Guarani: segunda língua oficial em Mato Grosso do Sul

O guarani é a segunda língua oficial do município de Tacuru, no Mato Grosso do Sul. O município é o segundo do país a adotar um idioma indígena como língua oficial, depois da sanção, pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 24 de maio, do Projeto de lei que oficializa a língua guarani em Tacuru. Com a nova lei, os serviços públicos básicos na área de saúde e as campanhas de prevenção de doenças neste município devem, a partir de agora, prestar informações em guarani e em português.
O primeiro município do Brasil a adotar idioma indígena como língua oficial, além do português, foi São Gabriel da Cachoeira, localizado no extremo norte do Amazonas. Além do português, São Gabriel tem três línguas indígenas oficiais: o Nheengatu, o Tukano e o Baniwa.
Em Tacuru, pequeno município no cone sul do estado do Mato Grosso do Sul, próximo ao Paraguai formado por uma população de 9.554 habitantes, segundo estimativa do IBGE de 2009, 30% de seus habitantes são guarani residentes na aldeia de Jaguapiré, situada no município. A maioria dos 3.245 indígenas de Tacuru não é bilíngue, ou seja, fala somente o Guarani o que dificulta o acesso aos serviços públicos mais essenciais.
Com a nova lei, a Prefeitura de Tacuru se compromete a apoiar e a incentivar o ensino da língua guarani nas escolas e nos meios de comunicação do município. A lei estabelece também que nenhuma pessoa poderá ser discriminada em razão da língua oficial falada, devendo ser respeitada e valorizada as variedades da língua guarani, como o kaiowá, o ñandeva e o mbya.
O Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul (MPF-MS) elogiou a aprovação da medida e argumentou que o Brasil é multiétnico e que o português não pode ser considerado a única língua utilizada no país.  O MPF lembrou que o Brasil é signatário do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, que determina que, nos Estados onde haja minorias étnicas ou linguísticas, pessoas pertencentes a esses grupos não poderão ser privadas de usar sua própria língua.
A Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre os Povos Indígenas e Tribais determina, dentre outras coisas, que deverão ser adotadas medidas para garantir que os membros das minorias étnicas possam compreender e se fazer compreender em procedimentos legais, facilitando para eles, se for necessário, intérpretes ou outros meios eficazes.
Em Paranhos, também no Mato Grosso do Sul, tramita um projeto de lei semelhante ao aprovado em Tacuru, que propõe a oficialização do idioma guarani como segunda língua do município. Em Paranhos existem 4.250 indígenas guarani. Em todo o estado do Mato Grosso do Sul são 68.824 indígenas, divididos em 75 aldeias.
Para o secretário da Identidade e Diversidade Cultural/MinC, Américo Córdula, a oficialização da língua guarani em mais um município brasileiro vai de encontro à política cultural desenvolvida pelo Ministério da Cultura de proteção e proteção dos saberes tradicionais dos povos indígenas.
No mês de fevereiro (de 2 a 5), a SID/MinC realizou, juntamente com a Itaipu Binacional, o Encontro dos Povos Guarani da América do Sul – Aty Guasu Ñande Reko Resakã Yvy Rupa que reuniu cerca de 800 índios da etnia do Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina, em Diamante D”Oeste, no Paraná, para discutir formas de fortalecer o intercâmbio cultural entre as comunidades dos quatro países.
“Temos no Brasil uma comunidade de aproximadamente um milhão de indígenas, formada por 270 povos diferentes, falantes de mais de 180 línguas”, informa Córdula. Segundo ele, a população indígena brasileira é detentora de uma grande diversidade cultural, que deve ser protegida por seu caráter formador da nacionalidade brasileira. Com esse objetivo, a SID/MinC já realizou dois prêmios culturais (2006 e 2007) voltados para as comunidades tradicionais indígenas. Foram investidos R$ 3,6 milhões para a premiação de 182 projetos em todo o Brasil.
Este ano, no mês de março, foi criado o primeiro Colegiado de Culturas Indígenas, formado por 15 titulares e 15 suplentes representantes do segmento. No último dia 1º, foi eleito o conselheiro do Colegiado para o Plenário do Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC).
Maria das Dores do Prado, da etnia Pankararu, foi escolhida para defender, junto ao CNPC, as políticas públicas voltadas para a valorização da cultura de todas as comunidades indígenas brasileiras. Um das reivindicações defendidas pelo segmento durante a Conferência Nacional de Cultural, realizada em março, quando se deu a eleição do Colegiado, é a manutenção de todas as línguas nativas.
Texto: Heli Espíndola (Comunicação SID/MinC)

Nota: Imagem disponivel em Ação de Jovens Indígenas (A.I.J)

Movimento Brasil Literário: 7º Encontro de Escritores Indígenas

 
Pelo quarto ano consecutivo, o Instituto C&A, que há 19 anos atua para a melhoria da qualidade da educação no Brasil, irá apoiar o Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, que ocorre entre os dias 9 e 19 de junho, no Centro Cultural da Ação da Cidadania, no Rio de Janeiro. Nesta 12ª edição do evento, o Instituto C&A irá participar de debates sobre a importância de formar novos leitores no país – o que vai ao encontro da sua proposta de promoção da leitura entre crianças e adolescentes brasileiros.
Na abertura ao público (dia 9/06, quarta-feira), às 15h30, haverá a mesa “Formando Leitores: experiências e desafios”, para discutir experiências de sucesso na formação de leitores, com a mediação da Secretária Geral da FNLIJ, Beth Serra, e presença da gerente da área Educação, Arte e Cultura do Instituto C&A, Áurea Alencar. Participarão os professores selecionados no concurso “Escola de Leitores”, realizado no Rio de Janeiro pelo Instituto C&A, em2009, em parceria com a Secretaria de Educação do Rio de Janeiro e a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). O concurso selecionou projetos de sete escolas públicas envolvendo o tema leitura literária. No debate, os professores apresentarão os desafios, avanços e os primeiros resultados de seus projetos na formação de novos leitores.
 
Movimento Brasil Literário
 
O Instituto C&A também montará um estande no Salão do Livro sobre o “Movimento por um Brasil Literário”, um espaço de mobilização e conscientização da importância da leitura literária no país, principalmente entre jovens e crianças.
 
O público ainda poderá aderir ao “Manifesto por um Brasil Literário”, documento que já conta com mais de 3 mil participantes – lançado na Flip do ano passado – e que deu origem ao Movimento. O principal objetivo é ajudar a fazer do Brasil um país de leitores.
 
Encontro de Escritores Indígenas
 
Nesta edição, o Instituto C&A também apoiará – pelo terceiro ano consecutivo – o 7º Encontro de Escritores e Artistas Indígenas, que acontecerá no contexto do Salão FNLIJ, e terá como tema “Palavra da Cidade, Palavra da Floresta: Literatura Indígena em contexto urbano”. Os escritores indígenas terão um estande no Salão, no qual realizarão atividades culturais com crianças e atividades artísticas.
 
No dia 18/06 (sexta-feira), haverá ampla programação envolvendo cerca de 25 escritores indígenas de diversas tribos brasileiras. Eles irão comentar suas obras, promover saraus de poesias indígenas e participar de mesas de debates sobre a compreensão da identidade do país e a presença indígena no Brasil.
 

Programação do dia 18/06:
Período da Manhã
Ritual e apresentação dos convidados

Mesa 01: “Vozes da cidade, memórias da floresta
Discussão sobre o papel da memória na elaboração da literatura indígena em contexto urbano.
Mediação: Ailton Krenak

Intervalo: Sarau de poéticas indígenas com Carlos Tiago, Graça Graúna e Cristino Wapichana

Mesa 02: “Educação urbana em contexto de aldeia: pontes e contrapontos”
Discussão sobre atuação dos indígenas no contexto urbano. Como esta prática pode interferir na formação de leitores e escritores entre os indígenas.
Mediação: Darlene Taukane

Período da Tarde

Sorteios de livros e arte indígena

Mesa 03: “A Escrita, a História e as trilhas para o futuro
Discussão sobre os caminhos para a produção intelectual indígena tendo a literatura como instrumento no fomento das capacidades individuais dos jovens indígenas.

Mediação: Manoel Moura

Mesa 04: Arte indígena e influências urbanas
Discussão sobre a inserção dos artistas indígenas no mundo urbano e como ocorre seu processo criativo.
Mediação: Cristino Wapichana

Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens

O 12º Salão FNLIJ promove, durante 12 dias, uma variedade de encontros do público com os principais escritores e ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil. O evento reunirá 71 editoras, que apresentarão seus lançamentos. Vários bate-papos com escritores e ilustradores já estão agendados para todos os dias, além de um seminário que acontece nos dias 16, 17 e 18 no auditório local. O evento conta também com novidades como a Biblioteca para bebês, a realização do 1º Encontro Nacional do Varejo do Livro Infantil e Juvenil e a homenagem à Coréia do Sul.

O Salão da FINILIJ tem o patrocínio da Petrobras, por meio da Lei Rouanet, e apoio da Prefeitura do Rio de Janeiro, por meio da Secretaria Municipal de Educação.

SERVIÇO

12º SALÃO FNLIJ PARA CRIANÇAS E JOVENS
Local: Centro Cultural da Ação da Cidadania
Endereço: Av. Barão de Tefé 75 – Saúde – / 2253-8177
Horário: De 9 a 19 de junho.

Segunda à sexta, das 8h30 às 18h; Sábados e domingos, das 10h às 20h.

Valor do ingresso: R$ 4 (gratuidade para maiores de 65 anos, portadores de deficiência, professores da rede municipal e instituições que trabalham com crianças e jovens de comunidades de baixa renda, pré-agendadas com a FNLIJ)

Fonte: Nearin

Irã: quem atira a primeira pedra?

Getty imagens

O presidente Lula empreendeu uma delicada operação diplomática para evitar que o Irã utilize a energia nuclear para fins bélicos. As nações mais poderosas do mundo, capitaneadas pelos EUA, logo expressaram sua indignação e discordância: como um “paiseco” como o Brasil ousa querer ditar regras na política internacional?
Marx, Reich e Erich Fromm já nos haviam prevenido que preconceito de classe costuma ser um tabu arraigado. Como alguém que nasceu na cozinha tem o direito de ocupar a sala de jantar?
Pelo critério de George Bush, lamentavelmente preservado por Obama, o Irã faz parte das nações que integram o “eixo do mal”. Não morro de amores pela terra dos aiatolás, considero o governo iraniano uma autocracia fundamentalista e discordo do modo patriarcal que o Irã trata as suas mulheres, como seres de segunda classe. Diga-se de passagem, assim também faz o Vaticano, razão pela qual as mulheres são impedidas de acesso ao sacerdócio.
Mas não custa questionar o cinismo dos senhores do mundo com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU: por que Israel tem o direito de possuir arsenal nuclear e o Irã não? Ele jogaria uma bomba nuclear sobre outras nações? Ora, isso os EUA já fizeram, em 1945, sacrificando milhares de vidas inocentes em Hiroshima e Nagasaki.
O Irã desencadearia uma guerra mundial? Ora, o Ocidente civilizado já promoveu duas, a segunda vitimando 50 milhões de pessoas. O nazismo e o fascismo surgiram no Oriente? Todos sabemos: foram criação diabólica de dois países considerados altamente civilizados, Alemanha e Itália.
Os árabes, ao longo de 800 anos, ocuparam a Península Ibérica. Deixaram um lastro de cultura e arte. A Europa ocupou e saqueou a África e a Ásia, e o lastro é de miséria, mortandade e extorsão. O Irã é uma ditadura? Quantas não foram implantadas na América Latina pela Casa Branca? Inclusive a do Brasil, que durou 21 anos (1964-1985). Há pouco, a Casa Branca apoiou o golpe militar que derrubou o governo democrático de Honduras.
Fortalecido belicamente o Irã poderia ocupar países vizinhos? E o que dizer da ocupação usamericana de Porto Rico, desde 1898, e agora do Iraque e do Afeganistão? E com que direito os EUA mantêm uma base naval, transformada em cárcere clandestino de supostos terroristas, em Guantánamo, território cubano?
Respaldado em que lei internacional os EUA implantaram 700 bases militares em países estrangeiros? Só na Itália existem 14. Na Colômbia, 5. E quantas bases militares estrangeiras há nos EUA?
Há que se admitir: o Irã não está preparado para se integrar ao seio das nações civilizadas… Nações que financiam, pelo consumo, os cartéis das drogas, tratam imigrantes estrangeiros como escória da humanidade, fazem do consumismo o ideal de vida.
E convém lembrar: fundamentalismo não é apenas uma síndrome religiosa. É, sobretudo, uma enfermidade ideológica, que nos induz a acreditar que o capitalismo é eterno, fora do mercado não há salvação e que a desigualdade social é tão natural quanto o inverno e o verão.
Lula candidato era discriminado pelo elitismo brasileiro por não dominar idiomas estrangeiros. Surpreendeu a todos por falar a linguagem dos pobres e revelar-se exímio negociador em questões internacionais.
Sem o apoio do Brasil não avançaria essa primavera democrática que, hoje, semeia esperança de tempos melhores em toda a América Latina. Os eleitores dão as costas às velhas oligarquias políticas e escolhem governantes progressistas.
Essa nova geopolítica latino-americana, que oficializará em 2011 a União das Nações Latino-Americanas e Caribenhas, certamente preocupa Washington. A crise financeira bate as portas das nações mais poderosas do mundo e a Europa entra num período de recessão. O livre mercado, o Estado mínimo, a moeda única (euro), a ciranda especulativa, mergulham numa crise sem precedentes.
Tudo indica que, daqui pra frente, o mundo será diferente. Se melhor ou pior, depende do resultado do embate entre duas forças contrárias: os que pensam a partir do próprio umbigo, interessados apenas em obter fortunas, e os que buscam um projeto alternativo de sociedade, menos desigual e mais humano. É a antiética em confronto com a ética.

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder”, entre outros livros. http://www.freibetto.org/