Da nossa ancestralidade indígena e africana

Ilustração: Brasilia Morena

Esta foi a maneira que encontrei para agradecer ao poeta Geraldo Maia (BA) as suas boas palavras acerca da troca de saberes, fundamental na missão de garantir os direitos pela liberdade de expressão, sempre.
…oh, Nhande Rú, que alegria ser mencionada em meio a grandes pensadores, nordestinos, brasileiros, latinos; em meio a grandes nomes de educadores do quilate de Paulo Freire e tantos outros!…oh, Nhande Rú, não sei mesmo onde e como colocar as palavras que eu preciso, careço dizer e não consigo, tão grande é a minha alegria e tão grande é o medo também que sinto diante dessa responsabilidade estampada na reflexão “Que fronteiras?*”, do poetamigo Geraldo Maia!

…oh Nhande Rú eu sei que sou uma de suas criaturas e no momento tudo que me fica é essa esta vontade enorme de pronunciar os nomes todos que me guiam e que para mim são um mantra, nomes dos meus irmãos e irmãs de luta, nomes que você foi juntando ao meu pra aumentar o circulo da nossa resistência porque todos nós carecemos estar juntos para fazer pulsar os corações, as mentes na luta pela justiça social.

…oh, Nhande Rú é assustador e ao mesmo tempo gratificante ter a possibilidade de abertamente, assim, estampar a alegria que estou sentindo neste momento; um momento que não é só meu, um momento que não é estático porque o que vem de você e de Pacha Mama é algo mais forte do que a mente comum pode imaginar!

…oh Nhande Ru é tão bom ter o privilegio de cantar um mantra tecido em cada nome e sonhos dos meus irmãos e irmãs de diferentes etnias, meus irmãos e irmãs dos cadernos negros, da literatura indígena: Ubiratan Castro, Makota Valdina, Vanda Machado, Mãe Stella, Juvenal Payayá, Katão Pataxó, Fernando Conceição, Jerry Matalawé, Lande Onawale, José Carlos Limeira, Hamiltom Borges, Sérgio São Bernardo, Godi, Wakay, só alguns dos grandes nomes (como diz o Maia), e Abdias Nascimento, Cuti, Oswaldo de Camargo, Eliana Potiguara, Kaká Verá, Olívio Jecupé, Ferréz, Ele Semog, grande Geraldo Maia, Daniel Munduruku, Heitor Kaiová, Ademario Ribeiro,  Esmeralda Ribeiro, Geraldo Potiguar do Nascimento, Gilia Gerling, só alguns dos grandes pensadores da terra, do ar, das águas deste espaço inquietante chamado Brasil e que pode e deve ainda ser tratado dignamente como Pindorama.

…oh, Nhande Rú nde re re! Os nomes que eu não citei, por favor, entenda, estão todos do lado esquerdo do meu peito mas neste instante, tomada pelo contentamento peço por todos aqueles e aquelas que me ajudam a ser como sou; um ser avuante meio perdido nesse universo de alegria e dor. Ai, Nhande Rú nde re re! Gracias a la vida, não mereço tanto.

Graça Graúna (indígena potiguara/RN).
(*)Nota:
QUE FRONTEIRAS?

Autoria: Geraldo Maia

Segundo o grande mestre Paulo Freire “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a suja produção ou a sua construção”. Pena que isso ainda não chegou à maioria das escolas e universidades desconectadas da realidade de seu mundo concreto. Na grande maioria de encontros, seminários, colóquios, congressos que pude assistir a maioria dos intelectuais convidados, quase todos doutores e mestres renomados revelaram-se domesticados ao texto do qual buscam apenas a inteligência dos autores sem ambição alguma de tornarem-se sujeitos da compreensão do que lêem, temerosos de arriscarem algo pessoal, criativo e relacionado com o que vem ocorrendo desde a sua própria realidade.
E o pior: a referência maior onde se sentem seguros ainda é a do invasor/colonizador . Vivem no Brasil, mas trazem nos seus discursos apenas a visão e o pensamento do mundo greco-romano, europeu e norte-americano. Tal comportamento fez com que se criasse uma Lei (Lei 10.639/03) obrigando o ensino da história e da cultura africana em todo o país, e mais recentemente a Lei 11.645, de 10 de março de 2008 que inclui o ensino obrigatório da História e Cultura Indígena.
Se não, continuaríamos a ter como único referencial de pensamento filosófico, de visão de mundo, de modo de pensar, sentir, fazer e espiritualizar- se, o modelo eurocêntrico e norteamericanizado. Um claro sintoma disso é o projeto cultural Fronteiras Brasken do Pensamento, que segundo o vice-presidente de Relações Institucionais da Brasken, Marcelo Lira, “proporciona à sociedade baiana a oportunidade de compartilhar idéias e obras de grandes pensadores mundiais” e, segundo ele, ´”é importante para a auto-estima da inteligência baiana”.
Mas que fronteiras? Como elevar a auto-estima excluindo a contribuição local? Para cada pensador e artista “mundial” de outras nações, deveria ter pelo menos dois ou três “mundiais” locais. Aí, sim, o intercâmbio, o debate, a troca de saberes, a quebra de fronteiras. Nós somos “mundiais” também. Os grandes pensadores que conheço e que no momento interessam à construção do nosso conhecimento, do nosso pensamento, dos nossos saberes, não moram na europa e nos estados unidos, mas aqui mesmo, na Bahia e no Brasil. E na américa latina. Posso citar alguns deles: Ubiratan Castro, Makota Valdina, Vanda Machado, Mãe Stella, Juvenal Payayá, Katão Pataxó, Fernando Conceição, Jerry Matalawé, Lande Onawale, José Carlos Limeira, Hamiltom Borges, Sérgio São Bernardo, Godi, Wakay, só alguns dos grandes da Bahia, e Abdias Nascimento, Cuti, Oswaldo de Camargo, Eliana Potiguara, Kaká Verá, Olívio Jecupé, Ferréz, Ele Semog, Graça Graúna, só alguns dos grandes pensadores do Brasil.
Nós que vivemos quinhentos anos acachapados pela cultura, pela arte, pela visão de mundo e pelo pensamento europeu e norte-americano, precisamos investir, e muito, no nosso processo de descolonização e afirmação e valorização da nossa ancestralidade indígena e africana. Aí sim se estará contribuindo para elevar a auto-estima da inteligência baiana, mais de oitenta por cento negra e índia.
Geraldo Maia
Poeta e doutor honoris causa pela Uni American Universidade Corporativa das Américas. 71 8219-5934

"Nos vãos da poesia"

Fotografia: Graça Graúna
2008 – nada de novo e tudo de novo. Por isso, torno a dizer que eu sou apenas uma aprendiz e enquanto eu estiver nesse mundo, sempre quixotesca, quero fazer como fez Quintana: cavar o infinito, a poesia do mundo ou sair de mãos dadas como quer a poesia drummondiana. Também careço, preciso evocar a estrela de Bandeira e, pela vida inteira, burilar outras canções do beco; compor um acalanto para Jonh Lenon ou simplesmente para Seu João que sobrevive vendendo limão na feira ou quem sabe até fazer uma canção para os pequenos anjos carvoeiros das tardes e para outras crianças que desde cedo aprendem a conhecer sua raiz pernambucana.
Neste instante, em nome das coisas simples dou-me a liberdade de fazer uso da poética de Bandeira: “_ Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples”, ele dizia. Coisa simples, assim, ora doce e amarga que perpassa o olhar daquela mulher invisível tombada entre os detritos da Avenida Conde da Boa Vista, no centro de Recife, como se vê e se sente na força da palavra do poeta Walter Ramos Arruda. Deste mesmo poeta dou conta do açude-assu em seu afago ao meu “Canto Mestizo”; ocorre que em 2007, ele escreveu para mim os versos seguintes que eu guardei como se fora um símbolo de proteção para saudar o ano novo. Por meio do senso poético desse viandante desejo a todos(as) a inquietação necessária para expressar os contrapontos do cotidiano. Desse modo, compartilho o poetico presente do amigo Walter Ramos:
Agravo agrado em segredo.
Acuso meu segundo canto,
íntimo como o galo último
avisa à manhã sobre o dia.
Afago nos vãos da poesia
os vôos longos da Graúna.
Plano com as asas já lusas
sobre a água – açude-assu
atento um instinto mestiço,
do caminho até Ivy Marãey.
2008 – Recife continua “a possuir o segredo grande da noite”; pelo menos é o que intuí do testamento poético de Bandeira e da poesia em movimento que perpassa também as conversas que eu tenho com o poeta Cyl Galindo.
Lugar e memória. Passagem, paisagem plural. Ora Recifeliz no alumbramento de uma terça-feira gorda, ora Recifeinfeliz, que mostra também a sua fome numa quarta-feira de cinzas; resífiles de anjos caídos sob os viadutos segredando lágrimas do nascer ao morrer do dia; anjos ora doces e amargos(as); uma multidão de bicho-homem, bicho-mulher, bicho-criança que forma uma constelação de estrelas-cadentes-pedintes a quem dedico este quase-improvisado prólogo no meu livro de crônicas “Lugar e memória“; um título que, na concepção do poeta Antonio Mariano (PB), parece menos comum. Que assim seja, para esquentar os tambores e os maracás; que em 2008 a poesia continue se perguntando: “Tu tás aonde?” na viva voz de Miró, e que revele-se redondamente movida pela esperança de um mundo melhor; ano do Planeta Terra.

Nordeste do Brasil, 10 de janeiro de 2008
Graça Graúna (indigena potiguara/RN)