Foto: O Globo
          RIO – Visivelmente emocionado, o índio pataxó Ubirai, de 26 anos, subiu nesta manhã ao palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, no Centro da cidade, e entregou ao Papa Francisco um cocar feito com penas de garça e arara. O que Ubiraí não esperava era que o Pontífice colocasse o cocar na cabeça imediatamente.
— Foi muito emocionante – disse o pataxó, depois da cerimônia. – A gente planejava isso há muito tempo, mas eu nunca imaginei que ele colocaria o cocar na cabeça.
          Segundo Ubirai, a entrega do presente estava originalmente prevista para acontecer amanhã, na missa final da Jornada Mundial da Juventude – da qual ele também participará. Ubiraí diz que o cocar – que os índios chamam de aratacá – tem a função de ligar o homem a Deus.
          Além das penas de arara e garça, o cocar tem também um bordado especial que representa, segundo Ubirai, a resistência de sua tribo.
          O pataxó veio de Santa Cruz de Cabrália, no sul da Bahia, justamente da região onde aconteceu a primeira missa católica do país. Em 1986, o pai de Ubiraí já havia entregado uma lança de presente ao então Papa João Paulo II, quando o Pontífice polonês visitou a região. Segundo Ubiraí, a religião católica é perfeitamente compatível com sua cultura indígena:
— Para mim, a religião católica não afeta nossa cultura. A cultura de nosso povo está sempre em primeiro lugar.
          Ubiraí atua num projeto social em sua tribo e se esforçou com companheiros para viabilizar a vinda de 43 jovens índios para a JMJ.
— Fizemos pedágio, vendemos artesanatos, doces, fizemos rifa e conseguimos alguns patrocínios para vir a JMJ. Do nosso grupo, apenas seis já haviam saído da nossa região.
Parentes de Ubiraí são barrados no Teatro Municipal
Foto: Terra (reprodução)
 
          Na entrada do Teatro Municipal, um grupo de pataxós chegou a ser temporariamente barrado pelos seguranças do teatro porque estavam de chinelos e sem camisa. Para resolver a confusão, a diretora do Municipal, Carla Camurati, pediu aos índios que vestissem a camisa da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) para entrar no local:
— Isso é uma norma: não pode entrar de bermuda, nem sem camisa. Não foi uma lei que eu fiz – disse.
          A índia Suturiana Pataxó, irmã de Ubiraí, afirmou que se sentiu um pouco contrangida com essa obrigatoriedade.
— É constrangedor. A gente já entrou no Palácio do Planalto, conversou com a presidente Dilma (Rousseff) descalço e sem camisa. Obrigar a gente a por camisa gera constrangimento.
          O grupo acatou a recomendação e entrou no local com as vestimentas. Após o encontro com Francisco, Suturiana desafabou:
— O Papa deu uma aula de humildade, mas que às vezes essa humildade falta para as outras pessoas. O Papa não se importou de a gente estar sem camisa lá dentro — afirmou Suturiana Pataxó

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