Poesia indígena no Rio Grande do Norte (VIII)

Foto enviada por Karollen Potyguara

Membro da Articulação dos Povos Indígenas do Rio Grande do Norte (APIRN) e uma das administradoras da página Literatura Indígena RN, no Instagram. Karollen Araújo Potyguara é escritora, musicista, dançarina do ventre, pintora e professora de Artes e Filosofias. Participa da Associação Potiguar de Doulas (APD). Entre os escritos de sua autoria, ela destaca o conto “Benzaiten e a flor de lótus” (transformado em animação infanto-juvenil) e um poema musicado (Primeiras Sensações Causa e Efeito – Eu Mente); ambos disponíveis no youtube. É especialista em Neurociência e Educação Musical e pós-graduanda em Educação Inclusiva.  Leia e compartilhe o poema “Deus-a Mulher”, de Karollen:

Pintura: Karollen A. Potyguara

Deus-a Mulher

Somos corpos de átomos das poeiras cósmicas.

Todo o universo está em nosso ser profundo.

Geramos e criamos em próprio solo fecundo

Toda natureza de complexas geometrias crômicas.





Mulheres… os kosmos em teus ventres foram gerados.

Surgindo das ovulações siderais das galáxias uterinas,

Fluindo pelas equóreas substâncias menstruais divinas,

Banhamos e nutrimos todos os viventes diversificados.





Somos sem dúvida, parteiras de nós mesmas. Iluminadas.

Fundadoras da maiêutica, filósofas revolucionárias.

Matriarcas intemporais. Musas extraordinárias…

Todas as Artes em nós orbitam harmoniosas e afinadas.





As três Moiras tecem o fio tênue da ciclicidade perene

Enquanto doamos compulsivamente a Vida e a Morte…

Ainda assim tentamos em vão mudar nossa própria sorte,

Mas não há acordo nem parcimônia com o destino solene.





Destarte, não tememos os lacônicos finitos…

A eternidade está pulsando em nossa mente…

Vivemos e sentimos supernovas, sinestesicamente

Com a mística ânima arraigada de infinitos!

Há um mundo melhor se aprendermos a dialogar com as plantas

Fonte e Foto: Servindi. Tradução livre: Graça Graúna

Servindi, 15 de janeiro de 2021.- “Há um mundo melhor se você vê com o coração, há um mundo melhor se aprendemos a falar com as plantas” é a mensagem que meninos e meninas cantam na última produção da Rádio Ucamara.

O videoclipe contou com o apoio do concurso INNOVATE PERÚ, promovido pelo Ministério da Produção, que apoiou ações de comunicação durante a emergência sanitária.

A produção se intitula “MÃES” em referência às plantas e seu poder que se revelam diante de nós para não nos deixar órfãos em tempos em que a morte e a doença nos surpreendem. 

Fonte: Servindi

“Elas nos protegeram, elas responderam a nós. Elas entraram em nossas casas, de mãos dadas com a sabedoria de nossas avós, de nossos idosos, para nos limpar por dentro, para nos curar, para nos tratar e nos proteger”, explica Rádio Ucamara.

“No seio mais íntimo de nossas famílias, de nossas comunidades preparamos nosso chá de sacha, alho, grapefruit, nosso cordoncillo. Com elas, o mal nos encontrou com um sistema imunológico forte, capaz de enfrentá-lo, em meio à indiferença de um sistema de saúde ausente e atrasado “. 

“As plantas medicinais têm sido a resposta que os povos indígenas têm dado às nossas próprias comunidades e ao mundo, a sua resposta correcta e amorosa ao mesmo tempo denuncia a urgência de um verdadeiro modelo intercultural de saúde que valorize e respeite a sabedoria do nosso povo, nossa memória, nossa história “.

“Nós, povos, sentimos isso. As mães das plantas nos revelam, seus espíritos abrigam e cuidam de nós, sua força permanece quando mais precisamos delas. 

“Elas vêm até nós em sonhos, nos guiam, nos avisam” e esse conhecimento continua passando de geração em geração. “Os sonhos ainda são o espaço sagrado de encontro.”

“E também nos pedem respeito, reciprocidade, justiça. Curar, curar, não é do corpo, é da alma, é da sociedade, é do território. Explorar-se mutuamente, saquear nossa terra, é morte”.

“As plantas medicinais têm sido o sinal de vida, resistência e esperança de nossos povos, que, em meio a tantas pandemias, resistimos a não desaparecer”, finaliza a Rádio Ucamara.

Sobre a Radio Ucamara

A Rádio Ucamara é uma rádio comunitária, localizada em Nauta ao sul de Iquitos (Loreto), que nasceu com o objetivo de resgatar a língua, a cultura e a identidade do povo Kukama.

Nasceu com o impulso e direção do comunicador indígena Leonardo Tello Imaina e se destaca por ações poderosas do rádio e da comunidade, com a participação de meninos, meninas, adolescentes e idosos.

Alcançaram a fama com o vídeo Kumbarikira que se tornou viral nas redes e, desde então, criaram produtos audiovisuais musicais de alto impacto em que convergem sonhos, histórias, conhecimentos e a linguagem que ameaçavam desaparecer.

Um posfácio ao livro: “Sob fluência do Espírito”

A tradição oral em comunhão com a literatura escrita, a música e a dança, por exemplo, é prova do estabelecimento de uma realidade que podemos chamar de estado da arte. Isto acontece de forma natural, isto é, espontânea e sem superficialismo no livro Ye-niewo – Sob fluência de espírito, de Frank Lemos Tarairiú.

Para mim não restam dúvidas de que o livro de Frank nos aproxima dos Saberes Ancestrais, a começar pela configuração do livro em sete partes intituladas Dança Toré I, Dança Toré II e vai nesse ritmo até a última e sétima parte. Cada parte da obra traz subtítulos que sugerem situações do cotidiano ou sentimentos quase revelados num jeito de falar próprio de quem conhece as matas, os rios, as pedras, os sertões, as cidades, as cantigas, os rezos, as paixões e uma série de situações que se transformam em versos e estes – por sua vez – lembram alguns toantes, isto é, o que soa bem na tradição do toré. Desse modo, temos na primeira parte os gestos arteiros do amor e os dias de sorte que sugerem o poema Quitanda.

É de encher os olhos e a alma a segunda parte do livro, onde “É preciso cantar e contar a aldeia”; onde tem festa de pássaros e sapoti. Sob a influência do Espírito, a arte em movimento nos leva ao sétimo mundo, à Dança Toré VII, em meio a punhados de amor; como quer a poesia oriunda dos mais velhos:

Contava meu avô

Que a vida da palmeira

Ensina a benzedeira

A vida que há na cor

Alegra-me conhecer mais de perto (por assim dizer) a poesia de Frank Lemos, do povo Tarairiú: povo do agreste do Rio Grande do Norte e que também habitou os sertões dos estados da Paraíba, Ceará, Pernambuco. Neste posfácio, resta-me agradecer o sagrado momento da leitura que esse livro me proporcionou. Frank autodeclara-se Tarairiú (como prevê a OIT 169) e segue a sua trajetória de artista da resistência “sob a influência do Espírito”. Que Tupã nos acolha!

Ameríndia, 7 de janeiro de 2021

Graça Graúna

(Indígena Potiguara/RN)