Poesia Indígena no Rio Grande do Norte (IX)

Foto: Ana Paula Natsinga.

Texto: Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Na primeira semana de janeiro/2021, tive a grata satisfação de conhecer um pouco da luta de Ana Paula Campelo. Na conversa que tivemos por telefone, Ana Paula falou da alegria que é pertencer ao grupo familiar Tapuia Tarairiú/RN. Ela é professora, poeta e se dedica, desde 2016, ao trabalho de retomada da língua indígena Brobó.

Na opinião de Kadu Xukuru (@kaduxukuru), o idioma Brobó, do tronco linguístico Macro-Jê, é a língua materna do Povo Tarairiú e Xukuru, e também da Zona da Mata Sul de Pernambuco. Por meio do Twitter (em 04/11/2020), ele informa também, que “no território Xukuru do Ororubá, as escolas são a principal ferramenta de manutenção do que restou da língua. No Rio Grande do Norte, os parentes Tarairiú produzem zines em Brobó como forma de difundir a língua através da arte”.

Com relação aos escritos de sua autoria, Ana Paula comenta que os mesmos podem ser encontrados no site www.wattpad.com e que adota o nome Natsinga para assinar os poemas que escreve. Na língua Brobó, Natsinga significa “saber”. Sua poesia evoca a luta; o seu dia a dia na Comunidade Indígena Tapará, localizada no município de Macaíba/RN. Um de seus poemas (Queimada) focaliza o cenário da devastação e dos prejuízos causados pela queima da palha de cana de açúcar. Por outro lado, Ana Paula fala também dos encantos da sua aldeia, tanto assim que compartilhou um mosaico da flora e da fauna fotografado por seu irmão Josué Campelo.

Fauna e flora. Mosaico de Josué Campelo

O irmão de Ana Paula Natsinga recebeu o nome de Kialonã Tarairiú, que na língua Brobó significa “guerreiro da natureza”. Ele assim foi chamado pela atividade que exerce voluntariamente na comunidade indígena Lagoa do Tapará. Em 2016, Josué iniciou o Projeto “Conhecer para preservar”, por meio do qual faz coleta de sementes nativas. É seu costume distribuir mudas de plantas ao final de cada palestra sobre conscientização ambiental, que realiza na comunidade indígena.

Vejamos, agora, o poema “Queimada:

No sussurro da noite
se ouve a fúria do fogo
que arde, queima que lambe
a força da mãe terra

Oh! Mãe terra que sofre
pelos gemidos de seus filhos
queridos e oprimidos
no seu seio que arde em chamas

e que chamam e clamam
buscam socorro e abrigo
mas somente encontram
o vazio noite a dentro
e o eco de suas vozes a procura de alento

Oh! Toípa Lemolaigo!
Que o eco dessas vozes
não fique somente no vento
mas que transpasse
e alcance visibilidade

e que traga a seus filhos queridos
o socorro e o alento tão merecido
que a fumaça que os sufocam
se transforme em cheiro Silvestre
que os embala e os encantam
da sua tão querida
a exuberante natureza.


                                                Comunidade indígena do Tapará. 

Ana Paula Natsinga

                                                                                        

Há um mundo melhor se aprendermos a dialogar com as plantas

Fonte e Foto: Servindi. Tradução livre: Graça Graúna

Servindi, 15 de janeiro de 2021.- “Há um mundo melhor se você vê com o coração, há um mundo melhor se aprendemos a falar com as plantas” é a mensagem que meninos e meninas cantam na última produção da Rádio Ucamara.

O videoclipe contou com o apoio do concurso INNOVATE PERÚ, promovido pelo Ministério da Produção, que apoiou ações de comunicação durante a emergência sanitária.

A produção se intitula “MÃES” em referência às plantas e seu poder que se revelam diante de nós para não nos deixar órfãos em tempos em que a morte e a doença nos surpreendem. 

Fonte: Servindi

“Elas nos protegeram, elas responderam a nós. Elas entraram em nossas casas, de mãos dadas com a sabedoria de nossas avós, de nossos idosos, para nos limpar por dentro, para nos curar, para nos tratar e nos proteger”, explica Rádio Ucamara.

“No seio mais íntimo de nossas famílias, de nossas comunidades preparamos nosso chá de sacha, alho, grapefruit, nosso cordoncillo. Com elas, o mal nos encontrou com um sistema imunológico forte, capaz de enfrentá-lo, em meio à indiferença de um sistema de saúde ausente e atrasado “. 

“As plantas medicinais têm sido a resposta que os povos indígenas têm dado às nossas próprias comunidades e ao mundo, a sua resposta correcta e amorosa ao mesmo tempo denuncia a urgência de um verdadeiro modelo intercultural de saúde que valorize e respeite a sabedoria do nosso povo, nossa memória, nossa história “.

“Nós, povos, sentimos isso. As mães das plantas nos revelam, seus espíritos abrigam e cuidam de nós, sua força permanece quando mais precisamos delas. 

“Elas vêm até nós em sonhos, nos guiam, nos avisam” e esse conhecimento continua passando de geração em geração. “Os sonhos ainda são o espaço sagrado de encontro.”

“E também nos pedem respeito, reciprocidade, justiça. Curar, curar, não é do corpo, é da alma, é da sociedade, é do território. Explorar-se mutuamente, saquear nossa terra, é morte”.

“As plantas medicinais têm sido o sinal de vida, resistência e esperança de nossos povos, que, em meio a tantas pandemias, resistimos a não desaparecer”, finaliza a Rádio Ucamara.

Sobre a Radio Ucamara

A Rádio Ucamara é uma rádio comunitária, localizada em Nauta ao sul de Iquitos (Loreto), que nasceu com o objetivo de resgatar a língua, a cultura e a identidade do povo Kukama.

Nasceu com o impulso e direção do comunicador indígena Leonardo Tello Imaina e se destaca por ações poderosas do rádio e da comunidade, com a participação de meninos, meninas, adolescentes e idosos.

Alcançaram a fama com o vídeo Kumbarikira que se tornou viral nas redes e, desde então, criaram produtos audiovisuais musicais de alto impacto em que convergem sonhos, histórias, conhecimentos e a linguagem que ameaçavam desaparecer.

CIDH: medidas cautelares em favor dos povos indígenas no Brasil

Fonte: Servindi. Foto: Survival International. Tradução livre: Graça Graúna

Os povos indígenas Guajajara e Awá da Terra Indígena Araribóia, no Brasil, receberam medidas cautelares da CIDH. A mudança representa uma derrota para o presidente Jair Bolsonaro.

Servindi, 14 de janeiro de 2021. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) adotou medidas cautelares em favor dos povos indígenas Guajajara e Awá no Brasil.

Nesse sentido, solicitou ao Estado brasileiro que adote “as medidas necessárias para proteger os direitos à saúde, à vida e à integridade pessoal” dos membros de ambos os povos da Terra Indígena Araribóia .

A medida – de acordo com o dispositivo da CIDH – deve ser implementada a partir de um enfoque culturalmente adequado, com medidas preventivas contra a disseminação da COVID-19.

Da mesma forma, o Estado deve prestar assistência médica adequada “em condições de disponibilidade, acessibilidade, aceitabilidade e qualidade, de acordo com as normas internacionais aplicáveis”.

 Além disso, as medidas que forem executadas serão acordadas com os beneficiários e seus representantes.

Situação de risco

Ao solicitar as medidas cautelares, os povos indígenas Guajajara e Awá alegaram que “estão em situação de risco no contexto da pandemia COVID-19”. Além disso, a Comissão destacou a vulnerabilidade do povo Awá, em isolamento voluntário.

Diante disso, em sua decisão a CIDH não só considerou o contexto da pandemia, mas também “uma suposta situação histórica de violência contra membros dos povos indígenas Guajajara e Awá em decorrência de atividades de defesa de seus direitos”.

“Nesse sentido, a Comissão observou as informações prestadas pelos indígenas sobre diversos assassinatos ocorridos ao longo dos anos, identificando pelo menos 5 recentemente”, alerta.

Da mesma forma, a CIDH observou que os planos elaborados pelo Estado em favor dos povos indígenas eram de caráter geral e não especificavam como eram executados e se eram eficazes.

Uma derrota para o Bolsonaro

A decisão da CIDH constitui uma derrota para o presidente brasileiro Jair Bolsonaro, cujo governo teria “espalhado informações falsas, criando um clima de animosidade contra o povo Guajajara, com denúncias de ‘crimes de dano à pátria’”.

Em setembro de 2020, seu atual primeiro-ministro do Gabinete de Segurança Presidencial, Augusto Heleno, acusou a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) de estar por trás do site defundbolsonaro.org.

Heleno, através da sua conta no Twitter, chegou a dizer que o “site da APIB está associado a vários outros, que também trabalham 24 horas por dia para manchar a nossa imagem no estrangeiro, num crime de prejuízo à pátria”.