Uma rua do Recife Antigo / Crédito da foto: G.Graúna
Lamentações
Comemorar o que? Quando? Como? Onde? Pelas ruas dos tempos coloniais um coro originário avança e reclama, enquando o eco ancestral responde: Não! Não! Não! Marco Temporal, Não! Aqui estamos desde sempre lutando porque somos a Última Geração que pode salvar a Amazônia, pode salvar o Planeta, pode salvar a Terra: nossa ca(u)sa comum não é carnaval!
Graça Graúna (filha do povo Potiguara/rn) Pindorama, em 14.dez.2023
Hoje seria seu dia, mas nos deparamos com as pessoas envolvidas em celebrações com tintas no rosto e cocares de plástico; pessoas que nos chamam de “índio” e que agem como se tivessem nos “descoberto”. A realidade é que brincam com a nossa identidade como se fôssemos parte da fantasia; como se a gente fosse distante e não fossemos todos filhos da Terra, seus filhos. Mãe, essas pessoas nos sufocam! Todos os dias escutamos coisas absurdas sobre como devemos ser e viver, mas essas pessoas não estão em nossa pele e, como se não bastasse, esquecem daqueles que vieram antes de nós; esquecem que te banharam com nosso sangue; mas sabemos Mãe, que ouviste o nosso choro, os nossos cantos e as nossas maracas. Por todo esse tempo, Mãe Terra, você tem sido nosso alento; você é nossa origem: surgimos de ti e para os teus braços voltamos. Mãe, estamos sofrendo porque te contaminam, jogam mercúrio em tuas águas e poluem o teu solo sagrado. Esses venenos continuam matando teus filhos. Até quando, continuarão arrancando de ti os teus braços – as tuas árvores que nos acolhem, que purificam o ar que respiramos?
Mãe, tá difícil de respirar! Na cidade continuam degradando teu solo, teu ventre. Constroem edifícios que te sufocam e nos marginalizam. Não somos considerados teus filhos, mesmo quando na urbanidade nos encontramos. Somos feitos de ti, onde quer que estejamos.
Mãe, temos fome! Não apenas aquela fome que dói a barriga e tira o sono, mas aquela fome de justiça. O alimento que sacia nossa fome é aquele que vem do reconhecimento do território como nosso. A fome de justiça alimenta a nossa luta, mas precisamos também de descanso. Estamos cansados, mãe! Cansados de precisar afirmar quem somos; cansados de nos matarem; cansados de não ocuparmos o espaço que nos pertence. Estamos exaustos de falarem por nós!
Mãe, a vacina chegou! Ajudou muitos de nós a respirar, mas ainda não há remédio para estancar a ignorância e a violência. Ainda é preciso aprender a sair da vaidade que corrompe o espírito e as (n)ações. Perderam a humanidade, mas o Amanhã, Mãe, dependerá de nós, de todos os teus filhos juntos. Depende de voltar para casa, de voltar para ti. Voltar para a Mãe Terra e saciar a fome. Temos fome de alimentar nossos “eus”, porque somos parte do Coletivo com a força dos ancestrais; com a simplicidade e, ao mesmo tempo, com a força da natureza. Mãe, o Coletivo nos chama para entoar os cânticos e, nesse ritmo, pedir ao nosso Pai Tupã que nos proteja e nos guie ao longo da nossa jornada. Existir e Resistir é preciso.
Assinam esta Carta da Semana da Terra
Profª Graça Graúna, filha do povo Potiguara/RN, (Ciências Sociais/Fensg); Profª Waldênia Leão de Carvalho (Coor. Ciências Sociais/Fensg); Prof. Renan Cabral da Silva (Ciências Sociais/Fensg) e o seguinte grupo Discente junto à Disciplina Antropologia Indígena: Alberth Alexsander da Silva Pereira, Dayane Bezerra da Silva, Deborah Larissa Afonso de Arruda, Glória Maria Nemesio da Silva, Jecenita Ferreira da Silva, Júlia Lucena de França, Karen Maria de França Silva, Maria Liz Medeiros Nery da Fonseca, Maria Vitória Tetéas de Moura Ferreira, Mileide Vitorina Moreira, Mirella Barbosa Fernandes, Nikolas Kotronakis Ramos Lopes Barreto e Thais dos Santos Barbosa.
Al corazón de la tierra
“Al corazón de la tierra”: uma canção necessária
Quando compartilhei a “Carta da Terra”, recebi afetuosos comentários.
À medida que as visitas foram chegando ao blog e por whatsapp e e-mails, senti necessidade de buscar possíveis canções com temática referente à nossa Mãe Terra. Desse modo, tive a grata satisfação de encontrar no Instagram de uma amiga gestora de projetos culturais (@eliene_r_o) um áudio que me chamou atenção; a começar pelo título: “Al corazón de la tierra”. Imediatamente, perguntei a Eliene se ela me ajudaria a entrar em contato com os autores do precioso áudio. Não demorou muito e no mesmo dia, a minha amiga falou com muito entusiasmo que conseguira falar com um dos autores do áudio e foi logo passando a ficha técnica do grupo.
Trata-se de um trabalho artístico compartilhado por @aristimusica, da Colômbia. A canção e a letra foram compostas por Sebastian (@casaumapaz) com o produtor musical Aristi. A capa do áudio foi ilustrada por Paola León (@frq1320). O áudio também conta com a participação de @juanignacioarbaiza, na flauta.
No dia seguinte, ao comentar com Eliene sobre o meu desejo de postar o áudio junto a Carta da Terra, recebi a noticia de que Sebastian & Aristi permitiram a publicação do áudio neste blog. Então, sintam-se à vontade para escutar a canção, neste link: https://ditto.fm/al-corazon-de-la-tierra
Creio que esse áudio sugere uma estreita relação de amor com a Terra, uma relação semelhante a que expomos na carta coletiva; pois como diria o Chefe Sealth (em 1854): a terra não pertence ao homem. Somos nós que pertencemos à Terra.
FUNAI passa a se chamar Fundação Nacional dos Povos Indígenas
Foto: Mario Vilela/Funai
Matéria: Assessoria de Comunicação/Funai
O órgão federal responsável pela política indigenista brasileira passou a ser denominado Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). A mudança consta na Medida Provisória nº 1.154, de 1º de janeiro de 2023, que estabelece a organização dos órgãos da Presidência da República e dos ministérios.
Criada por meio da Lei nº 5.371, de 5 de dezembro de 1967, a Funai é a principal executora da política indigenista do Governo Federal. Sua missão institucional é proteger e promover os direitos dos povos indígenas no Brasil. Antes vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, a autarquia integra agora a estrutura do recém-criado Ministério dos Povos Indígenas.
Cabe à Funai promover estudos de identificação e delimitação, demarcação, regularização fundiária e registro das terras tradicionalmente ocupadas pelos povos indígenas, além de monitorar e fiscalizar as terras indígenas. A Funai também coordena e implementa as políticas de proteção aos povos isolados e recém-contatados.
É, ainda, seu papel promover políticas voltadas ao desenvolvimento sustentável. Nesse campo, a Funai promove ações de etnodesenvolvimento, conservação e a recuperação do meio ambiente nas terras indígenas, além de atuar no controle e mitigação de possíveis impactos ambientais decorrentes de interferências externas às terras indígenas.
Compete também ao órgão estabelecer a articulação interinstitucional voltada à garantia do acesso diferenciado aos direitos sociais e de cidadania aos povos indígenas, por meio do monitoramento das políticas voltadas à seguridade social e educação escolar indígena, bem como promover o fomento e apoio aos processos educativos comunitários tradicionais e de participação e controle social.
A atuação da Funai está orientada por diversos princípios, dentre os quais se destaca o reconhecimento da organização social, costumes, línguas, crenças e tradições dos povos indígenas, buscando o alcance da plena autonomia e autodeterminação dos povos indígenas no Brasil, contribuindo para a consolidação do Estado democrático e pluriétnico.
Indígena na Presidência
Pela primeira vez em 55 anos de história a Funai [é] presidida por uma mulher indígena. A advogada Joenia Wapichana [está] à frente da Fundação. Joenia tem bacharelado em Direito pela Universidade Federal de Roraima (UFRR) e Mestrado em Direito Internacional pela Universidade do Arizona. Natural de Boa Vista, estado de Roraima, acumula uma longa trajetória de defesa dos povos originários. Ela foi a primeira mulher indígena a exercer a advocacia no país e também a primeira deputada federal indígena do Brasil.
NOTA: para atualizar esta noticia, eu (Graça Graúna) empreguei os verbos ser e estar, no presente (Cf. último parágrafo) com referência à data em que a advogada indígena Joenia Wapichana foi nomeada presidente da Funai em 01/01/2023.