Kuá, a explosão feminina!

…a mesma história, sim,
de sangrar todo mês
de chegar na farmácia
e pedir um tampão pra calar o mugido.
Se isto te aborrece,
paciência!
Quem disse que se mede uma dor,
se é maior ou pequena?Trago sede de viver
apesar da exclusão
e de sangrar por dentro.
Se isto te enfurece,
paciência!
Custa entender
que Deus também veste saia
e conversa comigo?

Graça Graúna, (indígena potiguara/RN), 3 de maio de 2009.

Nota: era aproximadamente 15 horas, quando acabei de parir mais um poema. Ademario Ribeiro, mesmo longe, ajudou na hora da “pensação” (como ele diz) na feitura do nome do rebento. Ele sugeriu kuá (em tupi, significa: fenda, luz, mundo, buraco, vida no universo…); tudo a ver com a fertilidade vermelha que sai do buraco feminino que enche de vida e dá “luz” para o mundo. A imagem de Frida foi uma sugestação de Agnes, minha filha. E o nome do poema ficou assim: Kuá, a explosão feminina!

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Nota: poema publicado no Overmundo.

Estações

Imagem : Graça Graúna
…para Fabiano, Ana e Agnes (meus filhos)

Primavera.
A menina vê um beija-flor na janela
e faz de conta que é o amor chegando

Verão.
A menina vê a praia na janela
e se pergunta: pra onde vai essa onda agora?

Outono.
A menina vê o vento soprando a folha
e se inquieta: será que a folha volta?

Inverno.
A menina vê a chuva na janela
e diz: é Deus chorando

Graça Graúna (indígena potiguara/RN) 26.abr.2009

Nota: poema publicado no Overmundo.

Porantinando*

Criança Saterê
Foto: Jonne Roriz/AE

Remo
Arma
Memória

Sei dos segredos
dos pesadelos

da solidão
dos anseios

do pranto
das matas

dos rituais
das eras

dos mares
das lutas

das curas
das ervas

trago sementes do céu
cultivo os caminhos
conheço o cheiro da terra
mergulho nos sonhos

porantinando a esperança
pelo rio afora
sou arma, remo e memória

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

(*) No idioma Saterê Mawé, porantim significa remo, arma e memória. O povo Saterê (originário do tronco Tupi) habita na área indígena Andirá-Maráw (delimitada pela Funai) entre o Amazonas e o Pará.

Graça Graúna. Tessituras da terra. 2. ed. Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2001, p. 26-27.

Nota:poema publicado no Overmundo com 176 votos.