Poesia indígena no Rio Grande do Norte (I, II, III)

A literatra indígena contemporânea é um lugar utópico (de sobrevivência), uma variante do épico tecido pela oralidade; um lugar de confluência de vozes silenciadas e exiladas (escritas) ao longo dos mais de 500 anos de colonização. Enraizada nas orígens, a literatura indígena contemporânea vem se preservando na autohistória de seus autores e suas autoras e na recepção de um público-leitor diferenciado, isto é, uma minoria que semeia outras leituras possíveis no universo de poemas e prosas autóctones. (G.GRAÚNA, Contrapontos da literatra indígena… 2013, p.15).

Neste processo de reflexão, tomo a liberdade de apresentar o Projeto “O ser da poesia indígena no Rio Grande do Norte” que traz uma seleção de poemas que foram gentilmente compartilhados por autores e autoras do dos povos originários. O objetivo é fazer um mapeamento de escritores/as indígenas do Rio Grande do Norte e, também, por meio do texto poético, discutir uma série de questões indígenas; focalizando, entre outros aspectos, o problema da colonização e a imagem preconceituosa e equivocada a respeito dos povos originários (que habitam no Brasil e em outras partes do mundo).

Para uma melhor compreensão do jeito de ser e de viver dos povos originários, a poética indígena sugere: criada a poesia, fundamentada a história, a Ancestralidade pede que se leia Pindorama (Terra das palmeiras), Kuarup (Festa dos mortos), Nhanderú (Criador do Universo), Tupã (Criador do Universo), Ikoé (Ser diferente)… nomes e elementos sonhados, metáforas do tempo de Yvi Marãey (Terra semm males).

Nesse ritmo, sintam-se convidados, convidadas a intuir o que vem do Ser Potiguara, Tapuia do Ser Caboclos do Assu, em forma de prosa verso; destacando também os Jandui e Tarairiú: povos considerados “extintos” pela historiografa oficial. Entretanto, a grande discussão é, como observa a pesquisadora Andrielle Mendes (cf. depoimento pessoal, em 18/12/2020): “mas como podem estar extintos se há indígenas desses povos nesse aqui e nesse agora?” E nunca é demais reiterar o que em estudos anteriores afirmo que há milhares de anos, a vocação enuniativa dos povos indígenas ecoa como sinal de sobrevivência e continuará ecoando contra os conflitos gerados pela cultura dominante. Nós existimos! Não é à toa que em 1975, em Port Alberny/Canadá, quando foi proclamada a Declaraçao Solene dos Povos Indígenas do Mundo, um grupo de poetas de várias nações indígenas declaramaram os seguinte (G.GRAÚNA, 2013, p.72):

Nós, povos indígenas do mundo,
unidos numa grande assembleia de homens sábios,
declaramos a todas as nações:
quando a terra-mãe era nosso alimento,
quando a noite escura formava nosso teto,
quando o céu e a lua eram nossos pais,
quando todos éramos irmãos e irmãs,
quando nossos caciques e anciãos eram grandes líderes,
quando a justiça dirigia a lei e sua execução,
aí outras civilizações chegaram!

Com fome de sangue, de ouro, de terra e de todas as sua riquezas,
trazendo numa das mãos a cruz e na outra a espada
sem conhecer ou querer aprender os costumes de nossos povos,
nos classificaram abaixo dos animais, roubaram nossas terras
e nos levaram para longe delas,
transformando em escravos os “filhos do Sol”.

Entretanto, não puderam nos eliminar!
Nem nos fazer esquecer o que somos,
porque somos a cultura da terra e do céu,
somos de uma ascendência milenar e somos milhões.
Mesmo que nosso universo inteiro seja destruído,
Nós viveremos,

Por mais tempo que o império da morte!

Nesse ritmo, à luz da Declaração tecida na solidariedade dos povos originários, fica um pedido: por favor, Compartilhem a poética indígena do Rio Grande do Norte!!!!

Saudações indígenas,

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

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Parte I

CADU ARAUJO (Carlos Eduardo Araujo); potiguara, artista, educador, pesquisador das culturas indígenas e das artes xamânicas. Desenvolve estudos referentes a “Saberes da Tradição e Xamanismo”, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Realiza projetos artisticos e culturais no Goto Seco: Movimento Alternativo. Cadu Araújo também é membro do Coletivo Indígenas do Vale de Ceará-Mirim/RN.

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Parte II
Imagem: Andrielle Mendes
 Quebrar correntes  


 Antes, eu tinha medo de falar... 
 E lendo sobre o sexismo, 
 percebi que sentia medo de falar, 
 porque eu sou uma mulher 
 Lembrei das fogueiras e aquilo me queimou por dentro
 
 Antes, eu tinha medo de falar... 
 E lendo sobre o racismo, 
 percebi que sentia medo de falar, 
 porque eu era uma mulher racializada 
 Lembrei das correntes e aquilo que aprisionou por dentro
 
 Antes, eu tinha medo de falar... 
 E lendo sobre o capitalismo, 
 percebi que sentia medo de falar, 
 porque eu era uma mulher racializada empobrecida 
 Lembrei da fome e aquilo me devorou por dentro
 
 Antes, eu tinha medo de falar... 
 E lendo sobre o colonialismo, 
 percebi que eu sentia medo de falar, porque eu era uma mulher 
 racializada empobrecida colonizada 
 Lembrei dos laços e aquilo que amarrou por dentro
 
 Dos ventres espoliados de onde eu vim 
 Escorre um fio de fala desautorizada 
 Nasci para falar por mim 
 Mas também pelas ancestrais que em mim fazem morada

 Falo para dentro, 
 quando não me sinto autorizada a falar para fora 
 E falando para dentro... 
 Apago a fogueira da inquisição 
 Quebro as correntes 
 Sacio a fome por expressão 
 E desato os laços nos dentes. 

ANDRIELLE MENDES: potiguara, participa da equipe de Comunicação da Articulação dos Povos Indígenas do RN (Apirn). Em depoimento pessoal, Andrielle comenta que retomou a prática de escrever poesia, muito recentemente, ao longo da pesquisa de Doutorado sobre literatura indígena de autoria feminina, junto ao Programa de Pós-graduação em Estudos da Mídia, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

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Parte III
Foto: Clevisson Carvalho

FRANK LEMOS: poeta, pianista e ativista, descendente da etnia Tarairiú, lança em 2019 seu disco “Tarairiú” em retomada de sua ancestralidade, e está produzindo o livro de poemas “Ye-niewo” a ser lançado em 2021. Em campanha de financiamento coletivo, esse livro já  está à venda em seu formato PDF.

Histórias que vencem o tempo

O “Pai do Mangue”, a “Cumade Fulorzinha” (Mãe do Mato), “Sopinha e Cu de Fogo”, o “Batatão” e as “Bruxas de Coqueirinho” são histórias que vencem o tempo, sobretudo quando contadas por guardiões e guardiãs; assim, como acontece nas aldeias Jacaré de César e Três Rios, lideradas respectivamente pelos caciques Edilson de Lima (Tita) e  Joseci  Soares  da  Silva (Ci), do povo potiguara da Paraíba.

À luz da pesquisa “Tradicionalidade,  territorialidade  e   encantamento  no Pai  do Mangue”, de Milena Veríssimo Barbosa; a coletânea É história viva, num é história morta (publicada em PDF, pela Editora UFPB, 2020) foi organizada por Luciane Alves Santos, Maria Alice Ribeiro Gabriel, Michelle Bianca Santos Dantas e Milena Veríssimo Barbosa: pesquisadoras do Curso  de Licenciatura  em  Letras,  do  Centro  de  Ciências  Aplicadas  e  Educação  (CCAE),  da Universidade Federal da Paraíba. Entre as organizadoras, Milena Veríssimo (de origem Potiguara) buscou motivação na cultura do seu povo para desenvolver a pesquisa. Segundo consta na Apresentação da referida coletânea de narrativas orais:

o interesse  em  estudar  as  narrativas  orais  deve-se  ao  fato  de Milena   Veríssimo,   indígena potiguara,   ter   passado   a   infância ouvindo   os   contadores   de   histórias   da   Aldeia   Jacaré de César falarem  sobre  personagens  encantados,  a  exemplo  dos  relatos  de seu  bisavô, carinhosamente  chamado de “Pai  Neco”, que narrava casos da    Cumade Fulorzinha, do Batatão, Pai do Mangue, experiências de vida e memórias da tradição” (p. 10).

A transcrição das entrevistas gravadas por Veríssimo, em áudio, contou com a colaboração de Michele B. S Dantas (Professora Adjunta do Departamento de Letras, UFPB). Foram entrevistados “dois homens e três mulheres com  idade entre  64  e  81 anos,  [que] vivem  há  muitos  anos  nas  aldeias  Jacaré  de César e Três Rios” (p. 12). Ao longo de dois meses (março e abril de 2020) a pesquisa foi interrompida pela Covid19. Não foi nada fácil o processo de elaboração do livro durante a pandemia. As organizadoras da coletânea observam que o processo faz parte de um momento histórico “de apreensão e incerteza para os povos indígenas do país, devido a graves desastres ambientais e às perdas humanas causadas   durante   a   Pandemia,  cuja   extensão   não   é   possível mensurar ou reparar por completo” (pp. 11-12).

Nessa coletânea, as pesquisadoras comentam que a colaboração no campo de obras literárias e de publicações científicas entre o meio acadêmico e os povos originários ainda é muito recente no Brasil; elas fazem também referências a estudiosos e estudiosas, pensadores e pensadoras, autores e autoras da literatura contemporânea escrita por indígenas no Brasil:  

Entre   os   autores   mais conhecidos   encontram-se   Daniel   Munduruku,   com   mais   de   50 títulos  no  campo  da  literatura  para  crianças  e  jovens,  seguido  de Ailton   Krenak,   Álvaro   Tucano,   Arão   da   Providência   Guajajara, Cássio  Potiguara,  Cristino  Whapichana,  Darlene  Taukane,  Edson Brito,   Edson   Krenak,   Eliane   Potiguara,   Ely   Macuxi,   Florêncio Almeida   Vaz,   Graça   Graúna,   Naine   Terena,   Olívio   Jekupé,   Roni Wasiry   Guará,   Tiago   Hakiy,   Yagrarê   Yamã,   dentre   outros.” (pp. 14-15)

Entre as abordagens críticas da coletânea, cabe sublinhar o pensamento do ativista Ailton Krenak. Ao denunciar o preconceito e o estereótipo que os saberes indígenas sofrem, o líder Krenak enfatiza que a literatura indígena escrita; “a literatura indígena em papel é uma tradução de narrativas ricas, complexas e profundas no contexto original de produção” (p. 19).

Apesar dos tempos obscuros marcados pela Covid19, essa coletânea de narrativas do povo potiguara da Paraíba traz a beleza dos saberes ancestrais compartilhados pelos narradores Orlando Soares de Lima, 67 anos, morador da aldeia Jacaré de César e o Cacique Josecí Soares da Silva, 64 anos, morador da aldeia Três Rios;  pelas narradoras Dona Izabel Veríssimo de Lima, 65 anos e Dona Maria Matutina Soares, 81 anos: ambas moradoras da Aldeia Jacaré de César e Dona Zita, 66 anos, moradora da aldeia Três Rios.

Nessa perspectiva, aqui fica o convite para criarmos pontes entre a oralidade e a escrita; um convite para acolher a literatura indígena, isto é, uma manifestação que implica um conjunto de vozes de autores que testemunham “de memória” as histórias cotadas pelos mais velhos e por todos/as que não abrem mão da ancestralidade; pois ao dar voz à memória, estamos (coletivamente) perpetuando a tradição.

Cinema indígena no Festival de Brasília

Curta potiguar “Katu” será exibido no Canal Brasil em Festival de Brasília

Fonte: Saiba Mais > Agência de Reportagem (RN)

Reportar: Isabela Santos, em 9/12/2020

Fotos: Rodrigo Sena

“O filme tem uma força pela escolha da narrativa e seus personagens com conflitos urgentes”, explica Rodrigo Sena, diretor e roteirista do curta “A Tradicional Família Brasileira – Katu” (2019). O trabalho documental que tem como protagonistas personagens do povo potiguara, do Rio Grande do Norte, é um dos selecionados para o 53º Festival de Cinema de Brasília.

O festival teve 801 filmes inscritos para a Mostra Oficial de Curtas com seleção de 12 vídeos. O evento será transmitido pela primeira vez nacionalmente, pelo Canal Brasil (Mostra Oficial de Longa-Metragem) e na plataforma de streaming Canais Globo (Mostras Oficial de Curtas e Brasília) entre os dias 15 e 20 dezembro e as premiações somam mais de R$ 400 mil. Dia 21 de dezembro, às 20h, a cerimônia de premiação será transmitida pelo Canal do Youtube do 53º FBCB.

A equipe organizadora do festival considera que os escolhidos indicam a quebra de hegemonia de narrativas masculinas, brancas e de polos centralizadores de poder. Com cinco representantes do Nordeste (BA, RN, MA, CE e PE), dois do Sul (SC, PR) e cinco do Sudeste (RJ, ES, SP e MG), e apresentam diversidade tanto na produção quanto nas temáticas.

Este será o 30º festival de Katu, que já foi contemplado neste mês de dezembro três vezes: com a principal premiação do Festival de Cinema Ambiental de Goias – FICA; com prêmio do GeoFilmeFestival, na Itália; e menção honrosa no Circuito Penedo de Cinema em Alagoas.

De acordo com o diretor, “A Tradicional Família Brasileira – Katu” começou a circular em festivais internacionais, depois, aos poucos, foi recebido nas mostras brasileiras. E assim, criou vida própria.

“Claro que sempre queremos o melhor para o filme, porém ele tem vida independente e nunca sabemos como vai ser a receptividade e a repercussão. Estamos trabalhando com seriedade, tem sempre uma equipe que faz o trabalho pesado do filme, essa e a hora de colhermos o que plantamos”, conta Rodrigo Sena, ao ressaltar que sua ideia de cinema é sempre abordar questões sociais e que “possibilitem outro ponto de vista que não seja do colonizador”.

A comunidade Eleotério do Katu, na divisa dos municípios de Canguaretama e Goianinha, possui a única escola indígena do Rio Grande do Norte e serviu de inspiração para o curta.

Rodrigo Sena fotografou o povoado em 2007 para reportagem publicada no Dia Nacional do Índio pelo jornal Tribuna do Norte. Anos depois, resolveu voltar lá para conferir como estava a vida das crianças que havia encontrado anteriormente.

A realização do filme é da ABOCA Audiovisual, Ori Audiovisual e Studium Produções e foi viabilizado com patrocínio da Prefeitura do Natal, BRDE, FSA e ANCINE, por meio do edital Cine Natal.

A Tradicional Família Brasileira KATU

Sinopse: Em 2007 é produzido um ensaio fotográfico em reconhecimento aos povos originários Potiguaras, retratando doze adolescentes pertencentes ao Eleutério do Katu (RN). Doze anos depois, o fotógrafo volta ao Katu em busca desses protagonistas, hoje já adultos, para saber sobre suas trajetórias pessoais e suas visões de mundo.
Gênero: Documentário
Ano: 2019
Origem: Natal (RN)
Duração: 25 minutos
Classificação: Não recomendado para menores de 12 anos

Ficha Técnica:

Argumento, Direção E Roteiro: Rodrigo Sena
Produção Executiva: Arlindo Bezerra
Direção De Fotografia: Júlio Castro
Som Direto, Mixagem e Desenho De Som: Jota Marciano
Consultoria, Montagem e Finalização: Rodrigo Fernandes
Produção: Ernani Silveira
Assistência de Câmera: Gustavo Guedes
Fotografia Adicional: Rodrigo Sena
Imagens Aéreas: Caio Guerra
Maquinista: Hallison H2l
Trilha Sonora: Toni Gregório E Tiquinha Rodrigues
Designer: Rodrigo Palmares
Elaboração Do Projeto: Diana Coelho
Tradução Inglês: Julian Cola
Tradução Espanhol: Beatriz Brooks Yance
Audiodescrição e Legendagem: Rafael Garcia E Beth Garcia Voz
Audiodescrição: Arlindo Bezerra

FBCB

Vitrine do cinema político no país, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB) travou batalhas contra governos autoritários e políticas de desmonte ao audiovisual ao longo das 53 edições.

Em 2020, diante da pandemia, o evento esteve, como a maioria dos eventos culturais, na iminência de ser cancelado. Seria interrompido mais uma vez. De 1972 a 1974, foi censurado pela ditadura militar.

Neste momento tão atípico, a parceria com o Canal Brasil é uma oportunidade para que um número maior de pessoas possa acompanhar a exibição dos filmes, desta vez com alcance nacional. Os 30 filmes selecionados para as mostras Oficiais de Longa e Curta e a Brasília apontam para o cinema contemporâneo brasileiro que se apropriou de suas narrativas para firmar uma identidade. Há filmes de todas as regiões do país.

Em torno da exibição, o FBCB terá, como um dos pontos altos, o encontro com o diretor britânico Ken Loach, sobre “o cinema como ferramenta política”, mediado por Silvio Tendler. Expoente do cinema político contemporâneo, o autor de Eu, Daniel Blake (2016) estará, ao vivo, numa sala virtual, no dia 16 de dezembro, das 11h às 12h, com transmissão para o Canal do YouTube da Secec.