Chirley Pankará: uma migrante indígena em São Paulo

 Foto cedida por Chirley Pankará
“O tempo é nosso mestre e nos mostra os sinais; é o espírito que orienta a luta”, diz o Pankará; povo que habita a Serra do Arapuá, no município de Floresta (PE). Segundo as informações da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), em 2010, o número de indígenas Pankará é de 2.558; dessa população, muitos se viram obrigados a migrar para outras regiões em busca de emprego e melhores condições de vida. A respeito dessa situação, o Instituto Socioambiental mostra o seguinte:
As dificuldades típicas das camadas empobrecidas do sertão fazem com que os indígenas, apesar da forte ligação cultural e religiosa com o seu território, migrem para Floresta ou grandes centros como Recife e São Paulo em busca de oportunidade de trabalho. A baixa escolaridade e a falta de qualificação profissional os colocam em desvantagem no mercado de trabalho com um destino já conhecido: as periferias urbanas ou retorno à Serra.
(…)
Diante desse contexto, as estratégias encontradas pelos indígenas eram continuar se deslocando para locais de difícil acesso e trabalhar como agricultores, pagando a renda para os “proprietários” das terras ou altos impostos à prefeitura municipal, a exemplo das Serras Umã e Arapuá, uma vez que todo pedaço do território no Sertão do Pajeú já estava de posse dos grandes latifundiários, os mesmos que exercem hoje o domínio político e econômico na região.
Para falar a respeito desse deslocamento, o Blog Tecido de Vozes (Blog TV) entrevistou Chirley Maria de Souza Almeida Santos (37 anos) – uma migrante indígena Pankará que vive na cidade de Mauá/SP.
Faz tempo que ela deixou o Nordeste, mas todo ano (sempre que possível) revê os parentes da serra Arapuá, em Floresta (PE). Ela faz parte do CONAMI – Conselho Nacional de Mulheres Indígenas – um grupo que é composto por mulheres das etnias Apurinã, Terena, Baré, Pankara, Karajá, Wajãpi, Bororo e Kaingang.
 Mulheres  do CONAIN
Chirley cursou pedagogia na Faculdade de Mauá – FAMA. O tema do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) refere-se aos povos indígenas no livro didático. Ela é pesquisadora da CAPES, junto a PUC/SP; nessa instituição, o seu tema de trabalho é o indígena no ensino regular de Mauá/SP. Chirley é conselheira e secretaria do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, em Mauá/SP e representante indígena no consorcio ABC e que tem como suplente Heitor Kaiowá.  Em meio a tantas atividades, Chirley é contadora de histórias e coordena a educação infantil junto ao povo Guarani, nas aldeias Krukutu, Tenondé porã ( Parelheiros) e Tekoa pyau (Jaraguá). 
A propósito da Lei 11645/08, espero que esta conversa com a parente Chirley se converta em subsídio para o ensino da história e da cultura indígena. Mas independente dessa Lei, é importante não esquecer que o tempo é nosso mestre, como diz a parente Pankará,  e assim vamos vivendo, vestidos de coragem para seguir a luta…
 Chirley e o Cacique José Fernandes da aldeia Tekoa pyau do Jaraguá.
Blog TV No século XVIII, o Marques de Pombal proibiu que o idioma Tupi fosse usado. Se possível, fale dos resquícios desse idioma entre os Pankará.
CHIRLEY PANKARÁ O povo indígena do Nordeste – exceto o povo Fulni-ô –  perdeu a língua {de origem] por imposição; com o povo Pankará não foi diferente. Aquele que falasse o idioma indígena era considerado “diferente” pelo não-indígena, era logo ameaçado de ser cortada a sua língua, pois para eles [o não-indígena] o povo indígena estava tramando contra os mesmos, em código.  
Blog TV  Entre os milhares e milhares de nordestinos que migram para o Sul em busca de emprego, de melhores condições de vida, estão os Pankararu (PE), os Fulni-ô (PE), os Potiguara (RN e PB) e os Pataxó (BA), entre outros povos indígenas.  Com o seu povo acontece o mesmo. Sendo assim, como foi a sua trajetória, o seu deslocamento da sua aldeia, em Floresta (PE), até São Paulo?
CHIRLEY PANKARÁ Está é a realidade do nordestino que, por falta de emprego por causa da seca que castiga o sertão, se desloca de suas terras em busca de melhores condições de vida; muitos deixam suas famílias a espera de um retorno satisfatório. A maioria do nordestino vem para São Paulo, acreditando que, aqui, alcançará seus objetivos, o que não deixa de ser verdade para alguns; que é o meu caso. Vim de Floresta, em uma situação não boa; aqui, encontrei no início, dificuldade; mas hoje estou em uma situação bem melhor.
Blog TV  O que é ser indígena na cidade grande (em São Paulo, por exemplo)?
CHIRLEY PANKARÁ É complicado. As pessoas, em geral, são preconceituosas; vivem dizendo que indígenas só em aldeia, que desconhecem a presença de indígenas no contexto urbano. Esta é uma situação desagradável, é como se tivéssemos que viver provando, o tempo todo, a nossa presença.
Blog TV  Observando bem o lugar que nos cerca, sobretudo na cidade grande, dá pra ver um indígena em cada esquina. Você acha que é absurdo pensar dessa maneira?
CHIRLEY PANKARÁ Eu vejo sempre um parente, mesmo que ele não se identifique para mim, mas é possível sim, desde que possamos enxergar o indígena além da forma estereotipada.   
Blog TV  A constante referência que você faz à sabedoria da sua avó Maria Divina, da sua mãe Socorro e da sua tia Calu no trato com as ervas é uma característica da visão de mundo Pankará. Como você aplica esses ensinamentos, em meio ao seu corre-corre na vida acadêmica, no seu trabalho como educadora entre os guarani e na relação com o seu marido e as suas filhas, no seu cotidiano?
CHIRLEY PANKARÁÀs vezes, devido à correria, me guio por meios mais práticos como levar a criança ao hospital quando ela está com febre; coisa que se eu fosse seguir os ensinamentos da minha tradição, curaria em casa com nossas ervas e nossos rituais; mas sempre que  sobra um tempo, procuro educar as minhas filhas com base nos meus ensinamentos de infância: transmito a dança, o canto, as rezas,  ervas, as histórias e o respeito com todos, em especial o dizem os mais velhos e os professores. Eles sempre têm algo para nos ensinar. Às vezes, deixo de fazer coisas consideradas urgentes para este mundo não-indígena, com o intuito de me dedicar a educação de minhas filhas, o futuro delas depende muito de mim e de minha orientação.
Blog TV  No dia a dia com as suas filhas (Emily e Laissa), como é a conversa a respeito da saudade dos parentes Pankará, em Floresta?
CHIRLEY PANKARÁ Nossa, nem me fale… a saudade é grande, estamos sempre falando de Floresta e os hábitos naturais do mato, a mina filha Emily vive me pedindo para ir embora morar com minha mãe, mas não sei se vou conseguir deixar ela ir; sinto muita falta delas também. 
Blog TV   Você esteve na região amazônica enquanto bolsista colaboradora em uma pesquisa da PUC/São Paulo. Com base nessa experiência, o que mais chamou a sua atenção no contato com os parentes indígenas dessa região?
CHIRLEY PANKARÁ O interesse deles para estudar. Quando perguntei para eles o motivo de tanta vontade de aprender a ler e escrever na língua portuguesa, a resposta foi unânime: eles responderam que querem aprender a lidar com o não-indígena, saber defender os próprios direitos; pois quando qualquer antropólogo, pesquisador etc., entrar em suas terras eles vão saber tratar de forma igual, sem ser enganado ou roubado.
Blog TV O que você tem a dizer da sua experiência junto ao Conselho Nacional de Mulheres Indígenas (CONAMI)?
CHIRLEY PANKARÁ Como conselheira do CONAMI, tenho aprendido muito com as outras mulheres, lideranças que militam a muito tempo e sempre nos ensina a militar com sabedoria, saber buscar os nossos direitos e nos fortalecer juntas nesta luta, é sempre grandioso estar com elas em reunião, e creio que também tenho contribuído com o meu saber, tanto formal quanto informal.
Blog TV  A sua relação entre os Guarani é de muito respeito e carinho. A foto em que você aparece com o macaco chico ao lado do Cacique José Fernandes (aldeia Tekoa pyau) é um exemplo dessa harmonia. Pode comentar a respeito?
CHIRLEY PANKARÁ O povo Guarani me recebeu de braços abertos, eu me batizei entre eles e ganhei o nome de Ara Poty, tenho um carinho e respeito muito grande por eles e não vou permitir que ninguém os engane, estou na luta com eles ; são um povo que amo de paixão.
Blog TV  Com base na Lei 11645/08, você já ministrou algumas Oficinas. Que sugestões você daria aos educadores para uma abordagem mais operatória em torno do assunto?
CHIRLEY PANKARÁ Em primeiro lugar, digo que busquem uma formação continuada neste sentido; pois é fato a diversidade em sala de aula. Então, não se pode fechar os olhos. Nesse sentido, auxilio na questão de não procurar em sala de aula o rosto que por muitos anos apareceu em livros; que vejam as diferenças indígenas, as diferenças regionais, a língua, a cultura; que tenham em mente que somos mais ou menos 230 povos diferentes e falantes de 180 línguas e outros que perderam sua língua por imposição do não-indígena. Somos indígenas, somos diferentes, porém iguais em direitos. Por fim, procuro auxiliar com planos de aula que valorizem todas estas questões, para que não seja desenvolvido um plano de aula preconceituoso.       

Indígenas mapuche decidem terminar greve de fome

Mpuche. Imagemextraída do Google

 Karol Assunção (Jornalista da Adital)
Os quatro indígenas mapuche presos no Chile decidiram, ontem (9), pelo fim da greve de fome que levavam desde o dia 15 de março. Ramón Llanquileo, José Huenuche, Héctor Llaitul e Jonathan Huillical passaram 87 dias em jejum em demanda de um julgamento justo.
Os indígenas terminaram a greve após um acordo com familiares, organizações de direitos humanos e integrantes da Igreja Católica de formar uma “Comissão pela Defesa dos Direitos do Povo Mapuche”. De acordo com declaração pública divulgada hoje (10) pela Comissão, o grupo atuará na promoção e na defesa dos direitos dos indígenas.
No documento, os integrantes do grupo chamaram o Governo para “um diálogo permanente e transparente “com o objetivo de garantir os direitos dos povos indígenas e de reformar a Lei Antiterrorista para adequá-la aos padrões internacionais de direitos humanos”.
“É de suma gravidade a estigmatização e discriminação que tem sofrido o Povo Mapuche por meio da aplicação de leis de exceção, tal como a Lei Antiterrorista. Dita lei tem sido amplamente condenada por não se ajustar aos padrões internacionais de um devido processo. Responsabilidade que, novamente, recai em todos os poderes do Estado, sem exceção, ao não derrogá-la ou reformulá-la, e outros por invocá-la e aplicá-la”, justificaram.
Tal Comissão está formada por: Fernando Chomalí, arcebispo de Concepción; Lorena Fríes, diretora do Instituto Nacional de Direitos Humanos; Amerigo Incalcaterra, alto comissionado das Nações Unidas para os Direitos Humanos; Pedro Ossandon, bispo auxiliar de Concepción; José Fernando Díaz, da Comissão Nacional da Pastoral Indígena da Zona Sul; Natividad Llanquileo e Millaray Garrido, porta-vozes dos mapuche; e Pamela Matus, familiar dos indígenas.
Mesmo com o fim da greve de fome, os quatro mapuche permanecem no Hospital de Victoria devido ao estado de saúde ainda frágil. Um informe médico divulgado na terça-feira passada (7) revelou que os quatro indígenas estavam com hidratação no limite e desnutrição severa. Em média, cada um perdeu cerca de 20 quilos.
Llanquileo, Huenuche, Llaitul e Huillical iniciaram a greve de fome no dia 15 de março em demanda de um “julgamento justo” e sem a aplicação da Lei Antiterrorista. Os quatro foram condenados, no dia 22 de março, a penas que iam de 20 a 25 anos de prisão por roubo com intimidação e pelo ataque ao fiscal Mario Elguete, em outubro de 2008.
Os indígenas, integrantes da Coordenação Arauco Malleco (CAN), questionam o julgamento realizado pelo Tribunal de Cañete pela utilização da Lei Antiterrorista – imposta pela ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) – e de testemunhas protegidas.
Na sexta-feira passada (3), a Suprema Corte de Justiça do Chile decidiu reduzir as penas dos indígenas. A sentença de Llaitul passou de 25 para 14 anos de prisão. Já os outros três líderes mapuche tiveram a pena reduzida de 20 para oito anos de encarceramento. A Corte, porém, rechaçou o pedido dos indígenas de anulação do julgamento.
Essa não foi a primeira vez que os quatro mapuche protagonizaram uma greve de fome nas prisões chilenas. Em 2010, os líderes, juntamente com outros 30 indígenas presos, passaram 81 dias em jejum pela não aplicação da Lei Antiterrorista no julgamento deles.

Retomada de terras indígenas em Mato Grosso do Sul

Imagem extraída do Google

Karol Assunção (Jornalista da Adital)
“A situação é complexa, continua o quadro de violência generalizada”. A afirmação é de Flávio Machado, coordenador regional do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) de Mato Grosso do Sul (MS) a respeito da questão do território indígena no estado da região Centro-Oeste brasileira. Cansados de esperar por uma solução governamental, os indígenas seguem com as retomadas de seus territórios com o objetivo de chamar atenção para a demarcação de suas terras.
De acordo com ele, a luta indígena pela recuperação de suas terras já acontece há mais de 30 anos e ficou mais forte após a Constituição Federal de 1988, a qual estabelece que os indígenas têm direito às terras e cabe à União demarcá-las.
Entretanto, mesmo com a mobilização e com a lei, muitos povos indígenas continuam tendo seu direito violado. Machado observa, por exemplo, um aumento de acampamentos indígenas nas rodovias do estado e da violência interna e externa principalmente nos últimos cinco anos.
Em resposta à morosidade dos processos administrativos de demarcação de terra e à demora dos processos judiciais para julgar as terras já identificadas e declaradas, mas que não estão ocupadas pelos verdadeiros donos, os indígenas iniciaram uma série de ações de retomada.
Para Machado, a ação dos indígenas revela que eles “perderam a paciência por passar tanto tempo esperando por uma solução, por ver suas lideranças sendo assassinadas”. Segundo o coordenador regional do Cimi, várias comunidades indígenas realizam ações de retomadas. No entanto, ao tentar retornar a terra, enfrentam situações de violência.
Na sexta-feira passada (3), por exemplo, um ônibus escolar com indígenas do povo Terena da Terra Indígena “Cachoeirinha” sofreu um atentado ao entrar na região da aldeia. De acordo com informações do Cimi, o veículo, que transportava cerca de 30 alunos, foi alvo de pedras e tentativa de incêndio.
No mês de abril, o povo Terena realizou duas ações de retomada no município de Miranda: uma na fazenda Charqueada, onde permanece em resistência, e outra na fazenda Petrópolis – propriedade do ex-governador do estado, Pedro Pedrossian -, de onde os indígenas saíram por conta de ameaças de grupos armados.
No mês passado, foi a vez dos Kaiowá Guarani retomarem parte de suas terras de Laranjeira Nhanderu, localizada em Rio Brilhante. A ação teve o objetivo de pedir a conclusão dos processos administrativos de demarcação. De acordo com informações do Cimi, essa foi a segunda tentativa de recuperação do território do povo Kaiowá, que estava desde 2009 acampado na BR-163.
Fonte: Adital