2019: ano internacional das Línguas Indígenas

Fonte: Servindi: Rede de Comunicação Intercultural
          Servindi, 29 de diciembre, 2018.- Con la finalidad de sensibilizar a la sociedad sobre la contribución de las lenguas a la diversidad cultural en el mundo, la Organización de las Naciones Unidas [1] (ONU), declaró el 2019 como el Año Internacional de las Lenguas Indígenas [2]. La decisión surge como respuesta a la desaparición de las lenguas en todo el mundo “a un ritmo alarmante”. Las lenguas indígenas, de acuerdo con la ONU, se desempeñan, entre otras cosas, como instrumentos de depositario de identidad, historia cultural, tradiciones y la memoria únicas de cada persona. Asimismo, las lenguas indígenas son sistemas únicos de conocimiento y comprensión del mundo, facilitan el desarrollo sostenible, inversión, consolidación de la paz y reconciliación. Además, consolidan los derechos humanos fundamentales y las libertades de los pueblos indígenas. Las lenguas también promueven la inclusión social, alfabetización, reducción de la pobreza y la cooperación internacional, así como los valores culturales, diversidad y patrimonio. Cinco áreas clave Durante el Año Internacional de las Lenguas Indígenas, se promoverán las lenguas indígenas en cinco áreas clave, entre ellas el aumento de la comprensión, la reconciliación y la cooperación internacional y la creación de condiciones favorables para el intercambio de conocimientos y la difusión de las buenas prácticas. Del mismo modo, se promoverán la integración de las lenguas indígenas en el establecimiento de normas, el empoderamiento a través de la creación de capacidad y el crecimiento y desarrollo a través de la elaboración de nuevos conocimientos.
          Objetivos principales El Año Internacional de las Lenguas Indígenas enfocará su atención global en los riesgos críticos a los que se enfrentan las lenguas indígenas y su importancia para la reconciliación, la buena gobernanza y la consolidación de la paz. A través de ello se buscará mejorar la calidad de vida, reforzar el diálogo intercultural y reafirmar la continuidad cultural y lingüística.

Das palavras e seus silêncios

Ilustração: Fabiano Sobreira

Das palavras e seus silêncios
Graça Graúna
Falta pouco para fecharmos mais um ciclo do tempo em nossas vidas. Isto significa que devemos estar atentos a mais um rito de passagem para o novo.
Por onde começar? Para onde ir? Por que e para que refletir sobre os tantos caminhos que haveremos de percorrer? O que virá? Que escolha fazer: o caminho do diálogo ou o seu oposto? Dizer não à intolerância, ao machismo, ao preconceito e a outras formas de violência é uma maneira de colocar-se a serviço da humanidade.
Falta pouco para fecharmos mais um ciclo do tempo em nossas vidas.
Um caminho possível para intuir o que virá reside no desafio que é amar o outro; diga-se de passagem, uma travessia difícil, pois à medida que não respeitamos as diferenças, aguçamos em nós a falta de fé no outro.  Nesta perspectiva, tomo a liberdade de compartilhar as palavras e os seus silêncios que alimentam as dezenas de entrevistas que o jornalista Lauro Henriques Jr. realizou para compor o livro: Palavras de poder (Editora Leya, São Paulo, 2011, volume Brasil). Dessa obra, entre os entrevistados, sublinho as palavras de Pedro Casaldáliga (pp. 131-143).
A propósito do poder que tem as palavras, o bispo da terra sem males enfatiza: “É preciso colocar a fé e a esperança em nome da solidariedade. Crer que uma nova vida é possível é o primeiro passo para que ela se realize” (p. 132). Ao refletir sobre o papel da fé na construção da humanidade, Casaldáliga ressalta que o diálogo entre os diferentes credos não deve limitar-se ao aspecto religioso, considerando que, juntas, as religiões ampliem as perspectivas de atender “aos desafios da atualidade: a fome, o armamentismo, a intolerância, o machismo, a depredação ecológica”(p. 134). No eixo dessa comunicação, Casaldáliga adverte que as pessoas não precisam renunciar a crença, a etnia para reconhecer-se cidadão ou cidadã do mundo. Em outras palavras, ele acrescenta: “só quem vive a sua identidade de modo sereno, adulto, é capaz de dialogar. […] Se não criarmos uma cultura de paz a partir do próprio coração, não tem saída” (p.134).
Casaldáliga fala dos sinais de esperança que se manifestam, por exemplo, na solidariedade entre os diferentes povos; solidariedade que se transforma em bandeira de paz ou como ele sugere à luz da poesia da nicaraguense Gioconda Belli: “a solidariedade é a ternura dos povos” (p. 135).
Da relação entre religião e política, ele observa que na maioria dos países a separação entre Igreja e Estado é positiva; para que essa relação se concretize é necessário que as pessoas “saibam conjugar a sua fé com a sua cidadania e, motivados por essa fé, sejam mais éticos e mais comprometidos com o próximo” (p.135). Ainda sobre esse exercício de cidadania, Casaldáliga menciona o espetáculo que foi a “Missa da terra sem males”, na década de 1970, em defesa da causa indígena. A missa contou com a parceria de Milton Nascimento (cantor)  e Pedro Tierra (poeta). Na mesma época, Dom Casaldáliga celebrou a Missa dos Quilombos em defesa da causa negra.
Quanto ao papel da arte, da poesia em nossas vidas, Casaldáliga cita Santo Agostinho: “cantar é rezar suas vezes” e orienta que: “falar poeticamente é comunicar-se com a boca e com os olhos, enviando um pouco da própria alma em cada palavra que se diz” (p.136).
Eu passaria aqui, horas e horas sublinhando as boas palavras do bispo de Araguaia, mas prefiro deixar esta leitura em aberto a fim de que outros(as) leitores(as) intuam sobre o desafio que é “a convivência no respeito, no estímulo, no carinho” (p.139); ou sobre a utopia de que trata Casaldáliga à luz do pensamento de Eduardo Galeano: “a utopia é como um horizonte: a gente não alcança nunca, mas, graças a ela, continuamos caminhando” (p.141).
Porque falta pouco para fechar mais um rito de passagem em nossas vidas, reitero a importância de repensar acerca do nosso lugar no mundo, sem medo de enfrenta-lo e sobre os nossos desejos de tornar o mundo melhor.

Nordeste do Brasil, 25 de dezembro de 2016
Graça Graúna

América Latina de luto: morreu o escritor Eduardo Galeano

Em Abril de 2009, na primeira visita do recém-eleito Barack Obama à América Latina, o Presidente venezuelano Hugo Chávez ofereceu-lhe um livro, As Veias Abertas da América Latina. Era o primeiro encontro dos dois, não agendado: Chávez esperou o momento em que as câmaras fotografavam e filmavam os 13 líderes da Cimeira das Américas diplomaticamente sorridentes, levantou-se sem cerimónia, dirigiu-se até ao lugar de Obama, no topo da mesa, e presenteou-o com o livro.
O episódio está no YouTube: os dois apertam a mão, Obama olha para o livro, não muito seguro do que acabou de acontecer, e sorri. Questionado pelos jornalistas mais tarde, o Presidente americano foi anedótico: “Pensei que era um dos livros de Chávez. Estava a pensar dar-lhe um dos meus.”
Foi um acto desafiador do populista Hugo Chávez, sob a forma de cortesia. O livro oferecido é um libelo anti-colonialista, anti-capitalista e anti-americano que faz parte do cânone da literatura latino-americana dos últimos 40 anos. Chávez chamou-lhe, na altura, “um monumento na nossa história latino-americana”. Mas não era um dos seus livros. O autor? Eduardo Galeano.
O escritor uruguaio morreu na manhã desta segunda-feira, aos 74 anos, em Montevideu. Segundo o jornal El País, na sexta-feira Galeano tinha sido hospitalizado em resultado de complicações relacionadas com um cancro pulmonar, pelo qual já tinha recebido tratamento em 2007.
Galeano publicou As Veias Abertas da América Latina em 1971, quando tinha 31 anos. O livro, que foi publicado em Portugal em 1998 (ed. Dinossauro), é uma análise da história da América Latina, da colonização europeia à contemporaneidade, sob o ponto de vista da sua dominação e exploração por potências exteriores – europeias e norte-americanas. Nele, Galeano argumenta que os recursos que começaram por atrair os colonizadores europeus, como o ouro e o açúcar, conduziram a um sistema de exploração que persiste na actualidade e é responsável pela pobreza e pelo subdesenvolvimento na América Latina.
O livro converteu-se numa bíblia da esquerda latino-americana, tendo sido proibido no Uruguai, Argentina, Chile e Brasil nas décadas de 1970 e 1980, quando esses países eram governados por ditaduras militares apoiadas pelos Estados Unidos. Isso não impediu o livro de se tornar popular no continente. Especialista em História da América Latina, William Hamilton, da Universidade da Carolina do Norte, notou em 2009 ao Washington Times que “ler Galeano é um rito de passagem para qualquer jovem na América Latina, ano após ano.” “Durante as ditaduras militares dos anos 1970 e 80, os seus livros eram proibidos nas escolas mas eram bastante lidos. Amigos meus contaram-me que enterravam os seus exemplares no quintal para que as suas famílias não tivessem problemas com os militares.”
Por isso, há um ano, quando Galeano fez questão de se distanciar do seu próprio livro, afirmando publicamente que não seria capaz de reler a sua obra mais conhecida e celebrada, isso foi notícia. “Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é chatíssima. O meu físico não aguentaria. Seria internado nas urgências”, disse na Bienal do Livro de Brasília, citado pela imprensa brasileira. Descrevendo o livro como uma obra de juventude, disse que As Veias Abertas da América Latina pretendia ser um livro de economia política, só que ele não tinha a formação necessária. “Não estou arrependido de tê-lo escrito, mas foi uma etapa que, para mim, está superada.”
Questionado noutra ocasião sobre o facto de o Presidente venezuelano ter dado o seu livro a Obama, Galeano observou que Chávez “presenteou Obama com a melhor intenção do mundo, mas num idioma que Obama não conhece. Foi um gesto generoso, mas um pouco cruel.” O exemplar era espanhol.
Eduardo Galeano foi preso em 1973, quando um golpe militar tomou o poder no Uruguai. O escritor conseguiu fugir e exilar-se na Argentina, mas, em 1976, uma ditadura militar instalou-se naquele país e Galeano refugiou-se em Espanha, onde permaneceu até 1985. Nesse ano, a democracia regressou ao Uruguai e Galeano voltou a instalar-se na sua cidade-natal. Até morrer.
Além de As Veias da América Latina, em Portugal estão traduzidas as seguintes obras de Galeano: De Pernas para o Ar(Caminho), Futebol: Sol e Sombra (Livros de Areia), História da Ressurreição do Papagaio (livro infantil, com ilustrações, publicado pela Kalandraka) e Memória do Fogo (Livros de Areia).