Caos climático

Floresta em chamas. Imagem extraída do Google.
É temerário descartar
a memória das Águas
o grito da Terra
o chamado do Fogo
o clamor do Ar.
As folhas secas rangem sob os nossos pés.
Na ressonância o elo da nossa dor
em meio ao caos
a pavorosa imagem
de que somos capazes de expor
a nossa ganância
até não mais ouvir
nem mais chorar
nem meditar,
nem cantar…
só ganância, mais nada.

É temerário descartar
a memória das Águas
o grito da Terra
o chamado do Fogo
o clamor do Ar.

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)
Nordeste do Brasil, 21 de março de 2014. 

 
Nota: este poema escrevi em 14 outubro de 2009. O assunto, como se vê, infelizmente continua a nos entristecer. Pelo dia de hoje, pelo sofrimento da Mãe Terra; juntemos nossas mãos e nossas vozes pra salvar as florestas.

O zen da poesia em construção

 
Árvore pássaro. Escultura: Leno. Foto: Graça Graúna
 
O cosmo é poesia
a energia é poesiae quando se misturam razão e coração
tudo depende do modo que a gente vê:

um monte de gente pequena
fazendo cata-ventos de papel

parece uma nova tribo: Íris, Caio, Davi
Rudá, Mariana, Ian, Iasmin e Nina

e tudo depende
do jeito que a gente vê:

um caracol voando e uma rã pulando
de-va-ga-ro-sa-men-te

uma estrela do mar
e um cavalo no azul marinho

o cochilo do pássaro
e uma nuvem passando

a bailarina do circo
e um pônei dançando

uma casa na árvore
e um boizinho pastando;

um arco-íris no jardim
ou uma flor na janela

uma montanha de sonhos
um castelo de areia
 
ou uma casa de pássaros
como quer a poesia
 
tudo pode ser poesia
depende do jeito de ver

o poder a mágica
que a palavra pode ter
 
 
Graça Graúna (inddígena potiguara/RN)
Nordeste do Brasil, 14 de março. Dia da poesia.

Fen’Nó: somos a raiz da esperança

 
Não conheci dona Ana da Luz Fortes do Nascimento(Fen’Nó), essa guerreira da nação Kaingang, mas seu pensamento me vestiu de coragem pra enfrentar também os desafios do meio acadêmico.
Foi em março de 1999 que eu vi a reportagem de capa do Jornal Porantim dedicado a uma anciã kaingang; uma homenagem pelo dia da mulher. Quando li as palavras de  Fen’Nó, no Jornal Porantim,  intui que eu deveria – a partir de então – compartilhar o seu pensamento com os meus alunos e com todos interessados pela nossa cultura.
Aprendi com Fen’Nó que nós mulheres indígenas “somos fecundas. (…) Somos a multiplicação  das lutas como a terra multiplica o cereal plantado. Somos a raiz da esperança”. Hoje, tomei conhecimento que Fen’Nó habita agora entre as estrelas. Tenho certeza que Fen’Nó está bem pertinho de Ñanderu, intercedendo por todos nós e multiplicando a nossa esperança de um mundo melhor.
No meu livro “Contrapontos da literatura indígena contemporânea..”, dedico o cap.3 à poesia escrita por mulheres indígenas e é justamente nesse capitulo que o pensamento de Fen’Nó me guia para relatar um pouco da nossa cultura indígena.
A luta continua, Fen’Nó..
Que Ñanderu nos acolha,
Nordeste do Brasil,
Graça Graúna (indígena potiguara/RN)