Quase divina comédia

O Beijo (1887), de Auguste Rodin
Quase divina comédia
Caminho na solidão
desço ao inferno
perdida no perdido
na selva de pedra escura
mergulho na solidão
e tudo me pesa.
Meus ombros já não suportam
as dores do mundo.
Encontros…desencontros…
e apesar de tudo
entre os caminhos
escolho o mais estreito
os mais tortuosos
e sigo, vislumbrando 
do mais fundo do poço
o clarão do olhar mais justo que me alcança
as mãos brandas em forma de pássaro 
a me socorrer.
Vislumbro o clarão onde faz morada
o coração justo
e penso: será o poeta Virgilio?
Ele também mergulhou na selva escura,
se deparou com o espírito do amor
e encontrou o seu caminho 
rumo à colina
sem culpa, sem dor
Nordeste do Brasil, 21 de setembro de 2014
Graça Graúna (indígena potiguara/RN)
 

O sentimento de transitoriedade em Cecília Meireles

Imagem extraída do Google
“No momento da tua renúncia 
estende sobre a vida os teus olhos 
e tu verás o que vias: mas tu verás melhor… 
e tudo que era efêmero se desfez. 
E ficaste só tu, que és eterno” (Cecília Meireles)

 
A intimidade de Cecília Meireles (n.1901+1964) com a morte começou desde cedo. Ainda criança, aos três meses, perdeu o pai. Aos três anos de idade, perdeu a mãe. O sentimento de transitoriedade moldou a sua personalidade, a ponto de perceber algo de positivo na solidão e no silêncio como sugere a profundidade da sua poesia. Em novembro, os fiéis leitores recordarão os 50 anos da morte da mulher que escreveu o Romanceiro da Inconfidência. Mas a poesia não morre, de tal forma que Cecília continuará nos cobrindo com o seu raio de luz; com os motivos que lhe fizeram poeta e pudesse cantar com suavidade e senso crítico os instantes; cada instante a nos lembrar, também, que por meio da poesia o ser humano pode tornar o mundo melhor, sem temer a necessária liberdade de expressão para externar as vontades e sentires que nos faz sentir mais vivos e, desse modo, (possivelmente nessa ordem) respeitar, amar e desejar o outro em todas as circunstâncias.
Graça Graúna (indígena otiguara/RN).
 
Retrato
 
 
Eu não tinha este rosto de hoje, 
assim calmo, assim triste, assim magro, 
nem estes olhos tão vazios, 
nem o lábio amargo.
 
Eu não tinha estas mãos sem força, 
tão paradas e frias e mortas; 
eu não tinha este coração 
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
_Em que espelho ficou perdida 
a minha face?
Cecília Meireles, Antologia Poética. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2001.