominiosa ação violenta, enquanto o Estado brasileiro se mostra inoperante diante de tais fatos. Será que serão necessários novos massacres para que se tome providências?
Certamente não é por desconhecimento da gravidade da situação que a polícia federal não está se fazendo presente no local. E quando se fez presente (PF-Naviraí) foi acompanhada dos algozes dos índios, para dizer, como noticiou a imprensa, de que não existem índios no local.
Até quando grassará a violência e a impunidade contra os povos indígenas Kaiowá Guarani no Mato Grosso dos Sul.
Povo Guarani Grande Povo
Dourados, 24 de agosto de 2011