É muito gratificante para uma educadora reconhecer as marcas de sua teimosia, de suas exigências, dos ideais libertários, do respeito às diferenças; especialmente as marcas do direito de sonhar que passam a fazer parte da vida de alunos(as) e ou de ex-alunos(as), sobretudo quando enveredam pelo difícil, porém gratificante, caminho das Letras.
Porque é difícil o caminho, nunca é demais saudar os nomes que habitam as nossas estantes e que são parte de nossa alma: João Cabral, Drummond, Cecília Meireles, Quintana, Bandeira, Leminsk, França de Recife, Roland Barthes, Cervantes, Camões, Lorca, Umberto Eco, Alberto Manguel, Cloves Marques e uma infinidade de argilas pensantes que influenciam no jeito de ser e de viver.
Com licença, saúdo um nome que vem lá da Serra dos Ventos: um lugar encravado em Belo Jardim, Pernambuco, Nordeste do Brasil. Trata-se de Robervânio Luciano: um leitor atento, um guardador de sonhos que, em março de 2006, compartilhou de minhas reflexões sobre “hai kais” no Curso de Pós-Graduação em Língua Portuguesa e suas Literaturas, junto à Universidade de Pernambuco (UPE) Campus de Garanhuns e à Faculdade de Belo Jardim (FABEJA).
Numa conversa informal, nos intervalos das aulas, sugeri algumas leituras; a começar pelo mestre Bashô. Na ocasião, eu estava relendo (no original) 365 haicais de sol e chuva, do haijin Cloves Marques. Não conversamos sobre a vida do poeta, mas como o poeta fala da vida; de como o leitor também pode ser um grande observador (e por que não dizer, guardador do tempo?) a tal ponto, que 365 dias não bastem para falar de poesia, história, desigualdades sociais, morte, vida, direitos humanos, cidadania, identidade…Eis alguns exemplos da poética de Cloves Marques:Bem a luz do dia,
a fome assalta o homem.
A justiça espia.

Uma cuia d’água
à sombra do umbuzeiro,
o sol tudo espreita

Olhares-lamentos.
Ah! A boca da caatinga
come os pensamentos

Sim, pescar siri
no mangue, com Deus por todos,
cada um por si.

Um canto pungente.
O caçador viu o ninho,
visão inclemente.

Ribaçã à venda.
Na feira do tira-gosto
mera encomenda.

O riacho vai
com recados para o rio,
ao mar, um haicai.

Então, foi desse modo que surgiu um quase-roteiro que ora se transforma em importante contribuição de Robervânio à pesquisa literária; um estudo da literatura nordestina metamorfoseada em “hai-kais”. Por isso, cabe enfatizar que é, para mim, um prazer renovado o ato de refletir o ser e a poesia (de sol e chuva) em Cloves Marques.

Graça Graúna
Nordeste do Brasil

Um comentário sobre “Da Serra dos Ventos para as nossas estantes

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s