Visão cabocla: Quixote rural

Das ondas do mar à Nazaré da Mata (PE), vou tecendo o que me fica dos carnavais; das ruas de Recife às ladeiras de Olinda, o que me fica dos canaviais.
O instante, a cultura, o folguedo misturados ao ofício de escrever. Parece mesmo inevitável não falar do ofício de ser criador-criatura e neste patamar, quem conta e canta mesmo é o Mestre o improviso de suas loas (versos inteligentes) para alegrar os brincantes e as pessoas que vêm de muito longe; vem gente de Portugal e Espanha; de tudo que é lugar, até da Austrália para ver tudo de muito perto, como diz o Mestre.
Em Nazaré da Mata (a 65 km de Recife), conhecida como “Terra do maracatu“, 90 agremiações coincidentemente se encontraram para homenagear os 90 anos do Maracatu Cambinda Brasileira (nesse grupo fundado em 1919, o homem aparece fantasiado de mulher, isto é, o cambinda). Na seqüência, vale conferir os 17 maracatus de Nazaré da Mata e as datas de fundação: Leão Formoso (1980), Leão Misterioso (1990), Águia Misteriosa (1991), Leão de Ouro (1995), Cambinda Nova (1995), Leão da Selva (1996), Mirim Sonho de Criança (1997), Piaba Dourada (1999), Leão Africano (1999), Leão Cultural (2000), Águia de Ouro (2001), Estrela Brilhante (2001), Leão Brasileirinho (2002), Leão Nazareno (2002), Coração Nazareno (composto só por mulheres, fundado em 2004), Leão Faceiro (2005) e Leão Dourado (2006).
Lá vem o cortejo do maracatu rural ou maracatu de baque solto como é conhecido na região: a dama da boneca de trança, as damas do bouquê (baianas); babau, burra, caçador, catirina, caboclo de pena, Mateus, porta-bandeira, mestre de toada, contra-mestre, rei, rainha, valete, e caboclo(a) de lança em meio a multidão.
Lá vai ele e sua sombra com um cravo nos dentes; lá vem ela e sua dança no meio da tarde chuvosa. A passos largos, lá vem o cortejo no baque solto. Os lanceiros e as lanceiras abrem alas para proteger esse bailado. Nesse ritmo acontece o encontro no meio da praça de reis e rainhas: Eh…. tu-ma-ra-ca…tu-ma-ra-ca… no ofício de ser caboclo na dança, cabocla de trança, caboclo(a) de lança colorida. Caboclo de lança-palavra que a licença poética me permite chamá-lo de Dom Quixote rural.

Graça Graúna, Região da Mata Norte do Estado de Pernambuco, 04.fev.08.

Nota: no site Overmundo, esta crônica recebeu 161 votos

(*) Foto de Claudio Milfont

A propósito da moça com o livro

Moça com o livro. Reprodução do Jornal Folha de São Paulo,
em homenagem aos 60 anos do MASP.
Na semana dos 456 anos da cidade de São Paulo, a Folha de São Paulo publicou alguns encartes com reproduções (em papel couchê) de obras que fazem parte do acervo do Museu de Arte de São Paulo (MASP), tais como: o Pobre pescador, de Paul Gaugin; A canoa sobre o Epte, de Claude Monet; A bailarina vista dos bastidores, de Toulouse-Lautrec; O escolar, de Vicent Van Gogh; Rosa e Azul (as gêmeas), de Pierre-Auguste Renoir; Quatro bailarinas em cena, de Edgar Degas; Rochedos em L’Estaque, de Paul Cézanne e Moça com o livro, do brasileiro Almeida Junior (1850-1899). Um presente e tanto! Uma das reproduções chamou a minha atenção, mais pelo conteúdo; ainda que, na forma, o seu autor não seja considerado moderno. Segundo os estudiosos do assunto, esse pintor desenvolveu a arte de pintar mulheres e livros, destacando também os cabelos curtos das suas personagens; “o que até então no Brasil, eram práticas de estrangeiras ou prostitutas […] E, mesmo assim, ao retratar a ‘Moça com o livro’ ao ar livre, o artista se aproxima da prática impressionista que ocorria em Paris, no fim do século 19”, como sugere o texto do encarte da Folha de São Paulo (2008).

Passei um bom tempo contemplando a arte de Almeida Junior e fico me perguntando sobre o tempo que se leva para se reconhecer fazendo parte de um universo em que o ato de ler se confunde com amar e viver; crescer e provavelmente morrer de esperar; mergulhar ou abrir novos caminhos como quer a sensualidade do olhar, da boca pintada e da blusa branca decotada que se confunde com as páginas brancas ou escandalosas do livro; assim, como sugere a estreita relação entre a mulher e a literatura na pintura desse paulistano de Itu. Ao estabelecer também o confronto e as relações entre o ser e a leitura, esse artista revela ao mundo sua percepção em torno da condição feminina, para não esquecermos que até 1838 as mulheres eram proibidas de ler e para tanto, elas precisavam de autorização.

A propósito da mulher-leitora na pintura impressionista de Almeida Junior, reitero minhas impressões acerca da condição feminina em um depoimento meu no livro Retratos (antologia poética organizada por Elizabeth Siqueira e Laura Areias), onde relato que somos um feixe de acontecimentos. Desse modo, saudando a moça com o livro,

saúdo as minhas irmãs
de suor papel e tinta
fiandeiras
tecelãs
retratos que sonhamos
retratos que plantamos
no tempo em que a nossa voz era só silêncio

Graça Graúna (idígena potiguara/RN)

Nordeste do Brasil, 30 de janeiro de 2008

Literatura escrita por mulheres em Pernambuco

O cenário das Letras em Pernambuco conta com a realização de mais um projeto literário (poesia, conto e crônica) organizado por Elizabeth Siqueira (escritora mineira) e por Laura Areias (escritora portuguesa). No primeiro volume (intitulado Retratos) participei com poemas; no terceiro volume (intitulado Vozes: a crônica feminina contemporânea em Pernambuco) apresento a crônica “Memórias do cerrado” que está disponível neste blog, desde outrubro de 2007.
Do volume de Crônicas participam 50 escritoras: Alaide Correia Lima, Ana arraes, Ana Maria César, Ariadne Quintella, Cicí Araújo, Claudia Azambuja, Djanira Silva, Dulcita Brenand, Edna Alcântara, Eleonora Castelar, Elizabeth Antão, Esmeralda Moura, Ester lemos, Eugênia Menezes, Fátima Quintas, Graça Graúna, Graça Melo, Ina melo, Isnar Moura, Laura Areias, Lourdes Nicácio, Lourdes Sarmento, Lúcia Cardoso, Luciene Freitas, Luzilá Gonçalves, Luzinete Laporte, Marcia Basto, Margarida Cantarelli, Maria de Lourdes Hortas, Maria Lúcia Chiappeta, Maria Pereira, Marilena de Castro, Marly Mota, Maryse Cozzi, Nazareht Gouveia, Nelly Carvalho, Neuma Costa, Rejane Gonçalves, Renata Pimentel, Rosa Guerra, Salete Rego Barros, Selma Vasconcelos, Silvana Oriá, Suzette Abreu e Lima, Telma Brilhante, Tereza Halliday, Vera Sato, Virgínia Crisóstomo, Zuyla Cartaxo e Elizabeth Siqueira.
Na apresentação da obra, o escritor Flavio Chaves (Diretor Presidente da Companhia Editora de Pernambuco) observa que “Pernambuco é, de fato, um celeiro de boas profissionais liberais, de operárias, artesãs, artistas plásticas, poetas, cronistas, escritoras, todas elas, porém, não se descuram jamais, do seu papel de guardiãs da família, a sentinela avançada da unidade brasileira” (p.8). Para Lourdes Sarmento, responsável pelo prefácio da referida obra, “as cronistas que participam desta Antologia tendem para relatos memoralistas. Quer seja de acontecimentos das suas cidades de origem, das ruas que marcaram as brincadeiras da infância, os sonhos e descobertas na fase da adolescência ou da idade adulta” (p.12).
Para adquirir essa antologia escrevam para as organizadoras no seguinte endereço: cepecom@cepe.com.br
Graça Graúna (indígenna ptiguara/RN)