Reverso do cárcere

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para Osman Lins
Na alta madrugada
o coro entoava
estamos todos aqui
no ofício de ser
criador
criatura
traçando, tecendo
das circunstâncias
vertentes.
Assim, torno a ver
no reverso do cárcere
o lado negro e cru
do ofício de escreverGraça Graúna. Tessituras da terra. Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2001, p.36.

Nota: poema publicado no Overmundo.

Estações

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O terraço da casa da velha senhora
parecia uma estação de primavera.
Faz tanto tempo…!Cadeiras de balanço
barcos de papel, velocípedes
jarros de cacto e jasmins
encantos aos pares:
quantos sóis, quantas luas
e um punhado de estrelas.
Coisas da vida
que iluminam a alma
para manter o equilíbrio do planeta.

“…tempo de verão fazia poeira…”
os sonhos se multiplicaram
e o flamboiã ganhou tamanho
igual ao pé de feijão
(quase tocando o céu)
em meio a uma infinda
ciranda de fantasias.

Brotava uma luz
no rosto da velha senhora.
Agora,
as folhas de outono
cobrem o terraço de silêncio.

Graça Graúna. Estações. In: Terra Latina: antologia internacional. Curitiba/PR: Editora Zeni Leal /Abrali, 2005, p.124.