Desenho de José Pádua. Imagem extraída do Google.
I
Poemas de Natal
deviam se de alegria,
mas por força do ofício
ponteio em litania
II
Pegue o viaduto
vá na contramão
em cada esquina um presépio
em construção
III
Nasceu um menino
sem “Alegria dos homens”
sem espera, sem abrigo
sem lampejos e encantos
IV
Nasceu um menino!
sequer tive tempo
de escovar os cabelos
de chegar ao cinema
de checar os e-mails
de acompanhar os eventos
de acender as velas
e agradecer os presentes
dos amigos secretos
V
Yes
natal
que é natal
tem que ter estrela
bem no topo da árvore
de preferência banhada de
purpurina. Enfeites, efeitos,
grifes, beijinhos, velas, guardanapos,
vídeos, cds, framboesas, cartões de crédito,
postais e poemas que não falem do absurdo presépio
sob o viaduto
em construção
VI
Yes, Sir.
Meu poema de Natal
foi levado pelo vento
para fazer companhia
às almas no esquecimento
VII
Pra longe foi meu poema
lavrado pelo sereno
da noite para espantar
as barricadas da fome
nos quatro cantos do vento
Graça Graúna (indígena potiguara/RN)
Graça Graúna. Tessituras da terra. Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2001, p.50-53
No site
Overmundo, este poema recebeu
267 votos.