Das palavras e seus silêncios

Ilustração: Fabiano Sobreira

Das palavras e seus silêncios
Graça Graúna
Falta pouco para fecharmos mais um ciclo do tempo em nossas vidas. Isto significa que devemos estar atentos a mais um rito de passagem para o novo.
Por onde começar? Para onde ir? Por que e para que refletir sobre os tantos caminhos que haveremos de percorrer? O que virá? Que escolha fazer: o caminho do diálogo ou o seu oposto? Dizer não à intolerância, ao machismo, ao preconceito e a outras formas de violência é uma maneira de colocar-se a serviço da humanidade.
Falta pouco para fecharmos mais um ciclo do tempo em nossas vidas.
Um caminho possível para intuir o que virá reside no desafio que é amar o outro; diga-se de passagem, uma travessia difícil, pois à medida que não respeitamos as diferenças, aguçamos em nós a falta de fé no outro.  Nesta perspectiva, tomo a liberdade de compartilhar as palavras e os seus silêncios que alimentam as dezenas de entrevistas que o jornalista Lauro Henriques Jr. realizou para compor o livro: Palavras de poder (Editora Leya, São Paulo, 2011, volume Brasil). Dessa obra, entre os entrevistados, sublinho as palavras de Pedro Casaldáliga (pp. 131-143).
A propósito do poder que tem as palavras, o bispo da terra sem males enfatiza: “É preciso colocar a fé e a esperança em nome da solidariedade. Crer que uma nova vida é possível é o primeiro passo para que ela se realize” (p. 132). Ao refletir sobre o papel da fé na construção da humanidade, Casaldáliga ressalta que o diálogo entre os diferentes credos não deve limitar-se ao aspecto religioso, considerando que, juntas, as religiões ampliem as perspectivas de atender “aos desafios da atualidade: a fome, o armamentismo, a intolerância, o machismo, a depredação ecológica”(p. 134). No eixo dessa comunicação, Casaldáliga adverte que as pessoas não precisam renunciar a crença, a etnia para reconhecer-se cidadão ou cidadã do mundo. Em outras palavras, ele acrescenta: “só quem vive a sua identidade de modo sereno, adulto, é capaz de dialogar. […] Se não criarmos uma cultura de paz a partir do próprio coração, não tem saída” (p.134).
Casaldáliga fala dos sinais de esperança que se manifestam, por exemplo, na solidariedade entre os diferentes povos; solidariedade que se transforma em bandeira de paz ou como ele sugere à luz da poesia da nicaraguense Gioconda Belli: “a solidariedade é a ternura dos povos” (p. 135).
Da relação entre religião e política, ele observa que na maioria dos países a separação entre Igreja e Estado é positiva; para que essa relação se concretize é necessário que as pessoas “saibam conjugar a sua fé com a sua cidadania e, motivados por essa fé, sejam mais éticos e mais comprometidos com o próximo” (p.135). Ainda sobre esse exercício de cidadania, Casaldáliga menciona o espetáculo que foi a “Missa da terra sem males”, na década de 1970, em defesa da causa indígena. A missa contou com a parceria de Milton Nascimento (cantor)  e Pedro Tierra (poeta). Na mesma época, Dom Casaldáliga celebrou a Missa dos Quilombos em defesa da causa negra.
Quanto ao papel da arte, da poesia em nossas vidas, Casaldáliga cita Santo Agostinho: “cantar é rezar suas vezes” e orienta que: “falar poeticamente é comunicar-se com a boca e com os olhos, enviando um pouco da própria alma em cada palavra que se diz” (p.136).
Eu passaria aqui, horas e horas sublinhando as boas palavras do bispo de Araguaia, mas prefiro deixar esta leitura em aberto a fim de que outros(as) leitores(as) intuam sobre o desafio que é “a convivência no respeito, no estímulo, no carinho” (p.139); ou sobre a utopia de que trata Casaldáliga à luz do pensamento de Eduardo Galeano: “a utopia é como um horizonte: a gente não alcança nunca, mas, graças a ela, continuamos caminhando” (p.141).
Porque falta pouco para fechar mais um rito de passagem em nossas vidas, reitero a importância de repensar acerca do nosso lugar no mundo, sem medo de enfrenta-lo e sobre os nossos desejos de tornar o mundo melhor.

Nordeste do Brasil, 25 de dezembro de 2016
Graça Graúna

No Projeto Brasis uma Canção Peregrina

Em junho de 2016, a convite da pesquisadora  Mayra Fonseca, participei do Projeto Brasis, quando abordei junto a outros mestres da Cultura Brasileira o tema “Outras narrativas: a literatura como plataforma para compartilhar outros modelos de pensamento e aproximar mundos”. Participar do Projeto Brasis foi e continua sendo uma das ações mais importantes da minha vida de cidadã, mulher indígena, educadora, escritora. Minha gratidão a Mayra Fonseca e a todos pelo presente maravilhoso em forma de vídeo e exposição sobre o meu poema “Canção peregrina”. Que Ñanderu, Deus, Tupã e todos os Orixás acolham a todos(as) na tessitura de muitas histórias e diferentes etnias.
Saudações indígenas,
 
Graça Graúna
 
Obs.: na sequência, o e-mail que recebi da amiga e pesquisadora Mayra Fonseca
****

Graúna, minha querida.

Como você está?

Por aqui, muito trabalho e bastante correria. Como parte do trajeto da residência Os Brasis em São Paulo, vamos abrir a exposição no Red Bull Station no dia 22 de novembro: sinta-se convidada e faço questão de que convide quem achar adequado.

Mas, agora, te escrevo para compartilhar em primeira mão uma decisão. A tua fala nos tocou e nos despertou muito no dia de abertura do festival. Todos ficamos emocionados e nos sentimos chamados pela canção peregrina. 

Por isso, decidimos, como você tinha me autorizado, usar o texto do poema como insumo para duas obras como agradecimento e homenagem a você e todos os nosso povos indígenas:
_ este vídeo, declamado por muitos de nós no festival, é o primeiro chamado para a exposição e para que a cidade de São Paulo perceba todos os povos que a habitam
_ na exposição, teremos uma parede que também fará referência ao poema: vamos instalar uma grande corda azul caindo do texto em vasos com contas e miçangas, vamos um convidar os visitantes a preencher o fio com as contas e miçangas, tecendo um colar. Na parede, estará escrito: “eu tenho um colar de muitas histórias e diferentes etnias“. 

Tanto aqui no vídeo como na parede, faremos referência a você como a autora. Fique à vontade para divulgar essa peça como achar melhor e para usá-la em qualquer situação que achar adequado, ela é tua. 

Um grande beijo.

Saudações indígenas.

Mayra

 

Escritos indígenas: uma antologia

Foto da capa: tela de Uziel Guaynê.
O mercado editorial brasileiro traz ao público mais uma obra de autoria indígena. Trata-se da antologia Escritos indígenas, publicada no formato e-book, pela Editora Cintra, São Paulo, em 2013.
Da antologia participam dez escritores: Aldair Marauáh, Giselda Jerá, Graça Graúna, Guaynê Maraguá, Jaime Diakara,  Lia Minápoty, Nilson Karaí, Olívio Jekupê, Roní Wasiry Guará, Tiago Hakiy,  e Yaguarê Yamã. Desse grupo, alguns premiados (…) “outros mais recentes, mas todos de inegável qualidade literária, por isso todos reunidos nesta antologia que esperamos que encante os leitores das cidades no conhecimento dessa parte do universo até aqui tão pouco difundida, nos relatos, nos saberes ancestrais tão atuais, no ser universal”, afirma a editora Leda Cintra (2013). Ela enfatiza que  reunidos nessa  antologia estão  alguns dos mais representativos escritores indígenas contemporâneos do Brasil”.
Para saber mais, acesse:
Telefone:  (11) 3731 7575,