A poesia Macuxi de Sony Ferseck

Foto de Devair Fiorotti compartilhada por Sony Ferseck

NOTA: quando Sony Ferseck (poeta Macuxi) compartilhou por telefone o seu poema “Grande reencontro”, recebi com alegria a grandeza que ele contempla. Eu já conhecia, pela Internet, a veia poética de Sony e o trabalho que ela e o eterno poeta Davair Fiorotti realizaram junto à Wei Editora (Boa Vista/RR). Pedi à Sony autorização para publicar o seu poema no Blog Tecido de Vozes e que compartilhasse comigo e com os(as) leitores(as) algumas linhas acerca da sua trajetória na condição de mulher indígena, escritora, editora e outros assuntos que quisesse falar. Pedi também que ela enviasse algumas fotos para ilustrar o poema e ela, generosamente, compartilhou três imagens fotografadas pelo querido Devair.

Sendo assim, convido a todos(as) que acompanham este Blog para um momento especial de leitura. Com vocês, as boas palavras de Sony que nos brindou com a sua autohistória e com o encanto das imagens registradas por Devair.

Querida Sony, gratidão pelo carinho e atenção por compartilhar seus escritos neste “Tecido de Vozes” que é de todos nós.

Saudações indígenas,

Graça Graúna

Foto de Devair Fiorotti compartilhada por Sony Ferseck

Grande reencontro

                  Sony Ferseck


por sob o dourado
a palha viva
ornamento ocre
do vento que passa
por sobre as serras
meu tom de terra
me confunde o corpo
cor de semente
de sucupira
Por sob a sombra
o caminho e a pegada
ardo em trilhas (de fogo)
:Não existe o nada
Por entre as mãos
trabalho tuas mãos
em minhas
que se abrem
em dedos de cinza
fumaça, tabatinga e jenipapo
em tinta se fecham
em roda, canto, voz, meninas
Gesto gestos
meu lugar – junto – às irmãs
à Wei*
Assim me a – guardo
te a – guardo
em via.


*Dizem que as filhas de Wei, da Sol, iluminam os caminhos dos mortos pela Via Láctea, pelas plêiades, elas que permitem o grande reencontro com os que já se foram. Aguardo nelas. Em tempo, como neta de Wei, ela é quem também me permite todo dia que me reencontre com o povo Macuxi. 

Foto de Devair Fiorotti compartilhada por Sony Ferseck

SOBRE A AUTORA

Me chamo Sony Ferseck, mas também me chamo Wei paasi, em makuxi, que significa algo como “irmã em Sol”. Nasci em 1988 e desde então busco me reencontrar com meu povo, o Makuxi, aqui no Império de Wei, como chamo o estado de Roraima. Meu despertar foi longo, pois só em 2010, já na graduação em Letras na Universidade Federal de Roraima, decidi pelo reencontro e saí junto com professores pesquisadores de comunidade em comunidade conhecer mais os povos indígenas em Roraima. Em 2014 meu caminho encontrou o caminho de Devair Fiorotti, coordenador do Projeto Panton Pia’ e meu marido mais adiante no tempo que, em especial, ouvia os mais velhos e sábios do povo Makuxi.

Gosto de pensar que sou neta de Wei, da sol, e não consigo imaginá-la que não assim, no gênero feminino, pois foi ela quem deu as formas à mãe primordial do clã Makunaima, a partir do barro. É também Wei que fermenta no ventre escuro da terra a macaxeira que dá de comer e beber a todos os parentes. Que ajuda as mulheres a queimar os potes e panelas de barro da maneira certa para que preparem tuma, a damurida das gentes. Ela que dá o tom de ocre ao parixara, quando tinge as saias e roupas de palha de buriti e inajá nas grandes rodas de festas, assim como também dá o tom terroso das sementes secas de kewei (aguaí) e sucupira que retinem nos chocalhos macuxis, que curiosamente combina com o tom de pele que temos. Gosto de ver como a Grande Vó estende seus longos e finos dedos dourados por sobre o lavrado, seus cabelos desde sempre. Também creio que foi ela que decidiu encantar Devair, em 2020, para seu reino, para que ele a ajudasse a incendiar a efeméride das manhãs e tingir de infinitos azuis e dourados os caminhos da Grande Vó quando ela se volta aos seus aposentos de dormir. Tenho ciúmes, mas sei que só com ela tive de compartilhar meu amor por Devair. Escrevo assim. Mas nem sempre foi deste jeito. A cada dia me reencontro mais e mais com meu povo. Foi por isso que decidi chamar a editora que eu e Devair Fiorotti fundamos em 2019 de Wei e desde então buscamos financiar e publicar obras de artistas da palavra indígenas, como Clemente Flores, Bernaldina José Pedro e logo mais Casilda Bernardo e Caetano Raposo.  Publiquei em 2013 meu primeiro livro de poesia intitulado Pouco Verbo e o segundo em 2020, chamado Movejo, pela própria Wei Editora.

Quando escrevi o poema Grande reencontro lembrei de duas mulheres incríveis que pude conhecer nessas andanças da vida e uma delas foi a minha irmãzinha Graça Graúna e assim que o finalizei, mandei quase que de imediato para ela, para que saiba o quanto a tenho em pensamento e coração. 

Pindorama

Rezador guarani na Pça dos Três Poderes, Brasília/DF. Foto: T. Miotto/Cimi

Pindorama

(Terra das palmeiras)

A Mãe Terra tem fôlego

pra cuidar das crias  

e dar de comer e dar de beber…

Até quando?

Do seu âmago surgiram as palmeiras

para o nosso abrigo,

o nosso vestuário

e o nosso alimento.

Na parição os bambus, as cabaças,

as sementes e as pedrinhas dos rios

surgiram pra encher de música

as flautas e as maracas

que animam as nossas aldeias.

A Mãe Terra nos anima, mas até quando?

Pelos rumores dos ventos

nem tudo está perdido:

as xamãs e os xamãs cantam

as pajés e os pajés dançam

para sustentar o céu.

…nem tudo está perdido

se dançarmos pela resistência

das nações indígenas,

por uma Terra sem Males

22 de abril de 2021, Dia da Terra

Graça Graúna

(mulher indígena potiguara/RN)

Nota: antes de fazer esta postagem, pensei em pedir a primeira pessoa que ligasse para mim uma sugestão sobre a feitura do poema. Momentos depois, a amiga, leitora escritora Ceila Maria Ferreira ligou; então pedi que ela ouvisse a leitura que fiz do poema; sobre o título do poema, perguntei se caberia uma tradução da palavra tupy “Pindorama”. Ela acolheu o áudio, achou necessária a explicação, pois as pessoas em geral não sabem que “pindorama” significa Terra das palmeiras. Gratidão pela escuta e sugestões, querida Ceila.  

O pensamento guarani de Geni Núñez

Na sequência de homenagem do Blog Tecido de Vozes, ao Dia Internacional da Mulher, compartilho o pensamento da parente Geni Núñez, do povo Guarani (de Santa Catarina). Na próxima semana, mais precisamente no dia 16 de março, estaremos participando do Festival de Leitura e Literatura (Feleli). Em tempo, cabe sublinhar o pensamento de Geni: criadora do perfil @genipapos e autora do livro Djatchy Djatere: o Saci Guarani.  

Quando perguntei acerca da sua visão de mulher indígena, a parente Geni destacou a sua estreita ligação com a nossa Mãe Terra, e é nesta perspectiva que desejo a todas/os vocês uma boa leitura.

Que Nhanderu nos acolha,

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Geni Núñez , por ela mesma.

“Me vejo nessa questão como parte do território, da terra. Da mesma maneira que a terra foi invadida, nossos corpos também são. Invadidos pelas violências, pelos medos, angústias. Mas também como uma terra viva, a gente também passa por reflorestamento, coletivo. Junto de meu povo consigo continuar, um dia de cada vez, passo a passo, resistindo teimosamente mais um dia, ano, século”. (Geni Nuñez)