Tecido de vozes: questões indígenas (um novo blog)

Imagem do Ministério da Cultura
 
Com o intuito de refletir a Lei 11.645/08, o blog Tecido de vozes – quetões indígenaspretende apresentar um conjunto de opiniões de educadores(as) (indígenas e não-indígenas) envolvidos(as), especificamente, com o ensino de história e cultura indígena na educação escolar brasileira. A ideia deste “Tecido de vozes” é contribuir para a pesquisa, o debate e publicar textos relacionados ao tema, desde que autorizados pelos(as) autores(as). Desse modo, convido à leitura de artigos, comentários, poemas, crônicas, ensaios, resenhas, charges, fotos, música e outras manifestações científicas e artísticas, na esperança de estabelecer um diálogo em torno do universo indígena. Este blog remete a minha pesquisa de Pós-Doutoranda, em “Literatura, Educação e Direitos Indígenas” junto à Umesp, com o Núcleo de Educação em Direitos Humanos, liderado pela Profa. Dra. Roseli Fischmann e o Grupo de Estudos Comparados: literatura e intrculturalismo, sob a minha coordenação, na UPE. A todos(as) que desejam colaborar com essa pesquisa expresso, desde já, o meu sincero agradecimento.
Que Ñanderu nos acolha
Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Dicionário de mulheres: lançamento

Reitero a alegria de ver o meu nome como verbete no Dicionário de mulheres autoras. É uma honra para mim participar desse momento tão especial ao lado de outras mulheres escritoras que admiro muito, entre elas a  organizadora dessa obra que  é Hilda Agnes Hübner Flores – professora doutora pela PUCRS, aposentada, historiadora, escritora de 16 livros editados. Pesquisadora na temática de gênero, em 1999 Hilda lançou o Dicionário de Mulheres, com 3.300 verbetes de autoras do Brasil (576 pág., 16 x 23 cm), obra premiada, referencial da produção feminina no país. O lançamento da 2a edição será no dia 02 de maio de 2011, no Teatro Alberto Maranhão (Natal/RN). A mais recente obra autografada pela Dra. Hilda Flores foi em Porto Alegre/RS: “Mulheres na Guerra do Paraguai”, com absoluto êxito. Saudações literárias, 
Graça Graúna

8 de março: de pedras e flores

 Imagem: tela de Ary Salles
No ano de 1910, durante uma conferência na Dinamarca, ficou decidido que o 8 de março passaria a ser o Dia Internacional da Mulher, em homenagem as 130 tecelãs que morreram em 1857,  numa fábrica, em Nova York. Somente no ano de 1975, por meio de um decreto, a data foi oficializada pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Para homenagear as 130 tecelãs, penso em um nome da literatura universal; um nome que é símbolo da história da mulher no Brasil e do papel da mulher na sociedade.
Penso em Cora Coralina (20/08/1889 – 10/04/1985+), pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas – poeta e contista brasileira. Coralina publicou seu primeiro livro aos 76 anos de idade. Mulher simples, doceira, ela viveu longe dos grandes centros urbanos. Alheia a modismos literários, produziu uma obra poética rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro.
Penso também nas minhas filhas Ana e Agnes e no meu filho Fabiano: os três cresceram ouvindo as “estórias da casa velha da ponte”; penso em minha mãe Noemia – que me ensinou a costurar os dias e, em todas as mulheres da minha família – minha tia Fisa que acolhia em seu hotel (o primeiro hotel de São José do Campestre/RN) os romeiros de “Padim Ciço” e em minha avó Conceição Amador cujo semblante me lembrava o doce rosto de Coralina.Para repensar esse dia, tomo a liberdade de apresentar dois poemas de Coralina: “Das pedras” e o “Chamado das pedras” (In: Meu livro de cordel) e mais a tela pintada por Ary Salles que retratou muito bem a imagem da nossa Cora Coralina – poeta dos becos de Goiás.

Cerrado de Brasília/DF, 7 de março de 2011.
Graça Graúna (indígena potiguara/RN)
Das pedras

Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.

Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.

(Cora Coralina. Meu Livro de Cordel, p.13, 1998)

O chamado das pedras
A estrada está deserta.
Vou caminhando sozinha.
Ninguém me espera no caminho.
Ninguém acende a luz.
A velha candeia de azeite
de lá muito se apagou.

Tudo deserto.
A longa caminhada.
A longa noite escura.
Ninguém me estende a mão.
E as mãos atiram pedras.
Sozinha…

Errada a estrada.
No frio, no escuro, no abandono.
Tateio em volta e procuro a luz.
Meus olhos estão fechados.
Meus olhos estão cegos.
Vêm do passado.

Num bramido de dor.
Num espasmo de agonia
Ouço um vagido de criança.
É meu filho que acaba de nascer.
Sozinha…
Na estrada deserta,
Sempre a procurar
o perdido tempo que ficou pra trás.
Do perdido tempo.

Do passado tempo
escuto a voz das pedras:

Volta…Volta…Volta…E os morros abriam para mim
Imensos braços vegetais.

E os sinos das igrejas
Que ouvia na distância
Diziam: Vem… Vem… Vem…
E as rolinhas fogo-pagou
Das velhas cumeeiras:
Porque não voltou…
Porque não voltou…

E a água do rio que corria
Chamava…chamava…Vestida de cabelos brancos
Voltei sozinha à velha casa deserta.

(Cora Coralina. Meu Livro de Cordel, p.84, 8°ed., 1998)