Estações

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O terraço da casa da velha senhora
parecia uma estação de primavera.
Faz tanto tempo…!Cadeiras de balanço
barcos de papel, velocípedes
jarros de cacto e jasmins
encantos aos pares:
quantos sóis, quantas luas
e um punhado de estrelas.
Coisas da vida
que iluminam a alma
para manter o equilíbrio do planeta.

“…tempo de verão fazia poeira…”
os sonhos se multiplicaram
e o flamboiã ganhou tamanho
igual ao pé de feijão
(quase tocando o céu)
em meio a uma infinda
ciranda de fantasias.

Brotava uma luz
no rosto da velha senhora.
Agora,
as folhas de outono
cobrem o terraço de silêncio.

Graça Graúna. Estações. In: Terra Latina: antologia internacional. Curitiba/PR: Editora Zeni Leal /Abrali, 2005, p.124.

Mercedes Sosa: voz da América sonhada

“…todo sangue pode ser canção no vento”
ela Me veio numa canção
ofErecendo a todos
o seu coRação. Na sua voz o Brasil,
Peru, Chile, Argentina, Bolívia
porquE o seu canto
é Da América sonhada
E para sempre
Será
a canção de todoS
a cançãO com todos
Mercedes Sosa, grande pássaro
da América Latina

          Descendente dos índios diaguitas e de franceses, Aydée Mercedes Sosa veio ao mundo no dia 9 de julho de 1935, em Tucumán, província do norte argentino. Diz o Jornal “A Nova Democracia”, que ela cresceu num lar humilde e aprendeu a amar as expressões artísticas populares da sua terra; desde cedo, ela começou a trabalhar como professora de dança e cantos nativos. Para Mercedes Sosa, voz da América sonhada, esta minha pequena homenagem pelo dia do seu aniversário. O seu cantar representa também a nossa identidade, a nossa ânsia de liberdade, justiça, direitos para o povo e esperança na América Latina.Graça Graúna, Nordeste do Brasil, 1 de julho de 2009.

Santificado nome gravado nos girassóis

Girassóis, de Vincent Van Gogh
Pai-nosso que estais no céu, e sois nossa Mãe na Terra, amorosa orgia trinitária, criador da aurora boreal e dos olhos enamorados que enternecem o coração, Senhor avesso ao moralismo desvirtuado e guia da trilha peregrina das formigas do meu jardim,
Santificado seja o vosso nome gravado nos girassóis de imensos olhos de ouro, no enlaço do abraço e no sorriso cúmplice, nas partículas elementares e na candura da avó ao servir sopa,
Venha a nós o vosso Reino para saciar-nos a fome de beleza e semear partilha onde há acúmulo, alegria onde irrompeu a dor, gosto de festa onde campeia desolação,
Seja feita a vossa vontade nas sendas desgovernadas de nossos passos, nos rios profundos de nossas intuições, no voo suave das garças e no beijo voraz dos amantes, na respiração ofegante dos aflitos e na fúria dos ventos subvertidos em furacões,
Assim na Terra como no céu, e também no âmago da matéria escura e na garganta abissal dos buracos negros, no grito inaudível da mulher aguilhoada e no próximo encarado como dessemelhante, nos arsenais da hipocrisia e nos cárceres que congelam vidas.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje, e também o vinho inebriante da mística alucinada, a coragem de dizer não ao próprio ego, o domínio vagabundo do tempo, o cuidado dos deserdados e o destemor dos profetas,
Perdoai as nossas ofensas e dívidas, a altivez da razão e a acidez da língua, a cobiça desmesurada e a máscara a encobrir-nos a identidade, a indiferença ofensiva e a reverencial bajulação, a cegueira perante o horizonte despido de futuro e a inércia que nos impede fazê-lo melhor,
Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e aos nossos devedores, aos que nos esgarçam o orgulho e imprimem inveja em nossa tristeza de não possuir o bem alheio, e a quem, alheio à nossa suposta importância, fecha-se à inconveniente intromissão,
E não nos deixeis cair em tentação frente ao porte suntuoso dos tigres de nossas cavernas interiores, às serpentes atentas às nossas indecisões, aos abutres predadores da ética,
Mas livrai-nos do mal, do desalento, da desesperança, do ego inflado e da vanglória insensata, da dessolidariedade e da flacidez do caráter, da noite desenluada de sonhos e da obesidade de convicções inconsúteis,
Amemos.
Texto/Oração de Frei Betto – autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira”, Editora Rocco.