Terra à vi$ta

Tempo de um cocar, de Gilberto Salvador – 1988.

Perdidos no perdido
os filhos da terra

sem barco
sem arco
sem lança
sem onça
sem terra.

Jogados no mundo
os filhos da terra.

Só o silêncio dos deuses
pelos (des)caminhos.

GRÇA GRAÚNA (indígena potiguara/RN), abril indígena, 2009
Graça Graúna. Canto mestizo. Maricá/RJ: Blocos Editora, 1999, p.50 [prefácio de Leila Miccolis].

Nota: poema publicado no Overmundo com 197 votos.

Aguata py’ýi (Acelerar os passos)*

Imagem: Onnil, 2005

…e se mil línguas eu também tivesse
levaria teu sonho entre as estrelas
e lá no centro da terra
eu diria: salve negríndio Ademario!Assim deve ser, assim será
a cada brilho da noite
a cada chama do dia
bem digo a Ñanderu
Nosso Pai verdadeiro:
recebe meu Pai a alquimia da palavra
dos filhos e filhas da terra
recebe nossa alegria e os nossos sonhos
recebe também nossos desencantos
porque somos tua herança
assim também ressurgidos
mas não somos um, nem cem, nem mil
somos infinitamente filhos da resistência
somos parte do teu ser
Potiguara, Guarani,
Tukano, Xavante,
Sateré, Nambikuara,
Pataxó, Truká,
Terena, Munduruku,
Payaya, Fulni-ô
Xukuru, Tupi,
Yanomami….yanomami….
todos os povos
todas as nações
somos todos
do abaeté da lagoa do Senhor do Bomfim
das ladeiras de Olinda do canavial
da serra do vento da serra do mar
de Norte a Sul
de Leste a Oeste
do Oiapoque ao Chui
somos teus somos nossos
e como diria Ademario
vamos todos assim
– Aguata py’ýi!
“Acelerar os passos!”
– Aguata py’ýi!
“Acelerar os passos!”
– Aguata py’ýi!
“Acelerar os passos!”

Graça Graúna (indígena potiguara/RN), abril indígena 2009

(*)Aguata py’ýi (em guarani: acelerar os passos)
Nota: poema publicado no Overmundo com 111 votos.

Poéticas indígenas – Sarau

Foto: Dede Fredizzi. Modelo: Alikrim Pataxó
          Todo dia é dia de poesia. Com este espírito, o dia 19 de abril foi escolhido pela antropóloga e escritora Deborah Goldemberg, para marcar o I Sarau das Poéticas Indígenas. A idéia, segundo Goldemberg, é reunir escritores(as) indígenas e de outras origens, cuja obra tenha inspiração indígena de alguma região do Brasil. Em outras palavras, nesse I Sarau “não cabe apenas uma única poética, a ocidental […], mas a diversidade que vive nos cânticos, na história oral, no ritual indígena, tendo em comum a inventividade e o encantamento com a palavra e suas possibilidades. Essa reunião de poetas e poéticas pretende dar projeção e ânimo a este ainda singelo movimento intercultural e literário que é o da literatura indígena” afirma a idealizadora do sarau.A programação contempla as regiões Norte, Nordeste, Sul e Sudeste, com escritores(as) indígenas e simpatizantes da causa indígena no país.
          A respeito dos mitos e lendas da Região Norte, consta a apresentação do antropólogo Pedro Cesarino sobre os índios Marubo; apresentação dos índios Eurico Baniwa e Juju Murá, de São Paulo, que abordam a cultura baniwa e murá; declamação do poema “O Guesa errante”, de Sousândrade e do poema “Cobra Norato”, de Raul Bopp. A declamação está a cargo de Tatiana Fraga. Leitura da lenda das Incamiabas – guerreiras do Amazonas, em Ressurgência, livro de Deborah Goldenberg.
          Da Região Nordeste, cabe destacar: a apresentação dos índios Pataxó do Sul da Bahia Manoel Santana e Zé Fragoso; do líder indígena Bino Pankararu (PE), que vive em Real Parque, em São Paulo. Leitura da Escritora Eliane Potiguara (RJ), autora de Metade cara, metade máscara. Leitura de poemas e apresentação do vídeo “Canção peregrina” da escritora Graça Graúna (descendente potiguara, RN), radicada em Pernambuco.
          Da Região Sul e Sudeste consta: a apresentação dos índios Guarani Nhandeva, com a índia Poty Porã e o índio William Macena. Leitura do escritor indígena Olivio Jekupe, da Aldeia Krukutu (Parelheiro, em São Paulo). Declamação Nicole Cristófalo em torno dos textos poéticos do escritor José de Alencar e do poeta Gonçalves Dias. Declamação de João Pedro Ribeiro (descendente Kaingang), que relembra o modernismo brasileiro, em parceria com os poetas maloqueiristas Caco Pontes e Berimba de Jesus. Leitura do escritor Douglas Diegues, de Assunción, autor de uma coletânea de poemas Guarani M’Bya. Leitura de Pedro Tostes, poeta do movimento paulistano de “Poesia Maloqueirista. A declamação do indígena Emerson de Oliveira Souza (guarani nhandeva, residente em São Paulo) que traz a leitura de um texto do Pajé Florêncio Portillo, de 1993.
          O programa Entrelinhas, da TV Cultura, dedicado à literatura, irá também fazer a cobertura do evento. O sarau acontecerá na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura – considerado um local de celebração da poesia, da literatura e da arte em geral e que serve de cenário para a efervescência da vida cultural.
Nota: o modelo do cartaz, Alikrim Pataxó, vive na Aldeia Olho do Boi, Caraíva, Bahia.
Onde fica: Casa das RosasAv. paulista, 37, São Paulo – SP
Quando ir:19/4/2009, às 20:00h

Graça Graúna (indígena potiguara/RN) 9.abr.2009

Nota: artigo publicado no Overmundo com 169 votos