Poesia mambembe: recordações de infância

Ilustração: ruadeletras.files.wordpress
 
O meu gosto pelos versos nasceu quando eu tinha seis ou sete anos, quando minha mãe leu para mim um poema a respeito de uma menina que queria ser enfermeira de Jesus. Declamei o poema num circo mambembe.
Lembro das muitas ocasiões em que eu declamava para as visitas que chegavam na pequena Hospedaria de Tia Fisa. Parte da minha infância vivi com Tia Fisa. Ela hospedava feirantes, caixeiros viajantes, indígenas, romeiros e outros religiosos que acompanhavam Frei Damião e viajavam pra Juazeiro pedir chuva ao “Padrim Ciço”…
Eu sabia o poema de cor e salteado. Hoje trago na memória apenas o ritmo de algumas palavras que falavam de uma menina chamada Ritinha.
Do autor ou da autora do poema, não me recordo o nome; dizem que a autoria é desconnhecda, mas compartilho alguns trechos do poema intitulado “Enfermeira de Jesus”. Alguns versos talvez sejam parte também do meu imaginário de criança, mas vale a tentativa de registrar, aqui, o ritmo da palavra e a grande façanha de uma menina que sonhou em aliviar as dores do amigo Jesus.

 

“Enfermeira de Jesus

Encontrando a porta aberta
ligeirinha e muita esperta
sem ninguém para conter
entrou a linda Ritinha
no quarto da mamãezinha
para tudo então mexer

Viu em cima do criado
o Jesus crucificado
e pôs a mão no coração.

Pegou um esparadrapo
um pedacinho de trapo
um copo d’água e algodão

[…]

Quando a mãe entrou no quarto
chamou com a linda Ritinha
que
logo, assim ,respondeu:
veja mamãe como eu sei
pois eu sozinha curei
todo dodói de Jesus”


Nas minhas constantes viagens entre o Agreste e o Litoral pernambucano, aqui e acolá avisto um circo mambembe. Ao ver um circo bem pobrezinho na beira da estrada, vem logo à memória um dos momentos especiais da minha infância, quando declamei o poema “Enfermeira de Jesus”; desse poema, até hoje desconheceço a autoria. Declamei o poema no maior circo que apareceu no meu lugarejo chamado Campestre, lá no Rio Grande do Norte. Hoje tenho noção que o circo não parecia tão grande assim, mas foi e continua sendo o maior circo de todos os tempos na minha recordação de infância.
Lembro até do vestido que eu usava: era branco, bordado, laço na cintura. Lembro até dos carões que eu levava pra pentear os cabelos e minha mãe dizia: como pode uma menina com uma roupa tão bonita declamar um poema com os cabelos despenteados? Mas não adiantava reclamar. Só sei que ainda guardo o cheiro da brilhantina na minha franja; lembro da luz meio laranja sobre mim no picadeiro. Eu, sentadinha em um banco colorido, toda prosa e ciente que todos naquela noite de sábado ouviam minha voz miúda no auto falante da cidade.
Foi assim que dei conta do senso poético ao declamar sobre a liberdade de uma porta aberta e nessa direção a palavra mambembe sem ninguém para conter.

 

Graça Graúna (indígena potiguara), 3 de novembro de 2009

 
 
Nota: publicado no Overmundo.













	

Em memória de Inês de Castro

 
Túmulo de Inês de Castro

          Dia de finados. Há tantos mortos para lembrar…uns que se foram muito cedo, outros que atravessam séculos e sua história de vida continua alimentando o nosso imaginário, a nossa memória. Há muitos mortos para lembrar; sejam brasileiros ou portugueses, índios ou negros; mortos de diferentes etnias
          Neste blog, eu costumo publicar textos de minha autoria e abro espaço, também, para os textos que eu gostaria de ter escrito. Por essa razão, acolho o poema de Luciano Alves. Ele dedicou os versos seguintes à imortal Inês de Castro; uma personagem da história portuguesa que recebeu de Camões o belíssimo e trágico Canto III, em “Os Lusíadas”. O poema de Luciano é fruto das minhas provocações nas aulas de Literatura Portuguesa I, no Curso de Letras da UPE.O canto terceiro em Os Lusiadas

Concluindo o canto terceiro
desta obra imortal
temos um grave desfecho
que a todos choca igual

A amada de Dom Pedro
pra ninguém era segredo:
era a bela Inês de Castro

A essa altura ainda é cedo
mas no desenrolar do enredo
o luto à trama invade
por hora goza de sossego
não tem noção, sequer medo
de um futuro tão covarde.

O pai do amado não aprova
do seu filho a união
por isso, o Rei Afonso
sem piedade ou compaixão
decreta que só a morte,
o ceifar da vida, triste sorte,
é para Inês de Castro a decisão.

É na estrofe UM TRÊS DOIS
que a maldade acontece
pouco tempo depois
da vítima fazer a prece

“- Por amar, que me perdois
o teu filho mais que pudesse
rogo a ti agora pois
que ao exílio me arremesse”

Triste sina a de Inês
que pela espada foi vencida
amar demais foi o que ela fez
pra merecer a vil ferida
que dói no peito português
ainda hoje revivida

E o poeta continua
seu relato grandioso
da história da terra sua
que lhe deixa mui garboso
para os clássicos apontando
aos textos sagrados associando
segue em seus versos rimando

Assim, compunha o clássico

da terra lusitana
da última flor do Lácio
seu estilo, seu traço
ainda hoje não engana
quem nesse mar navega
logo louva sua entrega
à obra tão vital,
pois nela muito se aprende
muito se sabe, muito se entende
da história de Portugal.

Nota: Luciano Alves é meu aluno no 4º período de Letras, UPE/Garanhuns.

Cinema e Direitos Humanos


A 4ª Mostra de Cinema e Direitos Humanos
é uma realização da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, com patrocínio da Petrobras e produção da Cinemateca Brasileira. Conta com apoio do SESC/SP, TV Brasil e do Ministério das Relações Exteriores. Em Recife, a 4ª Mostra acontece nos cinemas da Fundação Joaquim Nabuco e do Teatro do Parque. A entrada é franca. Eis a programação:

30/10 – sexta
20h – Sessão de Abertura

HISTÓRIAS DE DIREITOS HUMANOS – vários diretores (diversos países, 84 min, 2008, doc/fic)
31/10 – sábado
14h – CORUMBIARA – Vincent Carelli (Brasil, 117 min, 2009, doc)
18h – O CAVALEIRO NEGRO – Ulf Hultberg, Åsa Faringer (Suécia / México / Dinamarca, 95min, 2007, fic)
20h – UNIDADE 25 – Alejo Hojiman (Argentina / Espanha, 90 min, 2008, doc)
COCAIS, A CIDADE REINVENTADA – Inês Cardoso (Brasil, 15 min, 2008, doc)
01/11 – domingo
14h – TRAGO COMIGO – Parte 1 (capítulos 1 e 2) – Tata Amaral (Brasil, 96 min, 2009, doc/fic)16h – TRAGO COMIGO – Parte 2 (capítulos 3 e 4) – Tata Amaral (Brasil, 96 min, 2009, doc/fic)18h – BAGATELA – A NECESSIDADE TEM CARA DE CACHORRO – Jorge Caballero (Colômbia / Espanha, 74 min, 2008, doc)
MENINO ARANHA – Mariana Lacerda (Brasil, 13 min, 2008, doc)
MENINOS – Gonzalo Rodríguez Fábregas (Uruguai, 14 min, 2008, doc)
20h – ENTRE A LUZ E A SOMBRA – Luciana Burlamaqui (Brasil, 150 min, 2007, doc)

02/11 – segunda
14h – MOKOI TEKOÁ PETEI JEGUATÁDUAS ALDEIAS, UMA CAMINHADA – Arial Duarte Ortega, Germano Beñites, Jorge Morinico (Brasil, 63 min, 2008, doc)
DE VOLTA À TERRA BOA – Mari Corrêa, Vincent Carelli (Brasil, 21 min, 2008, doc)
PRÎARA JÕ, DEPOIS DO OVO, A GUERRA – Komoi Paraná (Brasil, 15 min, 2008, doc)
16h – NUNCA MAIS!!! COCHABAMBA, 11 DE JANEIRO DE 2007 – Roberto Alem (Bolívia, 52 min, 2007, doc)
DAYUMA NUNCA MAIS – Roberto Aguirre Andrade (Equador, 30 min, 2008, doc)
18h – SENTIDOS À FLOR DA PELE – Evaldo Mocarzel (Brasil, 80 min, 2008, doc)PUGILE – Danilo Solferini (Brasil, 21 min, 2007, fic)
20h – Audiodescrição NÃO CONTE A NINGUÉM – Francisco J. Lombardi (Peru / Espanha, 120 min, 1998, fic)

* Sessão com audiodescrição para público com deficiência visual

Teatro do Parque
14h O SIGNO DA CIDADE – Carlos Alberto Riccelli (Brasil, 96 min, 2007, fic)
OS SAPATOS DE ARISTEU – René Guerra (Brasil, 17 min, 2008, fic)
16h – TAMBORES DE ÁGUA: UM ENCONTRO ANCESTRAL – Clarissa Duque (Venezuela / Camarões, 75 min, 2008, doc)
ALÉM DE CAFÉ, PETRÓLEO E DIAMANTES – Marcelo Trotta (Brasil, 15 min, 2007, doc)TARABATARA – Julia Zakia (Brasil, 23 min, 2007, doc)

03/11 – terça
14h – YÃKWÁ, O BANQUETE DOS ESPÍRITOS – Virgínia Valadão (Brasil, 54 min, 1995, doc)
A ARCA DOS ZO’É – Dominique Tilkin Gallois, Vincent Carelli (Brasil, 22 min, 1993, doc)
O ESPÍRITO DA TV – Vincent Carelli (Brasil, 18 min, 1990, doc)
16h – TAMBÉM SOMOS IRMÃOS – José Carlos Burle (Brasil, 85 min, 1949, fic)
18h – À MARGEM DO LIXO – Evaldo Mocarzel (Brasil, 84 min, 2008, doc)
20h – GARAPA – José Padilha (Brasil, 110 min, 2008, doc)

Teatro do Parque
16h – CRUELDADE MORTAL< – Luiz Paulino dos Santos (Brasil, 92 min, 1976, fic) ESTRELA DE OITO PONTAS – Fernando Diniz e Marcos Magalhães (Brasil, 12 min, 1996, fic/ani)

04/11 – quarta
Cinema da Fundação Joaquim Nabuco

14h – PRO DIA NASCER FELIZ – João Jardim (Brasil, 88 min, 2006, doc)
18h – DEVOÇÃO – Sergio Sanz (Brasil, 85 min, 2008, doc)PHEDRA – Claudia Priscilla (Brasil, 13 min, 2008, doc)

05/11 – quinta
16h – O REALISMO SOCIALISTA – Raúl Ruiz (Chile, 52 min, 1973, fic/doc)
AGARRANDO PUEBLO (OS VAMPIROS DA MISÉRIA) – Carlos Mayolo, Luis Ospina (Colômbia, 28 min, 1978, fic)
18h – ESSE HOMEM VAI MORRERUM FAROESTE CABOCLO – Emilio Gallo (Brasil, 75 min, 2008, doc)
CONTRA-CORRENTE – Agostina Guala (Argentina, 9 min, 2008, fic)
PARTIDA – Marcelo Martinessi (Paraguai, 14 min, 2008, fic)

Local
Cinema na Fundação J. Nabuco, 201 lugares – Rua Henrique Dias, 609 – Derby,

(81) 3073-6689/6688
Cinema do Parque, 740 lugares – Rua do Hospício, 88 – Boa Vista,
(81) 3232-1553

para saber mais:
contato@cinedireitoshumanos.org.br
e
http://www.cinedireitoshumanos.org.br/

Nota: publicado no Overmundo.