"Nos vãos da poesia"

Fotografia: Graça Graúna
2008 – nada de novo e tudo de novo. Por isso, torno a dizer que eu sou apenas uma aprendiz e enquanto eu estiver nesse mundo, sempre quixotesca, quero fazer como fez Quintana: cavar o infinito, a poesia do mundo ou sair de mãos dadas como quer a poesia drummondiana. Também careço, preciso evocar a estrela de Bandeira e, pela vida inteira, burilar outras canções do beco; compor um acalanto para Jonh Lenon ou simplesmente para Seu João que sobrevive vendendo limão na feira ou quem sabe até fazer uma canção para os pequenos anjos carvoeiros das tardes e para outras crianças que desde cedo aprendem a conhecer sua raiz pernambucana.
Neste instante, em nome das coisas simples dou-me a liberdade de fazer uso da poética de Bandeira: “_ Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples”, ele dizia. Coisa simples, assim, ora doce e amarga que perpassa o olhar daquela mulher invisível tombada entre os detritos da Avenida Conde da Boa Vista, no centro de Recife, como se vê e se sente na força da palavra do poeta Walter Ramos Arruda. Deste mesmo poeta dou conta do açude-assu em seu afago ao meu “Canto Mestizo”; ocorre que em 2007, ele escreveu para mim os versos seguintes que eu guardei como se fora um símbolo de proteção para saudar o ano novo. Por meio do senso poético desse viandante desejo a todos(as) a inquietação necessária para expressar os contrapontos do cotidiano. Desse modo, compartilho o poetico presente do amigo Walter Ramos:
Agravo agrado em segredo.
Acuso meu segundo canto,
íntimo como o galo último
avisa à manhã sobre o dia.
Afago nos vãos da poesia
os vôos longos da Graúna.
Plano com as asas já lusas
sobre a água – açude-assu
atento um instinto mestiço,
do caminho até Ivy Marãey.
2008 – Recife continua “a possuir o segredo grande da noite”; pelo menos é o que intuí do testamento poético de Bandeira e da poesia em movimento que perpassa também as conversas que eu tenho com o poeta Cyl Galindo.
Lugar e memória. Passagem, paisagem plural. Ora Recifeliz no alumbramento de uma terça-feira gorda, ora Recifeinfeliz, que mostra também a sua fome numa quarta-feira de cinzas; resífiles de anjos caídos sob os viadutos segredando lágrimas do nascer ao morrer do dia; anjos ora doces e amargos(as); uma multidão de bicho-homem, bicho-mulher, bicho-criança que forma uma constelação de estrelas-cadentes-pedintes a quem dedico este quase-improvisado prólogo no meu livro de crônicas “Lugar e memória“; um título que, na concepção do poeta Antonio Mariano (PB), parece menos comum. Que assim seja, para esquentar os tambores e os maracás; que em 2008 a poesia continue se perguntando: “Tu tás aonde?” na viva voz de Miró, e que revele-se redondamente movida pela esperança de um mundo melhor; ano do Planeta Terra.

Nordeste do Brasil, 10 de janeiro de 2008
Graça Graúna (indigena potiguara/RN)

D. Quixote do Cerrado

Imagem: Saraiva/Google
Em janeiro de 2003 ganhei do meu filho Fabiano e das minhas filhas Ana e Agnes a luxuosa coleção (3 vol.) de D. Quixote de la Mancha, com ilustrações de Gustavo Doré.
Hoje, às vésperas de 2008, quero registrar com os meus votos de um Natal e um 2008 de Justiça, Paz e Amor para todos(as) e que continuemos quixotescos(as), sonhadores(as); fazendo o pão nascer da poesia,
posto que a vida nasce e recomeça das palavras.
Sempre, para o que der e vier,
 
Graça Graúna
(indígena potiguara/RN)

Maniçoba: louvando Jesus Menino

Dezembro está chegando e novembro guarda seus finados e dá passagem à luz que anuncia o espírito natalino.
Lá em Maniçoba, no Agreste pernanmbucano, as pessoas desde sempre mostram o zelo que têm pela cultura do lugar; a “Casa das 12 janelas” e o carro de boi na frente dessa casa e um velho pote de água no canto da cozinha são uma prova disso.
As casas são agarradinas nas outras; nos quintais encontramos aquela areia fininha…fininha e meio escura, que as galinhas gostam de ciscar e pôr seus ovos de capoeira.
Poucos lugares no Brasil possem a riqueza que encontramos em Maniçoba: o reizado, o pastoril, as cantorias, a cavalgada da amizade e os leilões de bode pra animar as quermesses da pequena Igreja dão conta de que os capoeirenses (de Capoeiras-PE), os maniçobenses são atuantes e festejam também com muita alegria o Dia de São José, e acreditem! O bom Padre de lá, ainda usa aquele tipo de batina que a gente só vê impregnada nas imagens do “Padim Ciço”. Eita, Maniçoba! Eita Lugar arretado!
Guardo boa lembrança do convite de Agostinho Jessé, um dos agitadores culturais do lugar. O desafio foi fazer um estandarte para o Pastoril, em homenagem ao Jesus Menino. Dito e feito: numa tarde de sábado e varando o domingo em Recife, minha mãe Noemia, minha irmã Brasília Morena e eu tecemos o estandarte azul e encanardo para mostrar também o nosso amor às raizes nordestinas.
Assim, acanhadamente, deixo minha saudação à Karina Calado que é também uma agitadora cultural. Nesse ritmo, vai um pouquinho dos meus versos:
Karina poetamiga
quisera ter a grandeza
tecida nos versos seus.
Assim mesmo, ofereço
ao povo de Maniçoba
com afeto os versos meus.Não esquecerei o dia
em que um amigo me deu
a grande oportunidade
de conhecer Maniçoba
e fazer um estandarte
pra louvar o Menino Deus

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Nordeste do Brasil, 19.nov.2007

Crédito: a foto é de Agostinho Jessé e segurando o estandarte; da esquerda para direita, Karina e sua irmã Carol. Para saber mais, visite o blog de Maniçoba.