Recados da natureza

Tragédia ambiental em Pernambuco e Alagoas.

Texto: Celso Vicenzi (Jornalista colaborador da Adital)*
Impossível não pensar na arrogância humana diante da fragilidade da vida. Nada parece abalar as nossas rotinas até que, tudo aquilo que parecia tão firme, desaparece de repente. Submetido às forças da natureza, o que é sólido se desfaz em instantes. O tempo de vida, uma promessa cada vez mais longa para os humanos, pode esvair-se numa ínfima fração de tempo. Diante de situações que não controlamos, não há muito o que fazer. O planeta, desde que começou a abrigar as primeiras formas de vida, nunca foi lugar seguro para nenhuma espécie – 90% delas já desapareceram, dizem os cientistas. O que leva à conclusão de que o destino de todos os seres vivos é a inevitável extinção e o surgimento de outras espécies. Pelo menos até o desaparecimento do Sol, previsto para daqui a uns 5 bilhões de anos, quando também os planetas em seu entorno serão pulverizados. Mas o ser humano tem acelerado o relógio do tempo, desnecessariamente. Porque elegeu um modelo de sociedade que destrói rapidamente o próprio habitat. Ao interferir de forma tão contundente na natureza, desencadeou reações cada vez mais frequentes e de incontrolável agressividade: enchentes, deslizamentos, secas e incêndios – entre outros fenômenos naturais.
A ação humana tem sido o estopim de muitas tragédias anunciadas: pela ocupação desordenada de encostas e áreas inundáveis; pela falta de distribuição de renda e políticas habitacionais, que empurram os mais pobres para áreas de risco; pela inexistência de projetos adequados para a destinação dos resíduos sólidos; pelo desmatamento; pela desordenada ocupação urbana; pela poluição industrial; pelo incessante apelo à compra de bens materiais que degradam o solo, o ar e a água. Os meios de comunicação culpam os governos pela falta de obras de prevenção, mas nada dizem sobre o estímulo que produzem à sociedade de consumo.
O ser humano criou um estilo de vida que se transforma numa espécie de lento suicídio coletivo. Nos últimos 300 anos, aproximadamente, acionou um motor que pode vir a ser o da própria extinção. Durante milênios, viveu com muito pouco. Há algumas gerações, desde as primeiras máquinas a vapor até a mais informatizada delas, desencadeou um modelo de sociedade baseada na substituição frenética de bens de consumo – para muito além das necessidades básicas -, que provoca danos ambientais em escala sem precedentes.
Os avisos não param de chegar. Estudo recém-publicado pela revista científica Nature diz que o aumento das emissões de dióxido de carbono (CO²) terá impacto sobre as temperaturas da Terra pelos próximos mil anos e elevará em quatro metros o nível das águas do mar. Uma catástrofe com consequências devastadoras e imprevisíveis em sua extensão, pois há de modificar rapidamente todo o ecossistema sobre o qual a vida se sustentou até aqui. O sal dos oceanos irá contaminar boa parte do lençol freático. Haverá drástica redução dos recursos de água potável. A temperatura dos oceanos sofrerá impactos que irão dizimar boa parte da vida marinha. O equilíbrio entre espécies entrará em colapso. Algumas irão proliferar caoticamente, outras desaparecerão. A irregularidade de sol e chuva terá impactos sobre a agricultura, e a fome será o flagelo de milhões. Epidemias e doenças até então desconhecidas irão proliferar numa velocidade maior do que as respostas da ciência. Mortos se empilharão por toda a parte. Alarmismo? Estamos tão anestesiados em nosso mundo virtual e material que desprezamos os avisos da natureza. E de milhares de cientistas, que alertam para consequências devastadoras.
Especialistas dizem que os fenômenos climáticos de grande intensidade serão cada vez mais frequentes e de maior magnitude. Apesar de todas as evidências da mão humana ter aberto essa Caixa de Pandora, poucas pessoas parecem dispostas a questionar a ideologia de consumo que desencadeia muitos desses desastres. Há reações tímidas na construção do chamado “desenvolvimento sustentável”, mas ainda insuficientes para atenuar o desastre ambiental. A tecnologia pode e deve estar a serviço do bem-estar de toda a humanidade, diferente do que ocorre atualmente, voltada para gerar lucros em benefício de poucos.
O modelo de civilização precisa mudar. Não haverá futuro para o ser humano se ele não estiver em equilíbrio com a natureza. Mas a imensa maioria, quando confrontada com essa situação, prefere viver como se nada disso fosse ocorrer – ou que ainda estivesse muito distante. Nada parece perturbar a fé dos que elegeram o mercado como um novo deus e a mídia como o seu profeta. A ideologia do “progresso” continua inabalável, apesar de a miséria e a degradação ambiental espalharem-se pelo planeta. A ciência encontrará uma resposta, confiam os cidadãos abastados, absortos em consumir a última novidade tecnológica, sem nunca perguntar quais os custos ambientais para produzir tanto luxo e tanto lixo.
Tragédias ambientais como as do Rio de Janeiro e outras tantas pelo Brasil e pelo mundo devem servir de alerta, para conscientizar de que algo está muito errado e precisa mudar. E que é preciso cobrar das autoridades e de todos os cidadãos um compromisso responsável para com as atuais e futuras gerações que habitarão o planeta.
Nota:
Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para ADITAL: Caixa Postal 131 – CEP 60.001-970 – Fortaleza – Ceará – Brasil

Poetas de todo o mundo, uní-vos!

Algumas palavras: poucos se dão conta do dia de hoje. Para os desavisados,  20 de outubro pode até ser uma data como outra qualquer; mas para nós que temos por missão a palavra (especificamente a palavra no seu estado poético), o dia de hoje é especial porque uma alma sensível proclamou o 20 de outubro para não esquecermos a força da poesia. Há tantos nomes de poetas que eu gostaria de citar aqui… há uma infinidade. E toda vez que me vem o desejo de recitar um poema, penso logo no grande poema intitulado Motivo, de Cecília Meireles. Eis o motivo que me leva a destacar alguns de seus versos. Outro poema que me encanta é Retrato e mais um tanto de versos vindos da alma de Cecília, a exemplo de Timidez. Quem não gostaria de ter escrito esses versos? Então, para o dia de hoje, para tdos(as) nós que desejamos  megulhar  no mar da escrita, espero que o espírito poético sempre nos acolha. Viva Cecília! Viva a poesia, sempre! Saudações literárias, Graça Graúna.

***
MOTIVO
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.


(Cecília Meireles)

***RETRATO


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida a minha face?

(Cecília Meireles)


***
 TIMIDEZ

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…
– mas só esse eu não farei.


Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…
– palavra que não direi.


Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
– que amargamente inventei.


E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…
e um dia me acabarei.


(Cecília Meireles)

Nota: imagem disponível no Google.

Sobre o “deserto dos pássaros úmidos”

Imagem: JGNeres
          Geraldo Neres é um nome que eu conheço há algum tempo, mais precisamente em 2003, desde a época de Palavreiros; um movimento que surgiu em São Paulo e que reuniu muitos e muitos simpatizantes da literatura. Desde então, tem sido para mim um prazer acompanhar a sua trajetória no mundo da palavra; a sua aventura demasiado humana que nos revela os silêncios que quase desconhecemos, mas que habitam em cada um de nós. Neres é detentor de muitos prêmios, entre eles: o Prêmio Cultural Plínio Marcos – Mostra de Arte de Diadema, em 2004. Autor de “Pássaros de papel” e de outros livros em que a poesia confirma o seu estar no mundo.
          Quero falar de Outros silêncios – um livro publicado em 2008, junto ao Ministério da Cultura e do Programa de Ação Cultural (PROAC), da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. A capa é de Floriano Martins e nos sugere, na primeira leitura, que devemos estar atentos, sempre, ao verbo que se faz silêncio e da sua ebulição em nós. Sim, o verbo se faz silêncio e dentro dele podemos intuir tudo, até o canto seco de uma multidão de pássaros úmidos; podemos intuir tudo: a vertigem, as desigualdades sociais, a explosão do silêncio que se renova no exercício de ser um eterno insatisfeito que é o ser poeta.          Em Outros silêncios, outras vozes se encontram e sugerem que é tempo ainda de não desperdiçar o jeito de ser do outro; o silêncio nos alerta da necessidade de andar de mãos dadas e nos convida a olhar o outro e seus desertos. Em Neres, o silêncio emerge e se apresenta na vida nua e crua que se vive, no tempo que navega além do rio; na memória das águas que expõe nossos fantasmas na figura do “homem oco e seus relógios”; na dor de pássaros afogados no portal do tempo, como sugere o “cortejo de punhais / sol afogado no peso e na dor dos pássaros […] no sangue do rio” e/ou das asas que também criam raízes no aprendizado das horas.

Ler Geraldo Neres é também uma maneira de intuir o ritmo do silêncio das noites chuvosas; uma leitura que nos convida a fazer parte da metamorfose como quer o “movimento enroscado no deserto dos pássaros úmidos”. Nesse ritmo, a leitura nos convida a não temer a nudez que se desenha do silêncio, da palavra; um convite aos homens e às mulheres do mundo, a todas as pessoas que ainda arrecadam um pouco do tempo para perceber o sentido da palavra aquática como quer o dilúvio dos olhos neste sagrado encontro com a literatura.

Graça Graúna (indígena potiguara/RN), 7 de março de 2010

Nota: texto disponível no Overmundo