As histórias idígenas, por indígenas

 
Capa do livro “Criaturas de-Ñanderu”, de Graça Graúna

Jornalista Debora Lerrer 19 de julho de 2011 às 19:50h

 
Ameaçada por grilagem de terras, desmatamento, garimpo, obras de governos e minada pela discriminação, a cultura dos  povos indígenas brasileiros resiste (agora também) em forma de literatura e conquistando espaço no mercado editorial. Há uma boa safra de escritores indígenas dedicados à literatura infanto-juvenil e publicados por diversas editoras, inclusive grandes como Martins Fontes, Paulinas e FTD. O ano de 2011 deve  terminar com pelo menos 19 títulos novos no mercado, entre os quais A cura da terra, de Eliane Potiguara, pela Global Editora, e Mondagará, de Rony Wasiry Guará, pela Saraiva.
Esse interesse se deve, em parte,  à Lei  11.645, aprovada em 2008, que  criou a obrigatoriedade de se tratar a temática indígena  e afro-brasileira no currículo escolar brasileiro. Mas também é possível que nomes como Daniel Munduruku, Graça Graúna, Yaguarê Yamã e  Olívio Jekupé estejam  ganhando as prateleiras das livrarias do país graças a suas vendagens, turbinadas recentemente pelas compras governamentais, via PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola).
A Global, com 11 livros de autores indígenas em seu catálogo, publicou o primeiro O Povo Pataxó e Suas Histórias em 1999 e depois não parou mais. Segundo seu editor, Luis Alves Junior, esses livros já vendiam bem antes da lei, tanto que alguns deles já haviam ganhado reimpressões – o livro Você se lembra, pai? de Daniel Munduruku, publicado em 2003, é um deles.
A lei chegou anos depois da  articulação de escritores indígenas em encontros nacionais, liderados pelo pioneiro Munduruku, e deflagrada há oito anos com grande apoio institucional da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil. “Nós não endossamos o trabalho destes autores porque são indígenas, mas porque estão fazendo uma literatura de qualidade para as crianças”, diz Beth Serra, presidenta da Fundação.
Doutor em Educação e autor de 43 livros, a maioria dos quais infanto-juvenis, Munduruku, de 47 anos,  editou seu primeiro  livro, Histórias de Índio, em 1996, pela Companhia das Letrinhas, depois de bater em várias portas. Hoje já tem 20 edições.“Lançar livro para criança da cidade com ótica indígena era difícil. Na época, era sempre antropólogo, escritor, historiador que escrevia sobre o índio, que não tinha voz nem vez no mercado editorial”.
De lá para cá, Munduruku já abocanhou vários prêmios nacionais e internacionais, como o “Jabuti” de 2004  pela obra Coisas de índio, da Callis Editora.
Natural de Belém (PA) mas vivendo em Lorena (SP) há mais de 20 anos, Munduruku é formado em Filosofia, com Licenciatura em História e Psicologia. Ele chegou à literatura infanto-juvenil através de suas experiências como professor e educador social de rua da Pastoral do Menor em São Paulo, onde acabava contando as histórias que escutava quando vivia entre seus parentes aldeados.
Para ele, a literatura funciona como “maracá”, o chocalho que é utilizado como instrumento de cura pelos pajés. Acredita-se que dentro dos maracás há uma voz sagrada que é a que os pajés utilizam para conversar com os espíritos que fazem a cura das pessoas que os procuram. A literatura deles teria este componente. “É nosso maracá  para a sociedade brasileira”.  Para ele, esta  geração de escritores indígenas  escreve como uma forma de “curar o Brasil”, ajudando a sociedade “a conhecer sua história e não perder de vista a contribuição que os indígenas oferecem”.
Outro “parente” de Munduruku neste movimento que usa a literatura como “arma de defesa do povo indígena” é  Olívio Jekupé, de 45 anos,que teve que abandonar o curso de Filosofia por dificuldades econômicas. Publicando desde 2001, Jekupe é autor de um total de 11 livros, o mais recente “Tekoa – conhecendo uma aldeia indígena”, pela Editora Global. Jekupé, que vive na aldeia guarani  Krucutu, em São Paulo,  prefere denominar sua literatura de “nativa” e não de “indígena”  para diferenciá-la da literatura que os outros escrevem tendo o índio como objeto. “Ela sai de dentro da gente, do que conhecemos, pois escrever sobre índio não é só escrever, é preciso conhecer e viver essa cultura”.

Relatos orais das velhas gerações indígenas
Para Munduruku foi um acaso eles terem caído no gosto do público infantil. Acabou dando certo. “Não é que a gente escrevesse para crianças, é pelo teor das histórias que a gente conta. A gente recebia essas histórias de forma oral. Caía na nossa memória. E o nosso pessoal foi começando a aprender a escrever”.
Muito do que esta geração de autores indígenas faz é verter para o papel as lendas e histórias dos povos indígenas, repletas de conteúdos éticos e morais, que eram transmitidas oralmente para suas crianças há séculos, com clara função educativa.
Por outro lado, a literatura infanto-juvenil também é mais acessível a eles por serem livros menores e relativamente mais fáceis de escrever. Afinal, esta turma só recentemente está sendo escolarizada  com a preocupação em resguardar sua identidade étnica, ou seja, “sem desprezar sua identidade, desistir de sua história e desacreditar seus sábios”, observa Munduruku.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/cultura/as-historias-dos-indios-por-eles-mesmos

Povo Ye`kuana do Brasil debate futuro dos jovens indígenas

Imagem ISA – extraída do Google

Fonte: ISA, Vicente Albernaz

Implantação do ensino médio na região de Auaris, na TI Yanomami, é vista como alternativa para diminuição do atual fluxo de jovens das aldeias para a cidade de Boa Vista(RR), além de incentivar a transmissão dos conhecimentos tradicionais.
Realizada entre os dias 29/6 e 3/7, a II Assembleia Geral da Associação do Povo Ye’Kuana do Brasil (Apyb) teve como tema: “Política para Juventude Ye`kuana: como vai ser o futuro dos jovens Ye`kuana na cidade?”. O encontro ocorreu na aldeia Fuduwaduinha, localizada na região de Auaris, Terra Indígena Yanomami, e contou também com a participação dos Ye`kuana da Venezuela e de lideranças Sanöma e Xamathari (etnias Yanomami), além da chefe do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami, Joana Claudete e do coordenador substituto da Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami e Ye`kuana da Funai, Michel Idris. O ISA e a Hutukara Associação Yanomami apoiaram a assembleia.
Durante o encontro, as lideranças e professores das comunidades presentes realizaram uma avaliação da trajetória das duas últimas décadas do povo Ye`kuana no Brasil, onde o processo de escolarização teve destaque. De acordo com as falas, ao longo destes anos, os Ye`kuana criaram suas próprias escolas, formaram-se professores e técnicos de enfermagem e alguns concluíram o ensino superior. Ainda assim, foi enfatizado que todas estas conquistas tiveram como ônus o grande deslocamento de jovens para a cidade de Boa Vista para ingressarem no ensino médio, o que vem causando expressivo esvaziamento das aldeias e prejudicando a transmissão de conhecimentos tradicionais.
Os presentes concluíram pela necessidade de se criar se 2º grau profissionalizante na região de Auaris e que a proposta de ensino contribua para valorização dos conhecimentos Ye`kuana.
O xamã Vicente de Castro, reconhecidamente um dos maiores guardiões dos conhecimentos Ye`kuana, teve destaque na assembleia. Ele falou sobre a sabedoria dos antigos, a forma como eles ensinavam e aprendiam e como tudo mudou depois que chegou o papel. (Ele refere-se à transmissão oral dos conhecimentos e às mudanças que chegada da escrita provocou). Vicente colocou-se à disposição dos Ye`kuana para contar suas histórias e o xamã Vicente de Castro se coloca à disposição para transmitir suas histórias e ensinamentos.
Saúde e garimpo
A chefe do DSEI-Y, Joana Claudete, foi recebida com muita festa pelos Yanomami e Ye`kuana, que nos últimos meses desencadearam um movimento para que ela fosse nomeada para a chefia, já que estava no cargo interinamente. As comunidades apresentaram as demandas das comunidades Ye`kuana e Sanöma em relação à saúde, como a construção de um novo alojamento na Casa de Saúde do Índio (Casai), a reforma dos postos e a formação dos agentes indígenas de Saúde.
Dário Kopenawa, coordenador de Saúde da Hutukara, apresentou a proposta de criação de uma assessoria indígena dentro do DSEI-Y como parte do processo de transição da Funasa para Sesai. Em sua opinião, será uma forma de os indígenas acompanharem e conhecerem melhor a administração do Distrito e também para fiscalizar o trabalho, em especial quanto à aplicação de recursos e prestação de contas. Todos se animaram com a proposta e os Ye`kuana indicaram um jovem para compor esta assessoria.
Ao coordenador substituto da Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami e Ye`kuana, Michel Idris foram feitas denúncias sobre garimpo nas regiões Waikás, Haxiu e Hakoma. De acordo com as lideranças, o garimpo voltou a crescer na Terra Indígena Yanomami. Foi também cobrada a presença de chefes de posto da Funai nas regiões de Auaris e Surucucus. Idris justificou que tem dado mais atenção para proteção da fronteira leste da Terra Indígena, que vem sendo sistematicamente invadida por não indígenas.
Consolidação da Apyb
Criada em 2006, a Associação Ye`kuana permaneceu inativa ao longo de seus primeiros cinco anos. Por isso, a assembleia teve o intuito de dar um novo ânimo à organização, elegendo uma nova diretoria e indicando diretrizes gerais para seu funcionamento. Ficou decidido que a Apyb ficará sediada na Casa de Apoio ao Estudante Ye`kuana em Boa Vista e trabalhará junto com a Hutukara na defesa dos direitos dos povos da Terra Indígena Yanomami. O Presidente da Hutukara, Davi Kopenawa, falou sobre sua experiência de criação da Associação Yanomami, explicando seu funcionamento e dando dicas para a consolidação da Apyb. Davi enfatizou a necessidade das organizações indígenas da Terra Indígena Yanomami trabalharem em parceria, lembrando também a existência da Ayrca – Associação Yanomami do Rio Cauaburis.
Por fim, as lideranças das comunidade Ye`kuana do Brasil reunidas, indicaram a nova diretoria, que ficou assim composta: Presidente – Castro Costa da Silva; Vice-presidente – Osmar Carlos da Silva; 1º Tesoureiro –  Raul Luis Yacashi Rocha; 2º Tesoureiro – Martin Albertino Gimenes; 1º Secretário – Nivaldo Mário da Silva Gimenes; 2º Secretário – Robélio Cláudio Rodrigues.
Conselho Fiscal – Aniceto Ye`kuana, Henrique Aleuta Gimenes e Júlio Manoel Rodrigues.
Vicente de Castro fez o discurso final novamente contando histórias dos velhos Ye`kuana e a festa teeke’ya ao som das flautas e tambor Ye`kuana encerrou a assembleia. A festa, regada por muito caxiri,seguiu até o raiar do dia.

AUDIENCIA PUBLICA – Contra a Criminalização e a Violência aos Povos Indígenas

Mato Grosso do Sul é hoje o segundo estado brasileiro em população indígena, com mais de 70 mil indígenas, perdendo somente para o estado do Amazonas e lidera o ranking em violencia contra os povos indígenas: discriminação, preconceito, racismo, agressão física, criminalização e assassinato.
Mesmo conquistado o direito constitucional de ter as Terras Indígenas demarcadas (Constituição Federal de 1988), o grande drama desta população indígena é a demora da demarcação de suas terras, causando todo sofrimento e que é responsável pela situação de miséria, sendo condenados a viverem confinados nos acampamentos improvisados a beira das rodovias, expostos ao tempo e aos pistoleiros e em aglomerados demográficos de reservas, onde não há espaço para manutenção da cultura e nem atividade de subsistência, deixando a população indígena refém da economia especulativa, a tendo como reserva e mão-de-obra barata, principalmente no agronegócio, pecuária, construção civil, pequenos comércios e nas usinas de etanol recém instaladas no MS.
O Mato Grosso do Sul também lidera outro ranking, que é o estado brasileiro com maior numero de indígenas condenados a pena de encarceramento, tendo o despreparo e preconceito de agentes do Estado como principais causadores dessas prisões. Hoje já passa de 200 o numero de encarcerados indígenas, grande maioria por razões de os agentes do Estado desconhecerem a cultura e tradição daqueles povos, fazendo do racismo e preconceito alguns dos motivos que levam indigenas para cadeia.
Os resultados  da negligencia, omissão, criminalização, entre outras violações de direitos humanos praticadas pelo Estado brasileiro (e principalmente no Mato Grosso do Sul, onde o proprio governador se declara publicamente – anti-indígena – ser contra as demarcações de terras indigenas, unica forma de garantir a manutenção da tradição, cultura e susistencia dos povos indígenas) será discutido em audiência pública no proximo dia 13 de julho, na Camara Municipal de Campo Grande, onde o Estado será cobrado por providencias, principalmente nos casos de impunidades em relação a violencia, tortura, tentativa de assassinato, assassinatos e ameaças de morte, onde se sabe cada fazendeiro, empresário e político que esteja envolvidos direta e indiretamente. Um dos casos emblemáticos a ser discutido nesta audiencia pública será o ataque com coquetel molotov ao onibus de estudantes, no ultimo dia 03 de junho, no Municipio de Miranda, onde deixou varias pessoas feridas, sendo que quatro delas ainda se encontram internadas em estado grave.
Diante da Criminalização e a Violência aos Povos Indígenas, 
QUEM SILENCIA É CÚMPLICE!
Caso não podendo estar presente na audiencia, envie uma moção repudiando a criminalização e violação de direitos humanos dos povos indígenas para os parlamentares e para demais autoridades do Estado brasileiro.
Data: Dia 13 de Julho, as 9h (10h no horario de Brasília)
Local: Camara Municipal de Campo Grande – MS