No horizonte da autonomia

Imagem: campanhaguarani.org.br 
Autoria: Egon Dionísio Heck
(Assessor do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) Mato Grosso do Sul e colaborador da Adital )
Conquista e não esmola.
Chão e não nuvem.
É caminho, é reza, é luta.
Autonomia é um horizonte
no qual temos que pisar
com força e com carinho,
no amanhecer de cada dia.
“Desde Bolivia un saludo revolucionario del KEREIMBA -Ramiro Valle Mandepora- para mis tentaras -hermanos- de la nación guaraní de los cuatro países que, nuevamente tendrán la suerte de reencontrarse con un sólo objetivo fundamental como es la reconstitución territorial de la nación guaraní para la consolidación del ejercicio a la libre determinación que consiste en el reconocimiento de nuestro derecho a la autonomía, institución propia, autogobierno y cultural, así como derechos individuales y colectivos dentro de un estado.” (Ramiro Valle Mandepora – de APG – Assembleia do Povo Guarani)
Com essa mensagem, o Guarani da Bolívia expressa bem o que está acontecendo nesses dias, e em especial no dia de hoje. Aprofundar a reflexão e buscar conjuntamente caminhos de articulação e organização dos Guarani em nível continental. Sonhemos, partilharemos e consensuemos nossas propostas em conjunto.
Muitas pedras no caminho da autonomia
A conquista da autonomia pelos povos indígenas no continente tem sido caminho árduo, de avanços e percalços, armadilhas e vitórias. São décadas de experiências que se transformaram em referências importantes para o momento atual de luta pela autonomia dos Povos Guarani na América do Sul
No início da década de 80 o governo revolucionário sandinista deparou com a difícil realidade e perspectiva dos povos indígenas. Os Miskito, Suma, Rama dentre outros, exigiam o respeito a seus territórios e a autonomia da Costa Atlântica da Nicarágua. Diante dessa realidade desafiadora, o então governo sandinista desencadeou um amplo debate sobre as perspectivas de autonomia desses povos. Foram construídos marcos legais importantes para uma nova relação entre o governo e os povos indígenas. Entre percalços políticos e retrocessos, o que permaneceu foi um primeiro intento prático de constituição de autonomias indígenas dentro do marco legal de estados nacionais.
Na década de 90 esse debate voltou com bastante força na proposta e luta zapatista no México. A exigência de autonomias regionais pelos zapatistas e povos indígenas de diversas regiões do país, obrigou colocar novamente na agenda regional e mundial a discussão sobre a autonomia dos povos indígenas dentro dos estados nacionais. Uma questão central colocada pelo movimento zapatista é de que eles não almejavam o poder, porém exigiam que as comunidades indígenas fossem respeitadas em sua diversidade e tivessem autonomia para gerir e decidir sobre seus projetos de vida dentro de seus territórios, com autonomia.
O debate sobre autonomia, com a perspectiva de autodeterminação foi palco de debates mundialmente. A maioria dos estados nacionais, com assento na ONU se opunham a esse conceito, pois entendiam que o mesmo possibilitava o surgimento de estados nacionais indígenas, independentes. Por isso conseguiram impedir com que esses termos fossem assumidos pela ONU, tendo então surgido o conceito de livre-determinação. E isso ficou estabelecido na Declaração dos Direitos Indígenas, pela ONU, depois de que três décadas de debates.
Agora o Povo Guarani, afirmando-se enquanto Nação Guarani, recoloca a questão, seja a partir de bases legais já consolidadas, seja a partir da percepção e reivindicação dos povos Guarani presentes em quatro países da América do Sul.
A novidade são os caminhos já percorridos e as conquistas consolidadas, especialmente pelos Guarani na Bolívia. Já não é mais apenas uma discussão teórica, um sonho distante, mas são experiências concretas e conquistas legais, como o reconhecimento de estado plurinacional na Bolívia e Equador.
Para os Guarani da Bolívia, presentes no III Encontro Continental Guarani, em assuntos, que encerra no dia de hoje, “Autonomia indígena é a condição e principio de liberdade de nosso povo, que impregna o ser individual e social, como categoria fundamental de antidominação e autodeterminação”. Enquanto avançam na construção efetiva dos espaços de autonomia, convivem os Guarani da Bolívia com situações de escravidão a que estão submetidas comunidades desse povo, nas fazendas dentro de seu território. Porém tem constituído um canal de diálogo com o governo Evo Morales, que apesar de todas as ambigüidades tem permitido fazer avançar a construção das autonomias indígenas, em especial a autonomia do Povo Guarani.
Luta e organização
O penúltimo dia do importante Encontro Guarani, com mais de 400 participantes dos quatro países – Paraguai, Bolívia, Brasil e Argentina, o debate girou em torno do necessário processo de articulação e organização Guarani, para viabilizar e ampliar o avanço e conquistas dos direitos das mais de mil comunidades Guarani, 300 mil pessoas, que depositam sua confiança nesse novo momento da Nação Guarani.
Após muito debate, ficou a certeza de que só consolidando a articulação e organização do povo em nível continental, se poderia assegurar os avanços em curso, especialmente na lua pela terra, território e autonomia.
Ficou aprovado e eleito o Conselho Continental da Nação Guarani, com 25 membros representando os Povos Guarani nos quatro países. Logo após aprovação o Conselho se reuniu para definir as bases de seu funcionamento, responsabilidades e sua divulgação para as comunidades Guarani e para o mundo.
Hoje estarão entregando às autoridades do Paraguai o Manifesto da III Assembléia, onde denunciam os desrespeitos ao direito, as violências, mas principalmente anunciando a luta pela autonomia e autodeterminação, a partir do reconhecimento de seu modo de ser e viver dentro de seus territórios. Com certeza os caminhos da autonomia serão plurais, lentos, difíceis, porém o horizonte da autonomia vai ficando mais próximo.
Movimento Povo Guarani Grande Povo
Assunção, 19 de novembro de 2010.
Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para: Caixa Postal 131 – CEP 60.001-970 – Fortaleza – Ceará – Brasil

No caminho da noite

 Povo Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul (Foto: Verena Glass), disponível em: http://www.reporterbrasil.org.br

Memória de um dia muito especial para mim
No caminho da noite
Texto de: Anastacio Peralta Kaiowá Guarani (Adital – CNPI)


Dia 27 de outubro de 2010 nos organizamos para fazer uma visita a terra indígena Ypo’i, no município de Paranhos, mais ou menos 285 km de Dourados, com representantes do conselho do Aty guassu, Nelson Cabreira e Elizeu Lopes, líder da terra indígena Kurussu Amba, que fica no município de Coronel Sapucaia, e o representante CNPI, Anastácio Peralta. Esta visita só foi possível com apoio de aliados desta causa, os quais junto conosco saíram de suas casas logo após o almoço. No dia 27 de outubro, seguimos viagem, passando em Ponta Porã, Amambaí e na TI Limão Verde, visitando o professor Oriel; depois chegando até a casa do ñanderu Atana Texeira (ele fez uma reza, abençoando nossa viagem; para tudo ocorresse bem). Logo após a benção, nos despedimos; já era mais ou menos 18hs30min e seguimos para nosso destino combinado, para nos encontrar na beira da rodovia. Neste percurso, nos perdemos na comunicação e do local. Quando conseguimos falar, tivemos que voltar para trás. Mas, não demorou muito, chegou um telefonema nos avisando que o guia já estava no local. Nos encontramos, retiramos nossas bagagens do carro, colocamos as mochilas nas costas e seguimos com o apoio dos guerreiros. Nos despedimos de nossos apoiadores. Tudo muito rápido, para não sermos vistos pelos pistoleiros, para que estes não nos percebessem. Entramos, meio ao mato, dentro da escuridão da noite, muito assustados. Sem muita prática de andar durante a noite e pelo mato com muito peso nas costas e temendo; mas, por amor à vida daqueles que lá estávamos, seguimos o caminho em silêncio, com o espírito de solidariedade e a bênção do ñanderu Atana e ñandejara, e com o pensamento preso nas crianças de Ypo’i, fomos renovando as energias e obtendo força, coragem e tudo foi ficando cada vez mais próximo. A bagagem ficou leve, a noite clara e nossos olhos desembaraçados na caminhada, enxergando as cercas e buracos. Até meus ouvidos se abriram para ouvir os sons da mata.
Já era mais ou menos meia noite quando a lua surgiu mostrando seu rosto pela metade, linda no horizonte, nos presenteando com um clarão prateado, me deixando mais encantado e emocionado com este grande encontro, local marcado pela dor de mais de um ano do massacre de Jenivaldo Vera, que foi brutalmente assassinado e a dor de até o momento ainda não ter encontrado o guerreiro e companheiro Rolindo, que, desde aquela data, está desaparecido. Ali meditamos e seguimos mais 40min de caminhada até o local. Pernoitamos na casa da liderança.
A orquestra da mata
Levantamos cedo e fomos tomar café ouvindo o som das águas da cachoeira, do canto dos pássaros em orquestra saudava mais um dia na mata. Seu Bernardo então conta sua história enquanto as crianças levantam todas felizes. Ao vê-las sinto grande alegria e meu pensamento fazia mil questionamentos. Agradecido dizia: valeu! Valeu à pena o sofrimento pelo caminho na mata adentro… Senti que a causa era justa e nobre ao ver naqueles olhos pequenos a marca de um povo que luta em busca da yvy maranẽ’ỹ (terra sagrada). Após longa conversa em volta do fogo, fomos fazer várias visitas, acompanhados por seu Catalino e seu Bernardo, eles iaô nos falando de sua trajetória, nos mostrando a localização onde seus pais moravam. No lado norte tinha uma casa de reza, no lado sul uma cabeceira do rio. Era um lugar onde tinha muitos Guarani. Aqui não tinha só esse mato; ele ia até o Paraguai. Havia caça, tinha muito peixe; ninguém passava fome. Na primeira casa mora o senhor Fausto Vera. Nos apresentarmos e convidamos para nos reunir depois do jejum.
Reza, memória e solidariedade
Às nove e meia da manhã iniciou a reza, dando as boas vindas e agradecendo a comida que chegou, pois já não tinham nada para comer. Começando a reunião, seu Catalino iniciou com a seguinte fala: “A nossa situação não esta nada bom porque já tá fazendo um ano que Jenivaldo foi encontrado morto neste riozinho e o Rolindo até hoje não sabemos se está morto, nem onde ele está; por isso, em agosto, nós resolvemos voltar para cá para procurar meu filho, mas até agora nós não achamos, ninguém foi preso para pagar pelo crime que cometeram contra Jenivaldo, morto como um animal qualquer. Como se não bastasse tudo o que já aconteceu com nós, a juíza ainda deu 10 dias de prazo pra gente sair daqui, mas ninguém vem aqui nos visitar, ficar aqui com a gente, nem FUNAI; porque o fazendeiro não deixa entrar, estamos como se tivéssemos numa cadeia. Mas não tem nada, não. Estamos firmes e sabemos que Deus é grande e é por nós e viemos para cá preparados para ficar aqui mesmo. Não tentem tirar a gente daqui porque aqui já perdemos nosso parente e se for tirar nós daqui é melhor matar todos nós porque não vamos sair.
Agradeço a vinda de vocês aqui principalmente de você Anastácio e os demais parentes. Temos que montar uma estratégia para chegar comida para nós aqui, se não fosse vocês virem hoje já não teríamos mais comida para por na panela, nossa criança ia chorar de fome”.
Elizeu então toma a palavra e conta um pouco como foi que fizeram lá em Kurussu Amba, onde montaram a estratégia de rezar, o que amoleceu o coração dos juízes se a polícia chegava ou outras pessoas para falar com a gente então do meio do mato respondíamos que só falaríamos diante da FUNAI e do Ministério Público Federal (MPF), porque esse a gente conhecia e acreditava. Quero vir para cá para ajudar vocês.
Seu Nelson Cabreira conselheiro, representante do Conselho de Aty Guassu, disse: “Não temos nossa arma mbaraka, mimby e reza. Nós sabemos tudo contra a maldade. Aqui vocês têm que ter um kacike rezando direto para afastar a maldade e trazer muita gente para cá, de coragem, para as lutas. Só a reza mesmo tem que estar a caráter com o corpo pintado, com flecha, com arco, mbaraka e mostrar quem nós somos.
Companheiros, eu vim até aqui com o propósito de trazer nossa solidariedade, mas também para levar noticias de como realmente vocês estão. Isso só foi possível porque nossos aliados nos trouxeram até a estrada. Estou aqui para ajudá-los, pois a luta pela reconquista do território é muito difícil e vale sangue, lágrimas; mas não pode desanimar nem se enfraquecer, pois o maior inimigo do povo é o desânimo Nós temos que estar sempre animados e com sorriso no rosto, para enfrentarmos os problemas e resolvê-los na medida do possível. Não devemos ter medo.
Ao sair daqui vamos buscar meios para que os alimentos cheguem até vocês e que possamos encontrar transporte para voltarmos mais vezes. Encerramos a reunião para apreciar um delicioso almoço que foi preparado num fogão de lenha, junto com todos os membros daquela comunidade.
As horas passaram rápidas e quando o sol já se escondia no entardecer fomos novamente acompanhados por aqueles bravos guerreiros que nos guiaram pelo caminho até a cidade. Neste percurso de volta nos acompanharam quatro homens e quatro mulheres. No meio do caminho encontramos um grupo de guerreiros que retornavam para ajudar na luta de reconquistar seus direitos. Conversamos um pouco e cada grupo seguiu seu destino Eu voltei sentido em meu corpo a fadiga, o cansaço; porém, na alma a alegria de ter encontrado meus parentes, de ter cumprido com a missão de ir e levar ânimo aos que estão em situação difícil. Sou feliz hoje por ter encontrado eles animados mesmo diante de uma política de despejo; de encontrá-los firmes no propósito de ficarem até o dia em que a justiça brasileira lhes devolva o que é deles por direito: a TERRA SAGRADA (yvy maranẽ’ỹ).
Dourados, novembro de 2010.
Nota: ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para: AditalCaixa Postal 131 – CEP 60.001-970 – Fortaleza – Ceará – Brasil

Terra sem males

Yvy maranẽ’ỹ (terra sagrada)
Texto: Anastacio Peralta Kaiowá Guarani * (Adital/ CNPI)
          A terra para nós Guarani e Kaiowá é o suporte que sustenta tudo que está na natureza, principalmente a mata. Ela cobre a terra como se fosse nossa pele e dessa forma deixa-a fértil gerando vida para todos que respiram e acreditam nela.
A terra para nós é a mãe, o mato é nosso pai e através deles é que fomos gerados. A água que corre na terra é como se fosse nosso sangue que corre pelo nosso corpo através de nossas veias. No entanto ele corre e evapora no ar se transformando em nuvens as quais se transformam em chuva a qual volta a cair na terra para regar a vida alegrar as plantas fecundar e faz germinar as sementes para dar continuidade a vida de todos os seres vivos.Ela é o local sagrado onde buscamos nosso sustento, desde o remédio, frutas, peixes e animais de caça para se alimentar, matéria prima para fazer a casa, lenha para fazer fogo e cozinhar os alimentos. Tudo isso fazia parte da nossa vida. Vivíamos sem ter que sermos dependentes de políticas emergenciais Vivíamos caminhando por todo o território e éramos felizes.
          Mas com a chegada dos não índios os quais chamamos de branco (karaí), a mais de 500 anos eles vêm nos matando aos poucos, destruindo nossa fonte de vida destruindo nossa mãe. Para isso usam armas nos ferem com balas, políticas antiindígenas, preconceitos e descriminação pelos nossos direitos.
          Tiraram o que é de mais importante para nós, a terra, a mata, os rios estão todos poluídos, dessa forma já não nos dá nosso sustento como peixe não temos mais água limpa para beber como era no passado. Hoje vivemos presos em áreas demarcadas pelo governo nas quais não é possível preservar nossos hábitos alimentares e nem nossos costumes, tradições e religiosidade. Vivemos presos em locais em que não temos espaço para conviver em harmonia.
          Por isso, nós, índios Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul, estamos pedindo socorro para os nossos aliados internacionais e autoridades competentes, para que façam justiça. Não podemos morrer como animais por que temos língua própria, reza, dança pintura, artes, nosso conhecimento e sabedoria para dar continuidade ao planeta por que nós somos admiradores da beleza que Deus fez. Por isso nós somos yvy poty, flor da terra. Os poderosos mataram duas dessas flores, Rolindo e Jenivaldo Vera, mas essas flores espalharam antes as suas sementes sobre a terra, das quais podem brotar outras flores, perfumando e dando vida à natureza, Imbaretevéva ojuka mokõi yvoty, Rolindo há Jenivaldo Vera, ha’e kuéra katu omosarambi ha’yi omanõ mboyve. Upéagui osêta há hokýta hetã yvoty pyahurã omohyakuá ha omoingove haguã ko ñande yvy.

Dourados, 2 de novembro de 2010

********
Leia também:
No caminho da saudade
(Egon Heck)
Deixa a saudade me levar
Levo no coração a lembrança
E a revolta contida
De quem aprendeu amar
O que foi e o que virá!
Pois o presente é um mar
De destruição
Que só a saudade e a luta
Podem curar!
          “Esse é um dos pés de eucalipto que eu plantei…; aqui morava o Paraíba…; aqui era mata fechada…; lá era um grande cafezal…; ali era nossa casa”, a voz da saudade Kaiowá é também uma forte denuncia. A narrativa pausada e entrecortada das lembranças da vida livre, não invadida, da mata em pé, da riqueza da floresta, da qual resta apenas a lembrança. Hoje, no caminho velho entre Nova America e a Terra Indígena Caarapó, é tudo virado em fazenda e lavoura de soja e a cana chegando. E tudo isso ao alcance da memória, um pouco mais de quatro décadas. Imaginar que em poucos anos, onde ainda era de 50 a 70% de mata, nesta região do cone sul do Estado de Mato Grosso do Sul (à época, ainda Mato Grosso), foi reduzido a menos de 10% e hoje em algumas regiões a mata nativa não chega a 2%. Não é difícil entender a dor da saudade de um velho Kaiowá dessa região. Primeiro chegaram os nordestinos. Fizeram algum estrago, derrubando mata, fazendo pastagem, plantando café… Depois, já na década de setenta chegaram os gaúchos. Foram arrendando pequenos sítios, em seguida foram comprando as terras, derrubando tudo com os enormes tratores…
          E assim ele foi lembrando como tudo aconteceu, como a mata veio abaixo e foi se semeando boi, soja e cana por essa região.
O intercambio e o futuro
          Um momento muito alegre, descontraído e curioso. Para os quinze Kaiowá Guarani, estudantes e lideranças da aldeia de Panambizinho, esse foi um importante tempo de refletir e conhecer as experiências e iniciativas que estão se realizando na aldeia Tey Kuê. Depois de umas conversas inciais sobre a realidade e luta Guarani hoje, especialmente a questão da terra, foi o momento de visitar as experiências e projetos.
Iniciamos nosso caminho de intercambio na oga pysy – casa de reza. O professor Ariel foi explicando o sentido e importância da iniciativa de construir esse espaço para propiciar aos alunos um contato com o que eles tem de mais profundo e sagrado, que é sua espiritualidade, seus rituais e rezas. Duas vezes por semana os nhanderu e nhandesi – rezadores estão nesse espaço com alunos para com eles vivenciar e transmitir os conhecimentos tradicionais e seus rituais.
          Depois fomos para o Ponto de Cultura. Essa foi a primeira aldeia Guarani a ser contemplada com essa experiência de inclusão digital. Uma bem aparelhada sala de informática permite os alunos a produção de audiovisuais, edição de vídeos, e manutenção de um site próprio – o www.tekoarandu.org – Falando com Devanildo, o Kaiowá responsável local do ponto de cultura, ele me consultou sobre a possibilidade de colocar um link no sitio da www.campanhaguarani.org.br , para que pudessem dar acesso a transmissões on line, de eventos da comunidade. Fiquei admirado com avançado aproveitamento tecnológico, como novo canal e instrumento de luta, na área da comunicação.
          Depois foi a vez de visitar o viveiro de mudas. Ali eles têm mais de 15mil mudas de 25 espécies de arvores nativas, além de mudas de eucalipto, com utilização em áreas restritas, para obtenção de madeira para construção das casas e para lenha. É um projeto que já funciona há 15 anos e tem como finalidade primeira o reflorestamento de nascentes e margens dos córregos que passam pela aldeia. Mas também servirão para intercambio e fornecimento de mudas para outras aldeias da região.
          Recolhendo sementes nativas, colocando-as em aconchegantes ninhos, para com muito carinho fazer a mata voltar. Esse é o sonho que vai se espalhando no chão Guarani. Pois como dizia Anastácio, em recente escrito, “Tiraram o que é de mais importante para nós, a terra, a mata, os rios estão todos poluídos, dessa forma já não nos dá nosso sustento como peixe não temos mais água limpa para beber como era no passado. Hoje vivemos presos em áreas demarcadas pelo governo nas quais não é possível preservar nossos hábitos alimentares e nem nossos costumes, tradições e religiosidade. Vivemos presos em locais em que não temos espaço para conviver em harmonia” (Terra Sagrada).
          Por último fomos ver a estação experimental. Lá estava o orientador Kaiowá Guarani com duas dezenas de crianças prontas para entrar em campo. Os meninos com enxadas na mão, e as meninas com os regadores. Rostos alegres e brincalhões, logo entraram em ação. As hortaliças lhes sorriam absorvendo ávidas a água no em meio ao grande calor. E os pés de amendoim recebiam bons bocados de terra, com os quais se sentiam fortalecidos. Olhamos ainda o pomar com grande variedade de árvores frutíferas. Tudo muito bonito para ser apreciado, para alem do mar de discriminação e violência em que as comunidades Guarani Kaiowá estão imersas. Saímos com os olhos e coração agradecidos, prontos para plantar toda essa esperança no Panambizinho.
Povo Guarani Grande Povo
Dourados, 5 de novembro de 2010.
Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para:
Caixa Postal 131 – CEP 60.001-970 – Fortaleza – Ceará – Brasil