“Escrever é expressar quem a gente é”

Randra K. B. Barros:

Nasci e fui criada na Ilha de Itaparica/BA. A maior parte da minha infância aconteceu em um lugar muito especial: o quintal. Gostava de brincar correndo no mato, subindo na mangueira, coqueiro e bananeira.

Muitas vezes a gente brincava de pega-pega e esconde-esconde, no quintal e na ladeira de casa. Lembro também dos sabores mais fortes da minha infância: o cuscuz com o coco colhido do quintal; e a moqueca de peixe mussambê.

Mural do Mercado Municipal de Itaparica/BA. Foto: Randra K. B. Barros

Sempre fui muito observadora e via o trabalho duro de pescadores e marisqueiras, uma atividade comum na minha terra. Da minha família, apenas a minha tia às vezes se arriscava a pescar. Lembro que ela tinha um jereré, que é um tipo de rede de pesca; e um cesto grande, onde colocava alguns siris catados e o marisco chumbinho. Mainha também fazia moqueca com esse chumbinho. Ainda hoje, quando venho à Itaparica e caminho bem cedo pela praia, observo o quanto o trabalho das marisqueiras é árduo. Com um chapéu na cabeça, sentam-se na areia com suas bacias e colheres e cavam para encontrar os mariscos. Mesmo sendo expostas ao sol, ali estão nesse trabalho. Tenho muita admiração por esse ofício.

A vida acadêmica me levou para fora da ilha, mas sempre retorno. Desde 2023, me tornei professora de Literatura na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC, Ilhéus, sul da Bahia). Trabalho frequentemente com os componentes curriculares de Literatura Brasileira. Lemos e refletimos sobre textos poéticos e ficcionais. Acredito que a literatura nos ajuda a viver melhor, compreender a nós mesmos, o outro e o mundo. Levo essa percepção para a sala de aula.

Randra K. B. Barros:

Durante o ensino médio, eu tive uma professora de História que me inspirou a querer cursar essa área ou Letras. Eu já gostava muito de ler e toda semana trocava livros que pegava na biblioteca pública da minha cidade. Era fascinada especialmente por narrativas que falavam de acontecimentos históricos. Inclusive, a minha professora colocava a gente para ler obras de Lima Barreto no intuito de tentarmos entender o que acontecia no país no início do século XX; fazia saraus na biblioteca e dizia que por muito tempo a poesia foi vista como um bem cultural da elite, mas nós temos direito de acessá-la e recitá-la. As suas práticas mostravam que o ensino de História poderia estar conectado com a Literatura e outras Artes.

Eu sou o que essas aulas fizeram comigo. Eu me espelhei na minha professora porque eu queria despertar nas pessoas o que ela despertava em mim. Ela despertava em mim uma vontade incontrolável de ler, escrever, pensar, mudar a sociedade, que era extraordinária! Eu queria ser ela, por isso decidi que seria professora. Como o prazer pela literatura me acompanhava, especialmente nas aulas de História, decidi prestar vestibular para Letras – Língua Portuguesa e suas Literaturas na Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Fui aprovada e fiz esse curso em Salvador.

Na universidade, todas as disciplinas da área de Literatura me encantavam. Desde o primeiro semestre, quando cursei Introdução aos Estudos Literários, eu sabia que seguiria os caminhos da Literatura.

Randra K. B. Barros:

Acredito que herdei o gosto pela leitura do meu pai, mas ele não lia. Explico: painho cursava a Educação de Jovens e Adultos (EJA), à noite, morava em Salvador. Quando vinha à Itaparica, ele trazia muitos livros. Painho não lia essas obras, mas chegava com várias para a gente, especialmente módulos didáticos, enciclopédias antigas e revistas científicas. Lembro que eu guardava tudo em malas e mochilas, abria todo dia para ler algo. Painho sempre incentivou a minha leitura, embora ele não lesse.

Mainha fazia o mesmo. Ela me ensinou a ler e escrever, fazia ditado de palavras. Comprava coleção de livros de fábulas para nós treinarmos a leitura. Como eu tinha muito prazer em ler, comecei a frequentar a biblioteca pública de Itaparica. A princípio, para fazer as pesquisas escolares. Fiz a minha carteirinha de leitora e sempre pegava novos livros, geralmente obras literárias, uma produção que não era muito adquirida em casa.

Randra K. B. Barros:

Escrever sempre esteve presente na minha vida. No começo, era uma forma de guardar ideias. Eu lembro que gostava de anotar no caderno as letras das canções que escutava, as fábulas que lia no livro didático, poemas, tudo o que eu queria revisitar depois. Com o tempo, passei a escrever os acontecimentos que vivia, o que observava no mundo. Colocar ideias no papel sempre me fascinou e eu tinha um enorme respeito por quem se dedicava a isso.

Eu entendo o ato de escrever como um gesto visceral. A gente coloca muito do nosso corpo, da nossa alma em cada palavra. Escrever é expressar quem a gente é. Penso que tudo o que eu escrevo fala de mim, mesmo quando a temática não sou eu. Porque escrever é materializar o que está dentro da gente, registrar o nosso existir no mundo para que faça muitos voos e encontre outras pessoas.

Randra K. B. Barros:

Para mim, todo poema tem um cunho social e político, porém alguns textos assumem mais isso. O(a) poeta que intencionalmente quer mostrar o seu comprometimento com os problemas sociais e entende que sua arte ajuda de alguma forma nessa luta é, acima de tudo, uma pessoa corajosa. Admiro essa poesia e me encanto por ela, especialmente quando faz isso de maneira inventiva na linguagem. Acredito que o trabalho estético aliado ao engajamento social consegue produzir obras poéticas extraordinárias. 

Randra K. B. Barros:

O(a) poeta é afetado(a) pelo mundo. O seu fazer é influenciado por tudo o que lhe rodeia. Lembro de um verso seu, Graça, no poema “Cantar”: “As dores do mundo são as dores do poeta”. Concordo com essa ideia. 

Confesso que os(as) poetas que mais me encantam são aqueles(as) que me fazem enxergar o mundo, e a mim mesma, de forma diferente. Tenho fascínio por Manoel de Barros por causa disso. Olhares menos atentos podem achar a poesia dele simples demais, sem algo extraordinário. Mas o que eu enxergo é diferente! Eu aprendi com Manoel de Barros que o extraordinário está nas miudezas. Leio, releio os seus poemas, com uma necessidade voraz de perceber modos outros de viver. A sua poesia diz tanto que me emociona. 

Quando leio no poema “A tartaruga” os versos: “A gente só chega ao fim quando o fim chega!/Então pra que atropelar?”, eu repenso a minha existência. Manoel de Barros via no ritmo da tartaruga um aprendizado para nós, pessoas, vivermos melhor e acolhermos o nosso próprio ritmo. Isso é se engajar com a vida, com o mundo! 

Acervo de Randra K.B. Barros

Randra K. B. Barros:

Tenho a alegria de trabalhar em um lugar repleto de árvores e diferentes espécies de plantas. A árvore Pau-brasil, por exemplo, é muito comum no campus da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Na universidade, há um Horto Florestal com trilha interpretativa que nos guia pelo caminho que escolhemos no trajeto. Cada árvore tem uma placa com o nome da sua espécie e algumas informações sobre ela. Acabamos conhecendo mais sobre a vegetação de Mata Atlântica. 

Em novembro de 2025, escrevi um poema enquanto estava nessa trilha. Surgiu como um impulso, sem título, expressando a profunda conexão que senti naquele momento com as vozes da mata:

nem tudo o que é visto 
pode ser tocado 
lá na folha 
bem atrás dela 
pode ter tanta vida
pode ter tanto bicho
pode ter tanta gente 
a folha pode ser casa
ela é 





Em Havana a ancestralidade nos une

Crédito: GGraúna. Vedado, Havana

Representando o Brasil na 32ª Feira Internacional do Livro, em Havana, junto à Comitiva de Escritores/as e Quadrinistas convidados/as pelo Ministério da Cultura (MinC), tive a honra de conhecer pessoas maravilhosas e lugares sonhados.  

Na Casa de las Américas, estive no início da tarde de 16/02/2024, onde aconteceu a leitura de poesia comigo e com a parente indígena Marcia Kambeba. Antes da leitura, visitamos o salão Che Guevara, onde (entre outras obras de arte) está exposta a escultura “Árvore da vida”, do artista mexicano Alfonso Soteno. Na ocasiãao, estava presente a conterranea quadrinista Luiza de Souza (Ilustralu). Sobre o momento de leitura, cabe destacar a participação de Diana (intérprete cubana) e a mediação de Amanda Sanches Veja (especialista no Programa de Estudos sobre Culturas Originarias). Na histórica Casa de las Américas, tive a oportunidade de apresentar com a parente indígena Kambeba, algumas leituras de poemas que escrevemos; um fazer poético entremeado de histórias vivenciadas por cada uma de nós, à luz da nossa Ancestralidade. Nessa mesma tarde, assisti ao relevante debate sobre “Literatura e racismo no Brasil contemporâneo”, apresentado por Marcelo de Salete, Eliana Alves Cruz e Conceição Evaristo.

No Centro Histórico de La Habana, especificamente na Casa Vitier García Marruz, os rostos que eu vi na plateia trouxeram lembranças do meu pai; à semelhança de rostos de Pernambuco, do Nordeste do Brasil. No centro Histórico, tivemos no meio da tarde de 17/02 o Painel de promotores de poesia, intitulado: “Mito e ritual no imaginário poético de culturas ancestrais”.  Enfatizando a poesia indígena, a parente Kambeba e eu participamos da primeira mesa. Na sequência, ouvimos a pesquisadora e escritora cubana Zuleica Romay Guerra, que trouxe abordagem sobre poética afroamericana e, entre outros,  apreciamos também a poeta Yaneth Teresa Álvarez Montiel, da Corporação Nacional de Declamadores e Poetas de Chinú, Córdoba.

Costumo sempre dizer, que a Ancestralidade nos une. Com esse espírito, fui ao encontro de Elisa Lucinda, na tarde do dia 18/02. O debate-papo aconteceu no Stand Brasil, instalado no Forte San Carlos de la Cabana, em Havana.  Foi um momento muito gratificante participar da mesa com Lucinda. Com a mediação de Andressa Silva (MinC), conversamos sobre “A poesia hoje”; as intervenções poéticas e criação literária.

À luz dessa jornada, trago a sensação de que eu cresci bastante; pois como nos ensina o poeta José Marti: “Ler é crescer”. Penso assim e tomo a liberdade de sublinhar também o pensamento do poeta Whitman, citado por Yaneth Montiel, no editorial da Revista Oro de Guaca, Córdoba (Edición 29): “No dejes de crer que las palavras y las poesías sí pueden cambiar el mundo”.

Graça Graúna (Escritora indígena, povo ptiguara/RN)

32ª Feira Internacional do livro em Havana

  

   Brasil é o país homenageado da 32ª Feira Internacional do Livro de Havana (FILH 2024) que ocorrerá de 15 a 25 de fevereiro, na capital cubana. A cerimônia de abertura do evento contará com a presença do presidente da República de Cuba, Miguel Díaz-Canel, e da Ministra da Cultura do Brasil, Margareth Menezes. A agenda do Ministério da Cultura (MinC) em Cuba será de 14 a 19 de fevereiro e tem como objetivo potencializar as ações conjuntas de cooperação e intercâmbio na área cultural entre os dois países. 

   Além da ministra, a comitiva do MinC contará com a presença do secretário de Formação, Livro e Leitura, Fabiano Piúba, e do presidente da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), Marco Lucchesi. A pasta levará uma delegação de 15 escritores (as) brasileiros (as) escolhidos (as) por meio da curadoria tripartite composta por integrantes do Ministério, da FBN e o Instituto Guimarães Rosa (IGR), unidade vinculada ao Ministério das Relações Exteriores (MRE). 

   Os escritores e escritoras Ailton Krenak, Conceição Evaristo, Eliana Alves Cruz, Elisa Lucinda, Emicida, Frei Betto, Jarid Arraes, Jeferson Tenório, Marcelo D’ Salete, Márcia Kambeba, Cidinha da Silva, Graça Graúna, Otávio Júnior, Socorro Acioly e Patricia Melo contribuirão com a difusão da cultura brasileira por meio do incentivo à leitura e formação de novos leitores. 

   A ministra Margareth Menezes aponta que Brasil e Cuba têm desafios comuns no setor cultural. “Acreditamos que a cultura é um elemento agregador, que tem um valor intrínseco, simbólico, mas também um papel transformador da sociedade. A cultura forma cidadãos, cria repertórios, ajuda a desenvolvermos uma leitura crítica do mundo. A cultura tem também um papel no desenvolvimento, gera trabalho e emprego gera riqueza, de forma sustentável”, reforça. 

   Para o secretário Fabiano Piúba, a FILH é uma das mais importantes da América Latina e, certamente, a mais importante do Caribe neste universo literário. “Trata-se de uma feira democrática que ocorre nas ruas e praças de Havana. Para nós é uma grande honra preparamos uma programação com um grupo de escritores e escritoras que irão compartilhar suas experiências literárias, acadêmicas e artísticas, traduzindo uma diversidade cultural brasileira em Cuba. Mas, para além dessa agenda, sob a chefia e liderança da ministra Margareth Menezes, será assinado um Memorando de Entendimento (MoU) entre os ministérios da Cultura de ambos os países”, ressalta. 

   O MoU visa a realização de ações conjuntas de cooperação e intercâmbio na área cultural e será assinado no sábado, às 9h30, durante reunião bilateral da ministra Margareth Menezes com o ministro da Cultura de Cuba, Alpidio Alonso Grau. Além da Feira do Livro, a ministra da Cultura cumprirá agenda de reuniões bilaterais com autoridades cubanas e visitará equipamentos culturais.

Presença confirmada 

   Ganhadora do Prêmio Jabuti de Contos 2022, a escritora carioca Eliana Alves Cruz comentou sobre a oportunidade de representar a literatura brasileira no país caribenho. “Esta é a primeira grande delegação brasileira de escritores e escritoras para um evento internacional literário, após um período terrível de ataques ao pensamento, à cultura e a democracia. Já é histórico, mas se torna ainda mais emblemático por ser em Cuba, um local com processo colonial e diáspora africana tão semelhantes ao do Brasil. Certamente um grande momento que ficará para as gerações futuras”, destaca. 

   O evento contará também com a participação dos quadrinistas brasileiros Ana Luiza de Souza Freitas, Gidalti Oliveira Moura Júnior, Alcimar Mendes Frazão, João Carlos Pires Pinheiro, Sirlene Francisco Barbosa e a curadora da Bienal de Quadrinhos de Curitiba, Luciana Falcon Anselmi. 

Feira Internacional do Livro de Havana 

Nesta edição, sob o tema “Ler é construir identidade”, a FILH 2024 se consolida como um ambiente de intercâmbio cultural, colocando a literatura como principal ferramenta para a troca de conhecimento entre Cuba-Brasil. O festival também simboliza a relação entre os países na promoção da cultura, na divulgação dos escritores para a formação da consciência individual e coletiva do pensamento crítico autêntico. 

   Para tal, a programação teórico-cultural do evento inclui uma variedade de espaços associados à literatura e ao saber, entre os quais se destacam: o Salão Profissional do Livro, onde ocorrerão a Oficina Nacional do Livreiro e o Encontro de Editores e Tradutores Literários. 

   Da mesma forma, será realizado o Encontro de Historiadores e os colóquios de Ciências Sociais e de Saúde Humana e Meio Ambiente. Além disso, no âmbito da celebração, acontecerão o Evento de Publicações Seriais e Mídia Digital, o Encontro de Jovens Escritores da Ibero-América e o Encontro de Promotores de Poesia. 

   Durante a FILH 2024, escritores, tradutores e profissionais do segmento terão ainda a oportunidade de promover, comercializar, negociar e interagir com seus principais destinatários, o público leitor e os empresários do ramo. 

Serviço 

MinC participa da 32ª Feira Internacional do Livro de Havana 

Data: 14 a 19 de fevereiro de 2024  

Local: Havana, Cuba 

Fonte da noticia: MinC