Sempre que venho ao Cerrado/DF, tenho oportunidade apreciar as árvores, os pássaros, as flores, os parentes de quatro patas, os livros, as pessoas e a diversidade da gastronomia; a começar pelos grãos.
Ora, ora, já temos aqui, uma pista do título de uma obra vivenciada entre salas de aula e hortas. E já com água na boca e atenta ao fazer poético; confesso a satisfação de folhear cada página. “Do grão ao pão – arte e poesia em experiências nutritivas” (Ed. dos Autores, 2026) foi escrito por Ana Maria Inês Ferreira (conhecida por Ana Inês): jornalista, mestre em Nutrição Materno Infantil; pesquisadora na área de Educação Alimentar e Nutricional, com especialização em Neurociência, entre outros saberes. A obra foi organizada pela autora, que é fundadora do Instituto Nutrir Com e da Cozinha do Mini Chef.
O livro traz o prefácio de Elisabetta Recine (Professora de Nutrição, da Universidade de Brasília). Sobre o prefácio, cabe destacar a referência que Elisabetta faz ao cultivo dos grãos amassados por anciãs; ao perfume do pão que invade os espaços; referenciando ainda o velho costume de não negar a ninguém um pedaço de pão pra matar a fome.
E a propósito do fazer poético em experiências culinárias, encerro esta curta resenha com um fragmento do poema “O aroma brincante”, de Ana Inês:
[…] o aroma brincante
que aquece os dias
acalma o calor da terra
da inquietação desperta
permite fermentar a alma […]
Para saber mais desse livro, acessem: (anaines@cozinhadominichef.com.br). Pelo aroma do pão nosso de cada dia, desejo boa leitura/partilha.
Graça Graúna (RN) e o Cacique Reginaldo (RN). Imagem: Acervo Compós/Ufrn
CONFERÊCIA DE ABERTURA 1
A ancestralidade nos une
Graça Graúna2
O que é, como e quando a Ancestralidade se revela em nossas vidas?
Entre os povos originários, que pessoas são reconhecidas por sua capacidade de perceber/intuir a presença especial da IA, isto é, a Inteligência Ancestral?
Existe fronteira no campo da Ancestralidade?
Os Pajés, os Caciques, os Benzedores e os Xamãs são os únicos a percorrer os caminhos que nos levam ao que há de sagrado? E as mulheres Pajés, Cacicas, Benzedeiras e Xamãs, o que elas comunicam?
Esse questionamento é uma tentativa de propor diálogo e reflexão acerca dos povos indígenas do Rio Grande do Norte. Existem muitas barreiras que promovem o apagamento étnico; apagamento esse executado pelos órgãos neocoloniais. Ocorre que nós indígenas do RN existimos e resistimos. A nossa luta é contínua. Nesse sentido, as mulheres Cacicas, Pajés, Benzedeiras e Xamãs também são destaques. Entre outros saberes, elas trazem o dialogo, semeando a luta pelo Bem Viver.
Nessa direção e com a Ciência do Toré, intuímos que a Ancestralidade nos une. A Ancestralidade é uma ponte viva que muitos desconhecem. Por isso, não hesitamos em abraçar a bandeira da resistência que nos acolhe pelo que somos, sonhamos e somamos, pois somos filhos e filhas; somos parentes nesta Terra de Tupã. A Ancestralidade nos convida a transmitir e a receber afetos; a Ancestralidade nos chama a compartilhar e multiplicar as sementes da alma-palavra; a Ancestralidade nos ensina a ouvir e retribuir a escuta; a Ancestralidade nos prepara a pedir licença ao entrar na mata e expressar gratidão ao sair dela. A Ancestralidade revela que a palavra tem alma e aguça o nosso entendimento; fortalece as raízes do nosso jeito de ser e viver e de enxergar os diferentes mundos. A Ancestralidade é nossa guardiã e um dos caminhos contra a dominação.
E o que fazer para sobrevivermos a esses tempos de invasão e exploração dos nossos saberes, da nossa mente, da nossa memória?
Não existe resposta fácil. O fato é que precisamos estar mais atentos ao que desejamos e herdamos. E mais: foi quando desejaram a nossa vinda ao mundo, que uma inteligência especial começou a habitar em nós: a Inteligência Ancestral. Ao conviver com essa Inteligência, mais uma dádiva nos revela seu acolhimento com os sopros de vida oriundos da nossa Encantaria.
À luz do coletivo nos sentimos mais preparados a combater os tantos males causados à nossa Mãe Terra e aos povos originários. A Ancestralidade é um dos caminhos da resistência. As vozes dos parentes de sangue e dos parent’amigos e parent’amigas de etnia e de poet’amigos e poet’amigas são testemunhas da nossa luta por um mundo melhor, de justiça e Bem Viver. E é com esse espírito que apresento alguns versos de minha autoria; versos de resistência, porque a Ancestralidade nos une:
Canção peregrina3
I
Eu canto a dor desde o exílio tecendo um colar de muitas histórias e diferentes etnias
II
Em cada parto e canção de partida, à Mãe Terra peço refúgio ao Irmão Sol, mais energia e à Lua Irmã peço licença poética para esquentar os tambores e tecer um colar de muitas histórias e diferentes etnias
III
As pedras do meu colar são história e memória são fluxos do espírito de montanhas e riachos de lagos e cordilheiras de irmãos e irmãs nos desertos das cidades ou no seio da floresta
IV
São as pedras do meu colar e as cores dos meus guias amarela vermelha brancos e negros de Norte a Sul de Leste a Oeste de Ameríndia ou de Latinoamérica povos excluídos
V Eu tenho um colar e muitas histórias e diferentes etnias. Se não o reconhecem, paciência! Haveremos de continuar gritandos a angústia acumulada há mais de 500 anos
VI
E se nos largarem ao vento? Nao temerei, não temeremos pois antes do exílio, o nosso Irmão Vento conduz as nossas asas ao Sagrado Circulo onde o amalgama do saber de crianças e anciões faz eco nos sonhos dos excluídos
VII Eu tenho um colar de muitas histórias e diferentes etnias
Imagem: Dr. Fabiano José Arcádio. Pesquisadora Lu Vitório (povo Kocama, Região amazônica), Dr. Cadu Araújo (Potiguara), Dra. Andriele Mendes (Potiguara), Pajé Rafael Potiguara (RN), Cacique Reginaldo Ymembira, Lagoa Grande/RN, Graça Graúna (Potiguara/RN) e Prof. Dr. Juciano Lacerda (Ufrn).
Escrever é um respiro. À luz da Ancestralidade, compartilho alguns dos versos que escrevi ao longo a pandemia. Confesso que não foi confortável escrever durante um período tenebroso que se alastrou pelo mundo. Apesar disso, acatei o convite (o desafio) do Instituto Moreira Sales e entrei no Projeto Quarentena Covid19. Foi assustador escrever no meio das noites mais escuras e apresentar uma produção textual nesse contexto. Assim mesmo, me vesti de coragem; evoquei os guardiões e as guardiãs da nossa Mãe Terra. Por alguns momentos cheguei a pensar que havia trihado por caminhos que me pareceram familiar. Respirei e encarei a necessidade de compor os seguintes poemas:
Pela noite mais pytuna4
Os Ancestrais cantam e dançam pintados de açafrão, jenipapo e urucum para saudar os parentes com arco, flecha e maraca pela noite mais pytuna O sol, a lua e as estrelas são acolhidos nos sonhos dos encantados em festa
Aqui, onde estou agora (distante dos parentes) o mundo em abismo: pandemia, pandemônio... ilhas virtuais...onde estou? Perdida no isolamento a noite não é a mesma tão longe assim, dos parentes
Até quando esse confinamento? Rogo à força do Encantado que venha o sol em meus sonhos com os Ancestrais em festa. E vem o sonho: a aldeia canta pra guardar a noite e dança pra alvar os céus no ritmo sagrado das maracas
Sonho e a noite se faz mais pytuna na epifania das constelações sobre o tempo da caça e da pesca do plantio e da colheita e uma voz nos anima: "olha pro céu meu amor olha como ele está lindo"... mesclas de sonho e realidade
Lá em Pedra Lavrada, na Paraíba uma porção do céu mais estrelado vence o tempo e segue pela noite mais pytuna ..."olha pro céu meu amor" é Colibri trazendo no voo o frêmito da primavera pela noite mais pytuna
Olha! Mira o verão amazônico! Em noite pytuna, a canoa ancestral e a constelação da garça anunciam a fartura de peixe. O pajé canta pra segurar o céu e conta que no meio da noite pytuna o homem velho da constelação saúda os parentes do Sul
e quando o dia é igual à noite o outono vem no desapego de tudo como sempre foi e é ainda pela noite mais pytuna. Na leitura do céu em tempo de inverno os pajés contam que a Via Láctea é a morada dos deuses pela noite mais pytuna
e que os filhos e filhas da Terra têm seus parentes celestes desde sempre à luz da história pelas noites pytunas. A vida segue e a memória em nós tece a alma da palavra ancestral no meio da noite mais pytuna
Ao redor da fogueira
Estamos aqui, apesar dos tempos sombrios. Aqui estamos pelo direito de ser diferente e viver porque somos iguais nas diferenças
O tempo desaba! Mas estamos aqui do nosso jeito, imagine há quanto tempo! Há séculos sobrevivemos em meio à intromissão de outros valores
Aqui, estamos! E apesar da incerteza, o nosso povo avança no preparo da chicha da mandioca e o beiju no embalo da cantoria de cigarras e pássaros
Aqui, estamos! Apesar das injúrias, do nosso jeito lutamos para manter o costume de manejar as maracas e reconhecer no cocar a nossa resistência
Aqui, estamos! Apesar da exclusão, existimos! No meio da noite bem ao redor da fogueira de luta e glória muitas histórias ouvimos
Aqui, estamos! E apesar das perdas, a luta continua no solo sagrado, na caça, na pesca, na crença, na dança na roda de Toré, no manejo da Terra, resistimos!
Aqui, estamos! E apesar dessa atroz agonia do nosso jeito, existimos pra recuperar a Terra e cuidar do plantio na luta contínua por um lugar no mundo
E assim, para não esconder a saudade que eu sinto, neste momento, deste encontro com vocês; despeço-me com uns versos do Toré. São versos sagrados que ouvi, que ouvimos desde criança. Desse modo, a Ciência do Toré se revela e desenvolve em nós a sabedoria ancestral que fortalece os nossos costumes, as nossas tradições, nossos saberes no Nordeste e em outras regiões do Brasil. Com os versos do Toré, reitero a riqueza da nossa origem e da nossa relação com o Sagrado. Saudemos os Povos Indígenas do Rio Grande do Norte!
“Sou Potiguara nessa Terra de Tupã tem arara, craúna e xexéu todos pássaros do céu quem me deu foi Tupã foi Tupã, foi Tupã sou Potiguara
NOTAS
(1) 35º Encontro Anual de Pós-Graduação em Comunicação – UFRN, 09/06/2026Tema: “Saberes Ancestrais e novos horizontes da pesquisa em comunicação”
(2) Mulher indígena, povo Potiguara/RN. Mãe, avó, escritora. Professora da UPE. Doutora em Letras/Literatura pela UFPE. Pós Doutora em Literatura, Educação e Direitos Indígenas pela UMESP.
(3) Canção peregrina, poema escrito em 2006 e publicado em 2007, no livro Tear da palavra (de minha autoria), pela Editora Mulheres Emergentes, Belo Horizonte/MG.
(4)O poema “Pela noite mais pytuna” foi publicado em 20/08/2020. O termo “pytuna”, na língua Tupi, significa: escura
Apesar da distância preciso dizer que te ofereço cada palavra-gesto cada imagem-palavra da minh'alma e o cantar solidário que dançamos (entre a serra e o mar) ao ritmo das maracas
Autoria: Graça Graúna (Filha do Povo Potiguara/RN) Nota: estes versos que dedico ao Dia da Poesia, escrevi em Trinidad/Cuba, em 23/12/2019