Ailton Krenak vence o prêmio de intelectual do Ano

Ailton Krenak, no Congresso da Abralic/UFU.
Crédito da foto: G.Graúna

Apesar da pandemia, as notícias sobre literatura indígena ganham destaque. No início de setembro de 2020 foi noticiado o nome do vencedor do Premio Nacional de Literatura no Chile: Elicura Chihuailaf (povo mapuche)1. Da sua manifestação artística, cabe sublinhar que a sua poesia fala do sonho que se escuta ao pé da fogueira ou do fogão; dos diferentes sabores que exalam da terra; do cheiro da mata e do estrondar do trovão, como sugerem os versos do livro “Sonho azul”, do poeta mapuche. Para saber mais da poesia de Elicura, confira a resenha neste blog. No Brasil, a literatura indígena também ganhou destaque. Na segunda quinzena de setembro, a União Brasileira de Escritores (UBE) anunciou que o prêmio de intelectual do ano foi concedido ao indígena Ailton Krenak: ambientalista, escritor e uma das maiores lideranças do movimento indígena no Brasil.

Krenak: literatura e indignação

Entre as contribuições de Ailton Krenak, o livro “Ideias para adiar o fim do mundo” questiona “a forma que os brancos adotam para viver, abrindo mão da liberdade de estar em contato e em harmonia com a natureza”2. Esse livro foi destaque no Globonews, em 2019. Ao ser entrevistado nesse canal, Krenak falou da relação que algumas culturas mantêm com o sagrado. Nesse contexto, ele destacou a maneira como o Rio Ganges é respeitado pelos indianos e falou com indignação sobre o desrespeito e o descaso com que os rios são tratados no Brasil.

Sobre o ativismo de Ailton é importante ressaltar a participação desse líder na Assembleia Nacional Constituinte, em setembro de 1987; uma Assembleia marcada pela defesa da Emenda Popular da União das Nações Indígenas e pelo discurso histórico de Ailton, ao denunciar a política anti-indígena. É fundamental o pensamento de Krenak para a compreensão do nosso papel no mundo. Não é à toa que ele indaga sobre o que justifica ser parte de uma humanidade em que mais de 70% parece totalmente alienada do exercício de ser. A resposta de Ailton aponta para a desenfreada modernização, entre outras questões que quase ninguém vê:

O que a literatura indígena tem a dizer nesse tempo de pandemia?

A modernização jogou essa gente do campo e da floresta para viver em favelas e em periferias, para virar mão de obra barata em centros urbanos. Essas pessoas foram arrancadas de seus coletivos, de seus lugares de origem, e jogadas nesse liquidificador chamado humanidade. Se essas pessoas não tiverem vínculos profundos com sua memória ancestral, com as referências que dão sustentação a uma identidade, vão ficar loucas neste mundo maluco que compartilhamos.3

Na quarentena do corona-vírus, as redes sociais contribuíram para a divulgação de livros escritos por indígenas. Desses livros, citamos:  “A vida não é útil”. O autor adverte que “civilizar-se” não é um destino; ele critica “consumidores do planeta” e questiona a própria ideia de sustentabilidade, vista por alguns como panaceia.

O que a literatura indígena tem a dizer nesse tempo de pandemia?

Na quarentena do corona-vírus, as redes sociais contribuíram para a divulgação de livros escritos por indígenas. No livro  “A vida não é útil”, o autor adverte que “civilizar-se” não é um destino; ele critica os “consumidores do planeta” e questiona a própria ideia de sustentabilidade, vista por alguns como panaceia.

No formato e-book, disponível de forma gratuita, “O amanhã não está à venda” alerta que “a pandemia da Covid-19 obriga o mundo a reconsiderar seu estilo de vida”.

As contribuições do autor indígena se transformam em convite para as pessoas combaterem o consumismo; o racismo, a discriminação racial e outras formas de intolerância. Nesta perspectiva – ao refletir acerca da relação entre literatura e direitos humanos no pensamento de Krenak –  faz-se necessário sublinhar as palavras de Antonio Candido: “a literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povo e não há homem que possa viver sem ela”4.  

Sobre a manifestação poética em Ailton, considero importante compartilhar os versos que ele enviou (em depoimento pessoal, por telefone). Trata-se do poema intitulado “Um outro céu”; do ser indígena que evidencia a inquietação, a incerteza nas dobras do tempo que atinge todos em tempos de pandemia.

Para “concluir” esta breve reflexão, torno a perguntar: o que a literatura indígena tem a dizer nesse tempo de pandemia?

A sociedade dominante tem muito a aprender com os povos originários. Pensando assim, reitero o papel da memória vinda dos povos indígenas; falo da importância que é o plural da voz do texto, porque é do coletivo que brota a esperança da terra. É esta a impressão que sempre carrego, quando escuto e leio as histórias, os cantos, os rezos xamânicos, a poesia que fazem parte do jeito de ser e de viver dos povos originários; quer seja na apreensão dos saberes historicamente construídos; na afirmação dos valores ancestrais e na luta de cada dia pelo fortalecimento da identidade, entre outros direitos indígenas; enfatizando, aqui, a demarcação de território.

Ameríndia, 29 de setembro de 2020

NOTAS

  1. Para saber mais, confira a resenha “Elicura, poeta mapuche…”, disponível em: https://gracagrauna.com/2020/09/12/elicura-poeta-mapuche-premio-nacional-de-literatura-2020/
  2. Entrevista ao site Amazônia real. Disponível em: https://amazoniareal.com.br/. Acesso em, 29/09/20.
  3. GRAÚNA, Graça. Literatura indígena: espaço de (re)construção, resistência e protagonismo na produção cultural brasileira. In: SESC. Educação em rede, vol. 7, Rio de Janeiro: Sesc, 2019, pp. 106-120.
  4. CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In; ______. Vários escritos. 3. ed. São Paulo: Duas Cidades, 1995, p. 242.

Porque cantamos: Mário Benedetti

Benedetti, no Café Brasil, em Montevidéu/1997
Crédito: https://1poesiapordia.tumblr.com/

Porque cantamos

(Mário Benedetti)

Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel

você perguntará por que cantamos

se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza
e o coração do homem se fez cacos
antes mesmo de explodir a vergonha

você perguntará por que cantamos

se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram as árvores e céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro

você perguntará por que cantamos

cantamos porque o rio está soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino

cantamos pela infância e porque tudo
e porque algum futuro e porque o povo
cantamos porque os sobreviventes
e nossos mortos querem que cantemos

cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos nessa gente
e porque venceremos a derrota

cantamos porque o sol nos reconhece
e porque o campo cheira a primavera
e porque nesse talo e lá no fruto
cada pergunta tem a sua resposta

cantamos porque chove sobre o sulco
e somos militantes desta vida
e porque não podemos nem queremos

deixar que a canção se torne cinzas.

NOTA:

Hoje, 14 de setembro de 2020, o poeta urguguaio Benedetti completaria 100 anos. A poesia continua se perguntando: “Por que cantamos?” E apesar desses tempos sombrios,  opto por responder o que sugere a poesia: “…cantamos porque o grito só não basta […] e porque venceremos a derrota….”. Viva a poesia! Viva Benedetti, sempre.

Ameríndia, 14/09/2020

Graça Graúna (potiguara/RN)

Elicura, poeta mapuche: Prêmio Nacional de Literatura 2020

Elicura, poeta mapuche: Prêmio Nacional de Literatura 2020

Elicura Chihuailaf

(Crédito da foto: Graça Graúna)

Em meio a tantas notícias ruins que correm pelo mundo, sobretudo nesse tempo de pandemia; algo de muito positivo aconteceu no início de setembro de 2020. Até me atrevo a dizer, com licença poética, que o céu pareceu mais azul; um sonho azul com aroma primaveril e que nos leva à poesia mapuche.

Sim, um sonho azul do poeta Elicura Chihuailaf, o primeiro indígena mapuche vencedor do Prêmio Nacional de Literatura do Chile. Os jornais de vários países destacam a tradição oral e o universo poético e a cultura do povo mapuche que habitam nos livros de Elicura.

Em 2014, o III Caxiri na Cuia, isto é, um encontro de escritores e artistas indígenas coordenado por Daniel Munduruku e promovido pela Universidade de São Carlos (Ufscar), contou com a participação de Elicura, do escritor canadense Cash Ahenakew e de vários escritores e intelectuais e indígenas brasileiros. Esse evento realizou-se na Universdade de São Paulo (USP), onde foi lançado o livro “Sonho azul” de Elicura; numa edição alternativa compartilhada com os parentes indígenas que participaran do referido evento.

Edição alternativa do livro “Sonho azul”

Esse livro foi traduzido em português por Patrícia de Moura Leite, e encadernado em folhas de papel sulfite azul, junto ao Grupo de Pesquisa LEETRA, da Universidade de São Carlos (Ufscar). O título do livro do parente mapuche é também o nome do poema (Sonho azul), do qual apresentamos o fragmento que seque:

A casa Azul em que nasci está

situada em uma colina

rodeada de hualles*, um salgueiro

nogueiras, castanheiras

um aroma primaveril no inverno

_ um sol com a doçura do mel  de ulmos _

chilcos rodeados a sua vez de beija-flores

que não sabíamos se eram reais

ou visões: Tão efêmeros!

No inverno sentimos cair os carvalhos

partidos pelos raios

Nos entardeceres saímos, abaixo de chuva

ou ao redor, a buscar as ovelhas

(às vezes tivemos que chorar

a morte de algumas delas

navegando sobre águas)

Pela noite ouvimos os cantos

contos e adivinhanças

à beira do fogão

respirando o aroma do pão

modelado pela minha avó

minha mãe e tia Maria

enquanto meu pai e meu avô

_ Lonko/Chefe da comunidade_

observavam com atenção e respeito.

 *hualles, aroma, chilcos: árvores

Acerca da premiação de Elicura, cabe sublinhar as palavras de Consuelo Valdés, Ministra da Cultura do Chile. Conforme o Correio Popular (https://correio.rac.com.br/), a Ministra Valdés ao anunciar o prêmio enfatizou a capacidade do poeta mapuche:

[por] instalar a tradição oral de seu povo em uma escrita poderosa que transcende a escrita mapuche […] valendo-se de uma expressão muito própria, ele tem contribuído de forma determinada para difundir seu universo poético pelo mundo, ampliando a voz de seus ancestrais da contemporaneidade

Segundo o Correio Popular (https://correio.rac.com.br/ ), o poeta Elicura faz parte do grupo de escritores que surgiu após o golpe de Augusto Pinochet em 1973, uma geração marcada pelo exílio.

Os noticiários mostram que os textos de Elicura são originalmente redigidos em castelhano e mapudungun (língua mapuche), e traduzidos para dezenas de línguas, nos quais também se destaca o apelo à conversa como única forma de entendimento com os povos indígenas.

Escritores indígenas
No sentido horário:  Edson Krenak, Cash Ahenakew, Elicura e Graça Graúna
(Acervo de Graça Graúna)

A poética de Elicura denuncia a sua condição de indígena exilado. Na entrevista ao site “Crítica.Cl”, o parente mapuche comenta que apesar do deslocamento, a poesia revela que a cada dia ele “aprende a apreciar o que significa habitar no meio de uma diversidade tanto na natureza quanto entre os homens”.

Ameríndia, 10 de setembro de 2020

Graça Graúna

(mulher indígena potiguara/RN)