Encontros, diálogos e intercâmbios nos cinco continentes promoverão durante o ano de 2021 um grupo de organizações indígenas e zapatistas com o apoio de numerosas coalizões e redes internacionais.
Através de uma breve mensagem divulgada no dia 1º de janeiro de 2021, no site Enlace Zapatista, o Manifesto convida “todos os homens honestos e todos os que se rebelam e resistem em muitos cantos do mundo” a aderir e participar desses encontros e atividades “
No continente europeu, os eventos estão previstos para ocorrer em julho, agosto, setembro e outubro de 2021. Nos outros continentes, a previsão é que ocorram em data posterior.
Delegação com representantes do Congresso Nacional Indígena – Conselho de Governo Indígena (CNI-CIG), Frente dos Povos em Defesa da Água e da Terra de Morelos, Puebla, Tlaxcala e Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN).
Apesar das diferenças nos movimentos e identidades que subscrevem, eles reconhecem que há uma unidade básica na identificação do capitalismo como o executor de um “sistema explorador, patriarcal, piramidal, racista, ladrão e criminoso”.
O Manifesto destaca a convicção de que existem muitos mundos que vivem e lutam no mundo. “E que qualquer pretensão de homogeneidade e hegemonia ameaça a essência do ser humano: a liberdade”.
“A igualdade da humanidade é no respeito à diferença. Em sua diversidade está sua semelhança”, indica o manifesto.
Assinam o manifesto numerosas articulações da Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Catalunha, Chipre, Escócia, Eslováquia, Europa, França, Grécia, Inglaterra, Irlanda, Nigéria, Noruega, País Basco e Portugal.
Conta com assinaturas da Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Equador, Estados Unidos, Itália, Peru, Portugal, República Tcheca, Rússia, Suíça, Togo, México e convida você a assinar e endossar a declaração PELA VIDA enviando um e-mail indicando: nome completo do seu grupo, coletivo, organização ou o que seja, no seu idioma e na sua geografia.
Nunca é demais reafirmar que nós indígenas existimos e resistimos. É disso que fala a poesia e a prosa (oral ou escrita) de autoria indígena no Rio Grande do Norte. Em cada roda de conversa, em cada ritual; em casa ou na Universidade; seja caminhando no asfalto das grandes cidades; nas margens dos rios ou no meio da mata, o nosso ser continua clamando por justiça e sobretudo agradecendo aos nossos Encantados e Ancestrais pelo que nós somos: filhos e filhas da Terra; herdeiros dos saberes que nos permitem reiterar o que aprendemos dos mais antigos: somos indígenas nessa terra de Tupã. Esta é uma grande verdade! E apesar dos preconceitos que mexem também com a nossa autoestima, aqui estamos! Nós Indígenas do Rio Grande Norte estamos sempre dispostos a ressignificar as perdas (desde a colonização até este tenebroso tempo de covid-19). Nós existimos e desde sempre intuímos que a Ancestralidade nos une. Então, sem medo de ser feliz, sigamos na Esperança de que alcancemos o direito ao Bem-Viver; o direito de contar a nossa própria história e de versejar a nossa ascendência milenar; pois nunca vamos esquecer o que somos.
Em tempo, para começar o ano de 2021 com espírito de resiliência; compartilho as boas palavras dos parent’amigos Cadu Araújo e Thiago Cóstackz (Indígenas do Vale, Coletivo Potiguara, em Ceará Mirim/RN).
Que Nhanderu/Tupã nos acolha!
Ameríndia, 30/12/2020
Graça Graúna (indígena potiguara/RN)
“Nossa logomarca foi inspirada em um dos mais importantes grafismos de nosso povo “A Resistência Potiguara”, nossa logo é um símbolo de nossa sobrevivência, luta e agora de nossa união” (Cadu Araujo).
ACREDITANDO NOS PRÓPRIOS PASSOS
A história contada sobre o Brasil possui várias lacunas. Uma delas é a resistência dos povos indígenas durante mais de 500 anos quando chegaram os invasores. Ao encontrarem riquezas, os europeus também entenderam quem eram os donos da terra. Mas com a mente guiada pela exploração, propriedade e lucro, desvalorizaram a diversidade de povos e culturas que existiam. De etnia em etnia, do litoral ao interior do Brasil, os invasores escravizaram, violentaram, dizimaram nossos ancestrais. Conduziram uma limpeza étnica e cultural, se apropriaram de nossos territórios e impuseram sua cultura de forma avassaladora. Porém, a resistência nunca cessou e hoje segue cada vez mais fortalecida.
O coletivo Indígenas do Vale surge do reconhecimento da ancestralidade como força que nos guia para retomarmos a luta de nossos guerreiros. Assim como falou Sapé Tiaraju “Ko yvy oreko hara” é preciso agora gritar novamente que essa terra tem dono, possui uma cultura, uma arte, cosmologia e saberes próprios que precisam ser resgatados e valorizados. A retomada do reconhecimento de nossa ancestralidade envolve pesquisas, investigações e diálogos. Exige uma verdadeira arqueologia dos nossos saberes e de elementos que nos unem à identidade desta grande nação do vale do Ceará-Mirim/RN. Estamos unidos com as comunidades indígenas do RN e agindo para fortalecer este movimento.
Sim, no Rio Grande do Norte há indígenas! Somos até agora 15 comunidades no estado que se reconhecem e enfrentam o processo de invisibilidade. Os saberes indígenas, seus modos de viver e pensar tem muito a nos ensinar e podem mudar o pensamento de uma civilização que ruma ao abismo se seguir na destruição da natureza e da diversidade.
Nesse contexto de etnogênese e resitência, o Coletivo Indígenas do Vale é uma organização sem fins lucrativos que reúne indígenas e descendentes no Vale do Ceará-Mirim/RN. Fundado em 2020 pelos pesquisadores e artistas Cadu Araujo e Thiago Cóstackz, ambos com família ancestral Potiguara da região. O Coletivo atuará nas localidades remanescentes indígenas de Rio dos Índios, Aningas, Lagoa Grande, Raposa, Maturaia e na própria cidade de Ceará-Mirim.
Decidimos unir forças juntamente com outras pessoas, profissionais, historiadores, linguistas, arqueólogos, geneticistas e artistas, a maioria deles com raízes indígenas no Vale, para restaurar a importância da auto declaração, o reconhecimento genético e a organização das comunidades indígenas do Vale do Ceará-Mirim. Através de ações culturais, oficinas e projetos especiais, em breve apresentaremos muitas pesquisas e novidades para sacodir essa terra de Tupã. Enquanto isso, seguimos na resistência, acreditando na importância e força da diversidade, fomentando a democracia de pensar e valorizando a sofisticada forma indígena de pensar, ver, sentir, estar e atuar no mundo.
Ceará Mirim/RN, 30/12/2020
Cadu Araujo
Parte VII
Imagem enviada por Cadu Araujo
THIAGO CÓSTACKZ: Potiguara (Ceará Mirim/RN). Multiartista, poeta, ativista ambiental; diretor e roteirista do livro/documentário “Caminhando sobre a terra“. Essas entre outras atividades lhe permitem viajar pelo mundo. No livro “O pássaro de fogo”, ele explora o tema da ancestralidade; assim como sugere o poema em destaque: ” O povo antigo”. Os trabalhos artísticos de Thiago podem ser acessados na Internet.
Em conversa com Thiago, por telefone, ele falou da pesquisa “Poesia indígena no Rio Grande do Norte”. Ele considera que “unir os parenetes e suas produções é uma forma de marcarmos que existimos e seguimos vivos com a nossa cultura e visão de mundo”. Thiago também chamou atenção para o fato de que as Academias precisam aceitar a produção científica e artítica dos povos indígenas; pois “já passou da hora de entenderem que a cultura indígena é sofisticada e complexa, longe do “primitivismo” que nos impõem”. Ao dialogarmos também sobre o impacto da Covid-19, ele fez uma observação muito importante:
“_Olha minha parente, uma coisa vai ficando clara a cada dia com assombrosa força: parece que nossos ancestrais estão nos unindo para restaurarmos sua antiga glória. Todos os dias fico impressionado como esse parece ser o melhor momento da quetão indígena desde que desarticularam nosso povo. Nunca tantos de nós se assumiram e estão juntos em mil projetos.”
Mais adiante, Tiago comenta que, na condição de ambientalista vem “avisando há muito tempo sobre colapsos como esse da pandemia. Mas estão ouvindo mais os povos indígenas; espero que possam aprender com o nosso povo e melhorar sua relaçao com essa Terra”.
NASCIMENTO (Manuel Serafim Soares Filho): nasceu na Aldeia Catu, no dia 18/11/1950. Indígena potiguara/RN, Filho de Manuel Serafim Soares e Maria Argentina da Silva. Artesão e inspirador do movimento de resgate da cultura indígena na comunidade do Catu. Como artesão, ele também fez grinaldas para funerárias e para o dia de finados. É autor de “Minha vida do passado”, isto é, a segunda parte do Cordel, publicado em parceria com o poeta Vando (Vandregercílio Arcanjo da Silva), com apoio da Fundação José Augusto.
Parte V
Foto cedida por Vando (potiguara/Catu)
Em 19 de abril de 2014, ao entrevistar o poeta Nascimento Soares, na Aldeia Catu (localizada entre os municípios de Canguaretama e Goianinha/RN), a historiadora Gildy-Cler Ferreira da Silva (2016, p. 29) registou na pesquisa “NÓS, OS POTIGUARA DO CATU”: emergência étnica e territorialização no Rio Grande do Norte (Século XXI), o seguinte depoimento:
“Me fortaleci, levei meu barco a frente para que hoje eu esteja aqui dizendo, “nós ainda somos índio” [barulho de maracá], né isso mesmo? Então, assim, isso é um dever, um direito nosso de dizer a vocês: eu sou Manoel Serafim Soares Filho, o popular Nascimento, um dos primeiros índios reconhecidos do Rio Grande do Norte”.
A pesquisa de Gildy-Clear (2016, p. 70) traz um recorte poético de Nascimento, nos seguintes versos:
Eu sou índio de verdade!
Quase ninguém acreditou.
Me entrosei pela cidade,
Mas voltei para o interior,
Quase na terceira idade,
Mas deus tupã me ajudou
CORDEL
MINHA VIDA DO PASSADO
NOTA: agradeço aos parenetes Vando e Meyriane por compartilharem os versos de Nascimento.
Parte VI
Foto cedida por Meyriane
Meyriane Costa de Oliveira mora na Aldeia Catu. Potiguara, descendente do tronco Pitangui (do grupo familiar Capim), em Estremoz/RN; lugar também da sua avó materna: dona Nizete Batista da Costa (85anos). Ela estuda no IFRN e na condição de artesã, “já liderou um grupo composto por aproximadamente 11 artesãos indígenas no Catu, função ocupada, atualmente, por Moisés Teodolino”, segundo Milton Bezerra (2017, p. 42), no livro Artesanato Potiguara/Editora IFRN. Em 26 de setembro de 2019, solicitei (por e-mail) que Meyriane me autorizasse publicar um de seus poemas neste blog. Ela, gentilmente, enviou os originais do seu livro do qual selecionei o seguinte poema:
CURA DA MATA
Entrega tudo de graça, com tanta graça
Veja só como é
Raízes fortes sugam a energia vital
Nos deixa seu exemplo,
Pra nos curar de qualquer mal
Urtiga branca, uma boa raiz,
Anti-inflamatória pra tudo
Guagirú, baixa colesterol e diabetes,
Bem emagrece!
O leite da mangaba pra gastrite não tem melhor
E a flor de boa noite branca, quem diria pra gripe