Da Ancestralidade: as primeiras lições

Ilustração de Carmen Barbi, no meu livro “Flor da mata”, 2014, p.11. Foto: G.Graúna
Trilhas ancestrais


Aprendi com os meus pais
a trilhar desde cedo 
à luz da Ancestralidade

Mergulhei pelos caminhos
ainda na barriga da minha mãe
e à medida que a intuição
foi chegando
aprendi a ler o tempo
nas tranças da minha avó

A Ancestralidade nos une


Graça Graúna
(Indígena, povo potiguara/RN)

Palavra de mulher indígena

A (re)leitura vinda da oralidade e transfigurada na escrita se transforma no exercício de escreviver, no sentido de que estão vivas (em mim) a poesia, a história e a memória dos antigos. Expor essa experiência e preservá-la em forma de relato significa também resiliência, que é uma das maneiras de fortalecer a nossa resistência, a nossa identidade indígena. Negar essa resistência configura uma afronta, como diria Jerome Rothenberg, no livro “Etnopoesia do milênio” (2000).

Continuo aprendendo a ser o que sou, desse jeito. O nosso saber não é de agora. Não somos um povo desgovernado e nem atravancamos o progresso. Somos guerreiras da Ancestralidade. Mesmo assim, ainda paira sobre nós um olhar preconceituoso; um olhar sobre o exótico, o folclórico, menos para o ser pensante e ativista que somos, o ser que intui desde sempre que o nosso papel também é fazer Arte; a começar pela arte de pensar, de refletir que a Terra não nos pertence; nós indígenas pertencemos a ela, à nossa Mãe Terra.

Retratos

                            Graça Graúna
                           (indígena do povp ptiguara/rn)

Saúdo as minhas irmãs
de suor papel e tinta 
fiandeiras
guardiãs
ao tecer o embalo
da rede rubra ou lilás
no mar da palavra
escrita o voraz

Saúdo as minhas irmãs
de suor papel e tinta 
fiandeiras
tecelãs 
retratos do que sonhamos
retratos do de que plantamos
no tempo em que a nossa voz
era só silêncio

Literatura e resistência: o sertão vai virar arte!

O sertão vai virar mar… Esse desafio foi originado por Antonio Conselheiro, um profeta. Seu pensamento inundou o sertão e se instalou no mundo das artes, como sugere o tema da Ficlan – Feira Literária Internacional de Canudos. Em sua 4ª edição, no período de 13 a 16 de setembro de 2023, a Flican traz a seguinte participação indígena:

Dia 13/09 – Quarta-Feira

14h00 às16h00

Mesa 2: “Escrevivência” e Resistência dos Povos Originários no Sertão da Bahia

Prof. Ângelo Kaimbé – UNEAD

Profª. Graça Graúna (Povo potiguara/RN) – UPE

Cacique Juvenal Payayá – Aldeia de Utinga

Profª Telma Cruz – UNEB (Mediadora)

Local: Auditório José Calasans