Folia de Reis

Folia de Reis
 
Os reis mag(r)os lentamente
caminham pelo sertão
anunciam que a vida
é de curta duração
enquanto o sol arrebentar
em pedacinhos o chão
Léguas e luas de sede
ovos de camaleão
mas nem tudo está perdido:
na direção da estrela
a flor do mandacaru
dá esperança ao sertão

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)
Nordeste do Brasil, janeiro de 2017.

 
 
Nota: escrevi este poema em dezembro de 1981. Em 1999  foi publicado no meu primeiro livro de poemas Canto Mestizo, prefaciado por Leila Míccolis (Ed. Blocos RJ).

Das palavras e seus silêncios

Ilustração: Fabiano Sobreira

Das palavras e seus silêncios
Graça Graúna
Falta pouco para fecharmos mais um ciclo do tempo em nossas vidas. Isto significa que devemos estar atentos a mais um rito de passagem para o novo.
Por onde começar? Para onde ir? Por que e para que refletir sobre os tantos caminhos que haveremos de percorrer? O que virá? Que escolha fazer: o caminho do diálogo ou o seu oposto? Dizer não à intolerância, ao machismo, ao preconceito e a outras formas de violência é uma maneira de colocar-se a serviço da humanidade.
Falta pouco para fecharmos mais um ciclo do tempo em nossas vidas.
Um caminho possível para intuir o que virá reside no desafio que é amar o outro; diga-se de passagem, uma travessia difícil, pois à medida que não respeitamos as diferenças, aguçamos em nós a falta de fé no outro.  Nesta perspectiva, tomo a liberdade de compartilhar as palavras e os seus silêncios que alimentam as dezenas de entrevistas que o jornalista Lauro Henriques Jr. realizou para compor o livro: Palavras de poder (Editora Leya, São Paulo, 2011, volume Brasil). Dessa obra, entre os entrevistados, sublinho as palavras de Pedro Casaldáliga (pp. 131-143).
A propósito do poder que tem as palavras, o bispo da terra sem males enfatiza: “É preciso colocar a fé e a esperança em nome da solidariedade. Crer que uma nova vida é possível é o primeiro passo para que ela se realize” (p. 132). Ao refletir sobre o papel da fé na construção da humanidade, Casaldáliga ressalta que o diálogo entre os diferentes credos não deve limitar-se ao aspecto religioso, considerando que, juntas, as religiões ampliem as perspectivas de atender “aos desafios da atualidade: a fome, o armamentismo, a intolerância, o machismo, a depredação ecológica”(p. 134). No eixo dessa comunicação, Casaldáliga adverte que as pessoas não precisam renunciar a crença, a etnia para reconhecer-se cidadão ou cidadã do mundo. Em outras palavras, ele acrescenta: “só quem vive a sua identidade de modo sereno, adulto, é capaz de dialogar. […] Se não criarmos uma cultura de paz a partir do próprio coração, não tem saída” (p.134).
Casaldáliga fala dos sinais de esperança que se manifestam, por exemplo, na solidariedade entre os diferentes povos; solidariedade que se transforma em bandeira de paz ou como ele sugere à luz da poesia da nicaraguense Gioconda Belli: “a solidariedade é a ternura dos povos” (p. 135).
Da relação entre religião e política, ele observa que na maioria dos países a separação entre Igreja e Estado é positiva; para que essa relação se concretize é necessário que as pessoas “saibam conjugar a sua fé com a sua cidadania e, motivados por essa fé, sejam mais éticos e mais comprometidos com o próximo” (p.135). Ainda sobre esse exercício de cidadania, Casaldáliga menciona o espetáculo que foi a “Missa da terra sem males”, na década de 1970, em defesa da causa indígena. A missa contou com a parceria de Milton Nascimento (cantor)  e Pedro Tierra (poeta). Na mesma época, Dom Casaldáliga celebrou a Missa dos Quilombos em defesa da causa negra.
Quanto ao papel da arte, da poesia em nossas vidas, Casaldáliga cita Santo Agostinho: “cantar é rezar suas vezes” e orienta que: “falar poeticamente é comunicar-se com a boca e com os olhos, enviando um pouco da própria alma em cada palavra que se diz” (p.136).
Eu passaria aqui, horas e horas sublinhando as boas palavras do bispo de Araguaia, mas prefiro deixar esta leitura em aberto a fim de que outros(as) leitores(as) intuam sobre o desafio que é “a convivência no respeito, no estímulo, no carinho” (p.139); ou sobre a utopia de que trata Casaldáliga à luz do pensamento de Eduardo Galeano: “a utopia é como um horizonte: a gente não alcança nunca, mas, graças a ela, continuamos caminhando” (p.141).
Porque falta pouco para fechar mais um rito de passagem em nossas vidas, reitero a importância de repensar acerca do nosso lugar no mundo, sem medo de enfrenta-lo e sobre os nossos desejos de tornar o mundo melhor.

Nordeste do Brasil, 25 de dezembro de 2016
Graça Graúna

No Projeto Brasis uma Canção Peregrina

Em junho de 2016, a convite da pesquisadora  Mayra Fonseca, participei do Projeto Brasis, quando abordei junto a outros mestres da Cultura Brasileira o tema “Outras narrativas: a literatura como plataforma para compartilhar outros modelos de pensamento e aproximar mundos”. Participar do Projeto Brasis foi e continua sendo uma das ações mais importantes da minha vida de cidadã, mulher indígena, educadora, escritora. Minha gratidão a Mayra Fonseca e a todos pelo presente maravilhoso em forma de vídeo e exposição sobre o meu poema “Canção peregrina”. Que Ñanderu, Deus, Tupã e todos os Orixás acolham a todos(as) na tessitura de muitas histórias e diferentes etnias.
Saudações indígenas,
 
Graça Graúna
 
Obs.: na sequência, o e-mail que recebi da amiga e pesquisadora Mayra Fonseca
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Graúna, minha querida.

Como você está?

Por aqui, muito trabalho e bastante correria. Como parte do trajeto da residência Os Brasis em São Paulo, vamos abrir a exposição no Red Bull Station no dia 22 de novembro: sinta-se convidada e faço questão de que convide quem achar adequado.

Mas, agora, te escrevo para compartilhar em primeira mão uma decisão. A tua fala nos tocou e nos despertou muito no dia de abertura do festival. Todos ficamos emocionados e nos sentimos chamados pela canção peregrina. 

Por isso, decidimos, como você tinha me autorizado, usar o texto do poema como insumo para duas obras como agradecimento e homenagem a você e todos os nosso povos indígenas:
_ este vídeo, declamado por muitos de nós no festival, é o primeiro chamado para a exposição e para que a cidade de São Paulo perceba todos os povos que a habitam
_ na exposição, teremos uma parede que também fará referência ao poema: vamos instalar uma grande corda azul caindo do texto em vasos com contas e miçangas, vamos um convidar os visitantes a preencher o fio com as contas e miçangas, tecendo um colar. Na parede, estará escrito: “eu tenho um colar de muitas histórias e diferentes etnias“. 

Tanto aqui no vídeo como na parede, faremos referência a você como a autora. Fique à vontade para divulgar essa peça como achar melhor e para usá-la em qualquer situação que achar adequado, ela é tua. 

Um grande beijo.

Saudações indígenas.

Mayra