Somos muitos severinos: um auto do natal pernambucano
“Somos muitos Severinos
iguais em tudo nesta vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.”
No dia 15 de dezembro, à noite, a cidade de São João (localizada no agreste meridional, a 230km do Recife) acolheu o clássico poema de João Cabral de Melo Neto: “Morte e vida severina”.
A história do migrante Severino foi encenada com brilhantismo pelos alunos da Escola Estadual João Ferandes da Silva, sob a direção da professora Karina Calado. Os (as) alunos(as) do 3º Ensino Médio e a Professora Jaíra Pinteiro fizeram o cenário e a ilustração. A adaptação do poema para o teatro ficou a cargo do jornalista Leonardo Bastos e o registro fotográfico sob a responsabilidade de Karolina Calado.
O “auto do natal pernambucano” – subtítulo do referido poema de João Cabral – conta a trajetória de Severino: um retirante igual a muitos outros que parte para o litoral, fugindo da seca. Ao chegar na Capital, a vida não parece atraente como Severino imaginara: menos sofrida, isto é, menos “severina”. Em suas andanças, entretanto, o retirante se depara a cada instante com outros severinos que sobrevivem nos mangues de Recife. Desse modo, ele vê que o seu desespero é semelhante a dos homens e mulheres que habitam as margens da cidade grande.
Severino tem dificuldades para se diferenciar dos outros “severinos”, pois são “iguais em tudo na vida”. Como se pode ver, este Severino representa a todos e apesar de cercado pela morte, ele não perde a esperança de uma vida melhor: esperança no filho que vai nascer.
Os vizinhos e os amigos cantam em louvor ao menino; trazem presentes de todos os tipos e de todos os cantos de Pernambuco. Para o recém-nascido, duas ciganas preveem uma vida enlameada de pescador pobre, outra de operário um pouco menos pobre. Todos cantam a beleza do recém-nascido; a beleza da vida que se multiplica e renova, reafirmando, assim, o valor da vida, ainda que seja uma vida “severina”.
Nordeste do Brasil, 20 de dezembro de 2010.
Graça Graúna (indígena potiguara/RN)
Imagens do Natal
Yes,
natal
que é natal
tem que ter estrela
bem no topo da árvore,
de preferência, banhada
de purpurina. Enfeites, efeitos
grifes, beijinhos, velas, guardanapos,
CDs, framboesas, cartões de crédito, postais
e poemas que não falem do absurdo presépio
sob o viaduto
em construção
Graça Graúna
in Tessituras da Terra-2001
BH-MG
in Tessituras da Terra-2001
BH-MG



