Curso Dimensões das Culturas Indígenas 2015

Encontro de escritores e artistas indígenas em Mato Grosso
CURSO DIMENSÕES DAS CULTURAS INDÍGENAS 2015
PROTAGONISMO INDÍGENA EM EDUCAÇÃO, LITERATURA E POLÍTICA
20 A 31 DE JULHO, DAS 14 ÀS 17 HORAS
CURSO MINISTRADO POR INDÍGENAS
PROGRAMAÇÃO
20/7 – SEGUNDA-FEIRA: LUIZ HENRIQUE ELOY (Terena, doutorando em Antropologia Social/Museu Nacional/UFRJ) – Terra tradicionalmente ocupada: o local de direitos coletivos;
21/7 – TERÇA-FEIRA: MARIA DAS GRAÇAS FERREIRA (GRAÇA GRAÚNA) (Potiguara, doutora em Teoria da Literatura/UFPE) – Literatura indígena: entre lugar, memórias e utopias;
22/7 – QUARTA-FEIRA: MARIA DAS DORES DE OLIVEIRA (MARIA PANKARARU) (Pankararu, doutora em Linguística/UFAL) – Ofayé, a língua do povo do mel;
23/7 – QUINTA-FEIRA: GERSEM JOSÉ DOS SANTOS LUCIANO (Baniwa, doutor em Antropologia/UnB) – Educação para manejo do mundo: o desafio da escola indígena;
24/7 – SEXTA-FEIRA: MESA REDONDA SOBRE EDUCAÇÃO E CULTURA INDÍGENA – Jera Poty Mirim (Guarani/SP), Lucas Benites Xuru Mirim (Guarani/RJ), Jucimar Paikyre (Bakairi/MT) e Algemiro Poty (Guarani/RJ);
27/7 – SEGUNDA-FEIRA: WANDERLEY DIAS CARDOSO (Terena, doutor em História/PUC-RS) – A história da educação escolar para o Terena;
28/7 – TERÇA-FEIRA: DANIEL MUNDURUKU MONTEIRO COSTA (Munduruku, doutor em Educação/USP) – O caráter educativo do movimento indígena brasileiro: o estado da arte;
29/7 – QUARTA-FEIRA: RITA GOMES DO NASCIMENTO (Potiguara, doutora em Educação/UFRN) – Panorama atual da política nacional de educação escolar indígena: perspectivas e desafios;
30/7 – QUINTA-FEIRA: TONICO BENITES (Guarani Kaiowá, doutor em Antropologia Social/Museu Nacional/UFRJ) – A trajetória e a luta contemporânea dos povos Guarani, subgrupos Mbya, Ñandeva e Kaiowá;
31/7 – SEXTA-FEIRA: MESA REDONDA SOBRE A MULHER INDÍGENA NA UNIVERSIDADE – Nelly Dollis (Marubo/AM), Simone Eloy (Terena/MS) e Sandra Benites (Guarani/RJ).
HORÁRIO DO CURSO: DAS 14 ÀS 17 HORAS.
INSCRIÇÕES A PARTIR DE 01 DE JUNHO NO MUSEU DO ÍNDIO/COORDENAÇÃO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA – RUA DAS PALMEIRAS 55 – BOTAFOGO – RIO DE JANEIRO/RJ –      CEP 22.270-070 – TEL. 21-32148718 – 
Horário de inscrição: segunda a sexta-feira, das 10:00 às 17:00 horas.
Taxa de inscrição: Profissionais – R$ 300,00; Estudante (com comprovante obrigatório) – R$ 150,00.
TODOS OS ALUNOS RECEBERÃO PUBLICAÇÕES DO MUSEU DO ÍNDIO

Quando o cotidiano vira poesia




A poesia social em Cesário Verde
 
 
 Em 25 de fevereiro de 1855 nasceu, em Lisboa, Cesário Verde. Filho de camponês, Cesário Verde ingressou no Curso Letras da Universidade de Coimbra, mas não completou seus estudos. Na década de setenta do séc. XIX, a poesia de Cesário aparece em jornais lisboetas. Por volta de 1885 ele retorna para a casa paterna para tratar da tuberculose, mas enfraquecido pela doença vem a falecer em 19 de julho de 1887.
Os estudiosos consideram Cesário “o poeta de Lisboa e da vida rural periférica, cantadas em sua pequena obra com irretocável lucidez, sensibilidade e beleza” (www.lpm.com.br). Mas a crítica literária fingiu ignorá-lo, de tal modo que o próprio poeta expôs seu desabafo: “Literariamen­te parece que Cesário Verde não existe”. 
           Apesar do preconceito em torno da sua genialidade, a poesia de Cesário Verde vence o tempo porque dá visibilidade as criaturas socialmente invisíveis; sua poesia reclama e ao mesmo tempo traz aspectos inovadores no fazer poético que situam o poeta entre os ícones  do Modernismo na literatura de Portugal.
          Há 130 anos, Cesário Verde veio ao mundo e, apesar dos sofrimentos todos pelos quais passou, deixou por meio da poesia um olhar (ao mesmo tempo) generoso e crítico; um olhar voltado para os pobres, aos marginalizados, aos excluídos.   Para homenageá-lo, convido-os a uma boa leitura acerca do “Sentimento dum ocidental”; especificamente sobre o cotidiano da poesia na reflexão de Patrícia Vilela, que foi minha aluna no Curso de Letras, na UPE.
Saudações literárias,
Graça Graúna
        
Imagem extraída do Google
Quando o cotidiano vira poesia (*)
 
O Realismo em Portugal foi um momento no qual a literatura passou a retratar a realidade de forma crua, desvendando os olhos da sociedade. Esse período foi influenciado pelos novos ideais políticos da época e não poderia se alimentar apenas de um mundo idealizado. Era preciso uma literatura mais objetiva e compromissada com a causa social, que pudesse agir como forma de denúncia da degradação moral que estava sendo vivida. Segundo Moisés (2001, p.167) “(…) a obra literária passou a ser considerada utensílio, arma de combate, de reforma e ação social”.
Considerando que a poesia realista se desdobrou em quatro direções, este trabalho busca analisar o poema “O sentimento dum Ocidental”, do poeta Cesário Verde, o primeiro escritor a representar a poesia do cotidiano na estética realista portuguesa e a extrair poesia de assuntos que eram tidos como não poéticos, como afirma Massaud Moisés: “(…) poesia do cotidiano, aquela que destrói a idéia de nobreza artística anterior à elaboração da obra-de-arte e introduz o prosaico no plano poético, tendo Cesário Verde como único e grande representante. (MOISÉS, 1984, p. 124-125)
O poema “O sentimento dum Ocidental” se manifesta como um filme resultado de um passeio pelas ruas de Lisboa, no qual é feito um relato das imagens encontradas ao longo da referida cidade. Poderíamos dizer que trata-se de uma fotografia da realidade, mas o ser poeta não se comporta  como um fotógrafo, pois um escritor assim adjetivado deve agir de forma impessoal, não tendo autonomia para expor a sua opinião.
Ao contrário, conduz Cesário Verde a projetar-se nas coisas, no mais prosaico da vida cotidiana, em busca de apreender a imagem fugaz do mundo em permanente dinamismo. É a poesia do cotidiano, do atual, do trivial, desobediente a qualquer escala de nobreza artística. (MOISÉS, 1984, p. 181)
Esse poema é dividido em quatro partes: I-Ave Marias; II-Noite Fechada; III- Ao gás e IV-Horas Mortas. A caminhada tem início na parte I da obra. Nesse momento somos situados no entardecer e o aspecto religioso, que é bastante forte em Portugal, é evocado; onde especificamente as pessoas de tradição católica se voltam a um momento de oração.
Na 1ª estrofe o eu lírico nos fala sobre o anoitecer em sua cidade e nos toca com a entediante experiência de viver em tal lugar. A propósito observemos os versos seguintes:
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer
            (MOISÉS,  2006. P. 336)
A sensação de isolamento é perceptível quando o poeta compara as nossas moradas a gaiolas, evocando assim a ideia de que, na maioria das vezes, somos pássaros aprisionados em moldes pré-estabelecidos. O ser poeta se espanta com o aprisionamento de uma cidade em processo de “cimentalização”, sentindo-se preso num ambiente sufocante e doentio. A propósito vejamos os versos que seguem:
Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.
(Idem, p. 336)
Ainda na parte I, o ser poeta cita características dos portugueses, tais como: tentar conquistar novas terras, desbravar novos lugares. Mais a frente o eu lírico evoca as aventuras vividas por “heróis portugueses” e fala sobre as navegações. Chega até mesmo a citar a atitude de Camões ao salvar a maior obra épica do povo português: Os Lusíadas. A propósito, observemos os versos seguintes:
E evoco, então, as crônicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!
(Idem,p.337)
Ao contemplar pessoas partindo rumo a outros países, o eu lírico lamenta não poder partir junto com elas e deixa vestígios do desenvolvimento indutrial, conforme os versos a seguir:
Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista exposições, países:
Madri, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
(Idem, p.336)
Em alguns momentos surgem indícios do Naturalismo presente na poesia Realista, e por várias vezes contemplamos a condição na qual os indivíduos ali sobrevivem, conforme os versos seguintes:
Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a borda das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!
(Idem, p.337)
Ao longo da leitura do poema percebemos que por várias vezes Cesário Verde fala do mundo feminino, descrevendo diversos tipos de mulheres e os ambientes nos quais elas vivem/trabalham. São mães, castíssimas esposas, mulheres impuras, crianças, velhinhas, costureiras, coristas, carvoeiras… Então Cesário adota uma postura lírica para algo que está diante dos nossos olhos, mas que já se banalizou, conforme o comentário de Massaud Moisés:
Lirismo dum repórter, mas dum repórter atraído pela cidade, sensível a todas as suas pulsações, inclusive as nauseantes, disformes ou repugnantes. Ou, por outro, lirismo realista, porém não fotográfico nem frio: o poeta emociona-se, e muito, e é sua emoção perante o real cotidiano que procura transmitir ao leitor.
(MOISÉS, 2010, p. 341)
O poeta nos alerta quanto a instabilidade da nossa condição social, pois se depara com alguém que outrora fora seu professor de Latim e agora encontra-se vagando pelas ruas de Lisboa a pedir esmolas.
Dó da miséria! … Compaixão de mim!…
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me sempre esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!
(Idem, p. 340)
Fica explícito que o poema “O sentimento dum Ocidental”, de Cesário Verde, mesmo tendo sido escrito há tantos anos, não perdeu a sua sincronicidade e se faz atual ante a condição humana. E o que mais importa é que o cotidiano é poético e a poesia pode ser cotidiana, lembrando que esta deve cumprir a sua missão, mesmo que não cause deleite, mas que seja capaz de provocar o deslumbre.
Patricia Vilela
 
(*) Patrícia Vilela das Neves: discente do 5º período do Curso de Licenciatura em Letras da Universidade de Pernambuco-UPE/Campus Garanhuns. Resenha crítica apresentada em 25 de outubro de 2012, na disciplina Literatura Portuguesa II.
Referências
MOISÉS, Massaud. Presença da literatura portuguesa: Romantismo, Realismo. 6 ed. São Paulo, SP: Difel, 1984.
______. A literatura portuguesa. 31 ed. São Paulo: Cultrix, 2001.
______. A literatura portuguesa através dos textos. 32 ed. São Paulo: Cultrix, 2010.

Com os direitos humanos

Imagem da contracapa do livro “ABC dos direitos humanos”.
          Para não esquecer o dia 10 de dezembro, data em que se comemora a Declaração Universal dos Direitos Humanos e que neste ano de 2014 completa 66 anos; tomo a liberdade de sugerir algumas leituras a fim de que possamos construir um mundo cada vez mais justo e feliz.
          Um mundo feliz pode ser construído desde cedo, pelo menos é o que  sugere a união da palavra e da imagem destinada as crianças no livro “ABC dos direitos humanos” (Cortez Editora, 2012), escrito por Dulce Seabra e Sergio Maciel, com ilustrações de Albert Linhares. É desejo dos referidos autores que as crianças de ontem e hoje tenham seus direitos respeitados e que vivam plenamente em liberdade e paz. Na perspectiva de A à Z,  as letras trazem a dinâmica relação entre direitos e deveres.

          Entre os verbetes, E de Escravidão mostra que “nenhum ser humano pode ser mantido como escravo ou em situação de serventia” (p.16).  F de Fraternidade diz que “todos os seres humanos devem agir com espírito de fraternidade, ou seja, como irmãos, já que fazemos parte de uma grande família” (p.18).  Em H de Honra, “todo ser humano tem o direito de ser respeitado, não sofrendo ataques à sua honra, nem interferências em sua vida privada” (p.22).  O verbete Justiçaalerta que “a igualdade de tratamento e a dignidade de todos os seres humanos são garantidas pela justiça” (p.26). X de Xenofobiafala do “comportamento dos que não gostam de pessoas e coisas de outros países, levando a incompreensão, conflitos e guerras” (p.54). Y de Yvypóra é a palavra indígena guarani para significar ‘seres humanos’. O livro informa que Guarani é também uma das 350 línguas em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi traduzida.
          No campo dos direitos humanos, outras obras destinadas ao publico infantil ganham relevo, a exemplo dos livros escritos por Claudia Werneck. Preocupada com a falta de mais informações sobre o tema, Werneck escreveu, para os leigos, em 1992, o livro Muito prazer, eu existo. Pela abordagem em torno do direito de ser diferente e do respeito às diferenças, esse livro é considerada pelos especialistas como uma das obras brasileiras mais completas a respeito da chamada síndrome de Down. Três anos depois, a escritora Werneck demonstra, mais uma vez, seu compromisso com a inclusão ao publicar Um amigo diferente? (1995); um livro que trata da aventura humana, especificamente de crianças que vivem em meio a diabetes, doenças renais, alergias e outros problemas. Em 1998, por sua dedicação ao estudo da síndrome de Down, Claudia Werneck recebeu o título de Jornalista Amiga da Criança pela Fundação Abrinq e pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância. Em 1999, contrariada também com o uso e o abuso que se faz em torno da palavra todos, ela publica Sociedade inclusiva: quem cabe no seu TODOS? (1999). Para a UNICEF e à UNESCO, Meu amigo Down, na rua (2004) faz parte de um conjunto de leituras indispensáveis a quem deseja enveredar pelos difíceis caminhos em prol dos direitos humanos e entender, entre outras questões, conceitos como: cidadania, sociedade inclusiva, respeito, diferenças.
          Outro livro importante: Direitos humanos em movimento (Edupe, 2011). Traz artigos, ensaio fotográfico, oficinas, poemas, resenhas e relatos da experiência de alunos e professores universitários no agreste pernambucano, tendo como linha de pesquisa a relação entre literatura e direitos humanos.  Um trecho da apresentação do livro sugere que:
Uma experiência tem sempre a companhia do sujeito, ou melhor, de muitos sujeitos. Daí só podermos contá-la em conjunto porque se trata de histórias que vivemos na companhia do outro. Vocês devem estar se perguntando: mas a experiência não é individual? De fato, ela carrega o modo singular de estar no mundo e, para nós, carrega também o modo coletivo de estar com o mundo. Essa condição de humanidade que envolve a todos que trabalham com os Direitos Humanos é prova da inseparabilidade entre pensamento e ação. Partilhar a experiência de muitos outros a tantos outros, significa que podemos conversar numa grande roda. Ela foi organizada para que crianças, jovens ou adultos de diferentes etnias, no campo ou na cidade, nas escolas, universidades, associações ou em diferentes espaços possam sentir-se acolhidos em seus desejos. O importante é que, neste livro, a escrita de artigos e relatos atravessou o tempo e o espaço e os distintos modos de fazer e perceber-se humano (GRAÚNA; CARVALHO; SANTOS, 2011). 
          Mais uma sugestão de leitura: Mini Larousse dos Direitos da criança (Larousse Junior, 2005). Muitas leituras são necessárias, pois trata-se também de uma tema de referencia aos pais, a educadores e a todos que acreditam que é sempre hora de fazer valer também o Estatuto da criança e do adolescente, o direito de todos.
Sendo assim, cabe lembrar que não estamos mais na Idade da Pedra; quando os mais fortes dominavam os mais fracos. Se os mais fortes insistem em mandar no mundo, tem gente ‘miúda’ que pensa ‘grande’, pensa em direitos iguais, pois gente miúda também quer a paz no mundo.
Nordeste do Brasil, 7 de dezembro de 2014
Graça Graúna (indígena potigara/RN)