…sobre um “canto peregrino e mestizo”

Ilustração: indios kadiweu
Capa: Agnes Pires
          Nada de novo e tudo de novo. No baú de lembranças, reencontro as boas palavras escritas em 2001 por um amigo, acerca de “Canto Mestizo – meu primeiro livro de poemas. Trata-se das impressões do professor e amigo Antonio Viana que, agora, compartilha o andar de cima com Manuel Bandeira e Irene preta, com Drummond e Cecília Meireles e outros que se foram; mas que deixaram o brilho de sua simplicidade, sensibilidade e sabedoria.
Confesso que senti uma grande vontade de comemorar os 10 anos de “Canto mestizo”, isto é, meu filho de papel e tinta publicado em 1999, pela Editora Blocos, com o prefácio de Leila Miccolis, poetamiga. Pensei em reunir os amigos, ouvir musica, falar de literatura…. enfim, reconhecer que estamos sobrevivendo e que há dez anos me vesti de coragem para mostrar timidamente meu canto atravessado de blues e sol. Pensei em fazer tanta coisa, mas não deu. Contudo, só o fato de estar aqui para compartilhar o desejo de rever os amigos e falar de poesia já é uma conquista, porque a poesia é parte de tudo aquilo que me move. A poesia é possível, não acaba nunca. Enquanto houver poesia, há vida; há esperança. Basta não desistir.
Assim, sem mais delongas, tomo a liberdade de convidar a todos(as) para celebrar a palavra à luz do pensamento vivo de Antonio Viana.
Graça Graúna (indígena potiguara/RN), 18 de dezembro de 2009
Impressões sobre um “canto peregrino e mestizo”
Tentarei expressar nestas palavras minha surpresa e meu encanto ao descobrir a poesia de Graça Graúna no seu Canto Mestizo, apresentado em duas partes: na primeira vemos a autora mostrando-se como um haijin (poeta de haicai), unindo simplicidade, sensibilidade e sabedoria, em poemetos concisos, em três versos, como o faziam os antigos haicaístas. Fiel à estética e aos princípios desta forma poética, a autora cristaliza a instantaneidade do momento, a transitoriedade do sentimento, assim como a fugacidade do tempo através de imagens do dia, palavras, cores e sons do cotidiano, da maneira mais simples possível, como deve realmente ser um belo e autentico haicai. Aqui captamos toda a emoção, a sensação e o sentimento da poetisa apresentados como uma espécie de convite a um diálogo e encontro maior com a sua poesia.
Na segunda parte do livro, Graça, não como uma cotovia, mas como a própria Graúna, nos leva em suas asas, a revisitar espaços poéticos: Recife, Pasárgada, Lisboa, entre outros, na companhia de escritores e artistas de todos os tempos. O “Inventário amoroso” que inicia esta parte, abre-nos as portas ao universo poético-intertextual; partindo de Cervantes passamos por Hesse, Rilke, Neruda, Eliot, Borges, Bandeira, Ascenso, Pessoa, Régio, Mário, Quintana e outros mais.
Uma discreta e sentida homenagem é feita a autores-cantores que com o seu canto e a força de suas mensagens marcaram com uma gota de desespero toda uma geração: Janis Joplin, Victor Jara, Violeta Parra.
A temática do Canto Mestizo desdobra-se em várias direções; o descobrimento dos “brasis” e o destino incerto do nosso povo: o índio, o negro e o próprio mestiço, no dizer da autora “crias de um homem submerso”. Podemos ainda descobrir os mares literários por onde navega Graça Graúna, através das evocações, alusões e citações dos seus mitos poéticos e por fim penetramos num mundo pessoal, povoado de mágoas, desencontros, “esperanças pardas”, incerteza, ânsias, mas também de “riquezas infinitas”; mundo este que nos faz lembrar a poética ferida de Florbela Espanca.
O azul que colore os poemas de Graça assemelha-se ao azul que corre dos dedos de Cecília e “colore as areias desertas”, ao “azul ausente” de Carlos Pena Filho, tentando aprisionar na cor as coisas que lhe são gratas. Graúna pousa sua tristeza no azul quase preto, cor da ausência das cores, ausência de tudo. E parafraseando a autora no poema “Gênesis”, aqui termino afirmando:
Faça-se eco este “canto mestizo”!

Antonio Viana, Recife, 2001.

Nota: texto publicado no Overmundo

Nas asas da Graúna

Ilustração: José Carlos Lollo

Uma história que conta o passado, o presente e o futuro das gentes.

Uma historia que nos mostra o principio, o meio e o fim.

Nos traz a essência do que somos e o cuidado que temos que ter ao afundar nossos pés no solo sagrado que nos acolhe.

É preciso pisar macio para não desonrar o sagrado que há em cada um, trazido de onde mora a nossa ancestral memória.

Ser fiel exige coragem, desprendimento e afeto.

Ser fiel nos permite estar atentos somente àquilo que é legítimo e verdadeiro para não cairmos nas armadilhas e nos desviarmos do caminho. É saber silenciar o coração, a mente e viver com alegria o presente que mora em nós.

É isso que Graúna nos faz: ela nos coloca em suas asas e nos lembra que somos fios na grande teia da vida.

(Apresentação: Daniel Munduruku)

Ficha técnica

Editora Manole – São Paulo
ISBN – 9788520430576
Encadernação – brochura
Formato – 23 x 23
Ano – 2009
R$ 20,70

Nota: texto publicado no Overmundo

Recomende este livro: "Criaturas de Ñanderu"

Ilustração: José Carlos Lollo
O livro Criaturas de Ñanderu é um emocionante conto indígena escrito por Graça Graúna no qual uma garota com nome de pássaro, ao tornar-se adulta, ganha asas e sai de sua tribo para conhecer a cidade grande.
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“Graça Graúna, educadora e descendente da etnia Potiguara, apresenta o livro “Criaturas de Ñanderu”, que conta a história de uma bela índia que teve seu nome trocado pelo de um pássaro. O livro é uma publicação da Editora Amarylis, selo editorial da editora Manole.” (http://www.meupalco.com.br/, em 6 de outubro de 2009)
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Criaturas de Ñanderu
Editora Amarylis – um selo editorial da Manole / São Paulo

Sinopse:
Criaturas de Ñanderu, livro de Graça Grauna conta com sensibilidade e poesia uma história dos ancestrais, ouvida à noite pelas crianças da aldeia. Trata-se da história da mais bela cunhã, que teve o nome trocado por seu pai para um nome de pássaro. Um nome que se confundia com o nome de uma ávore. À noite, um velho sábio apareceu e disse a bela cunhã que ela deveria seguir esse seu destino, para proteger a ciência doseu povo, a sua aldeia, mas que deveria evitar se encantar com as belas mentiras das grandes cidades. Quando estava com seu povo, se podia perceber que os ombros dela se recobriam de uma vasta plumagem negra mas, quando saia da aldeia essa plumagem se transformava em belos cabelos negros para não atrair a atenção das outras pessoas. Assim seguia a cunhã sempre maior em graça e sabedoria, mas às vezes ela se deixava encantar pelas belas mentiras das cidades; então seu canto aparecia engaiolado…Para fugir dessa prisão, ela pensava nos grandes rios e florestas. Dizem que mesmo nos dias mais claros se vê alguns pássaros negros voando no céu azul e que quando, no frio , se vê alguma gaiola vazia, é porque um pássaro voltou para a liberdade.

Ano: 2009
Brochura32 páginas
23x23cm,
ISBN 978-85-204-3057-6