Dia de Pachamama

Imagem: Google

Terra
(Composição: Caetano Veloso)

Quando eu me encontrava preso
Na cela de uma cadeia
Foi que vi pela primeira vez
As tais fotografias
Em que apareces inteira
Porém lá não estavas nua
E sim coberta de nuvens…

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?…

Ninguém supõe a morena
Dentro da estrela azulada
Na vertigem do cinema
Mando um abraço prá ti
Pequenina como se eu fosse
O saudoso poeta
E fosses a Paraíba…

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?…

Eu estou apaixonado
Por uma menina terra
Signo de elemento terra
Do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza
Terra para a mão carícia
Outros astros lhe são guia…

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?…

Eu sou um leão de fogo
Sem ti me consumiria
A mim mesmo eternamente
E de nada valeria
Acontecer de eu ser gente
E gente é outra alegria
Diferente das estrelas…

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?…

De onde nem tempo, nem espaço
Que a força mãe dê coragem
Prá gente te dar carinho
Durante toda a viagem
Que realizas do nada
Através do qual carregas
O nome da tua carne…

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?…

Na sacada dos sobrados
Da velha são Salvador
Há lembranças de donzelas
Do tempo do Imperador
Tudo, tudo na Bahia
Faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito…

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Terra!

A caminho do Haiti tem uma pedra(*)


tem uma jangada de pedra
a caminho do Haiti
a esperança se avizinha
pois navegar é preciso
ou como diz o velho Mago
uma obrigação todos temos.
E agora, que fazer?
A caminho tem uma pedra
e uma jangada se recria
pois não há mais tempo a perder


Graça Graúna (indígea potiguara/RN), 24.março.2010

(*) fiz este poema, pensando também em Carlos Drummond de Andrade, autor do poema “No meio do caminho”. Empreguei o termo Mago para homenagear SaraMAGO e a sua solidariedade ao povo do Haiti.

Nota: a Fundação José Saramago lançou uma edição especial do livro “Jangada de pedra” (editado originalmente, em 1986) com o intuito de ajudar as vitimas do Haiti. O produto da venda do livro é destinado integralmente as vitimas, por intermédio do Fundo de Emergência da Cruz Vermelha. Para saber mais da Campanha “Uma jangada de pedra a caminho do Haiti”, visite a Fundação José Saramago e assista também ao vídeo (neste blog) em que o próprio Saramago junto a outros escritores da língua portuguesa fazem da literatura um gesto concreto em prol das vítimas do terremoto.

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Nota: poema diponível também no Overmundo.

À deriva

Barcos. Ana Cotta, Flickr

miro a tua ausência
no labirinto de espelhos quebrados
no quarto que era meu e teu
diviso o clarão da lua
e na janela teu olhar
perdido no perdido
entre as grades dos prédios

estou à deriva
ninguém me vê

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)
21 de março, dia da poesia, 2010.

Nota: poema disponível também no Overmundo