Mandela, para sempre!

Dores d’África (*)
Eh, meu pai!
Em vez de prantos
é melhor que cantemos.
Eh, meu pai!
É melhor que cantemos
a dor contínua
a solidária luta
de poetas-bantos
contra a tirania
Graça Graúna. Canto mestizo. Maricá/RJ: Blocos, 1999, p. 49.
(*)No início da década de 90 escrevi este poema, que foi publicado pela Editora Blocos em 1999; no mesmo ano em que Mandela terminou seu mandato de presidente da África do Sul. Em 5 de dezembro de 2013, o mundo ficou mais pobre; a paz está de luto, mas enquanto houver poesia haverá esperança de um mundo mais justo. Caminhemos na luta pelos Direitos Humanos, inspirados na trajetória de Mandela!
Nordeste do Brasil, 7. Dez. 2013.
Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

A riqueza cultural indígena da America Latina

Recentemente, traduzi para a Editora FTD três livros da Coleção Contos Indígenas da América Latina, adaptados por Judy Goldman. Trata-se de “O sapo e o deus da chuva”, uma narrativa do povo Yaqui ilustrado por Arno Avilés. “O coelho e a raposa”, ilustrado por Ricardo Peláez, é uma história do povo Kiliwa. “Baak” traz ilustrações de Fabrício Vanden Broeck; é um conto do povo Maia.
 
 
Em “O sapo e o deus da chuva”, do povo Yaqui, o cenário inicial  mostra o sol escaldante castigando a terra. Não há sinais de chuva. As pessoas da aldeia, incansavelmente, pediam ao deus da chuva para afastá-las de tanto sofrimento, mas o deus sequer  ouvia. Quando o chefe da aldeia anunciou que o povo teria que abandonar o lugar, um mensageiro se apresentou. Qual seria o seu plano?
 
 
“O coelho e a raposa” é uma das uma das muitas histórias do povo Kiliwa.  Os mais velhos contam que uma raposa muito faminta vivia em um lugar árido, com pedras, cactos e escorpiões. Não gostava de comer gafanhotos porque as pernas dos insetos geralmente ficavam enganchadas em seus dentes. Por sorte, farejou um coelho que não era grande nem gordo, mas era maior do que um rato. A raposa aproximou-se e atacou. Será que o mais forte sempre sai vencedor?
 
 
O conto “Baak”, do povo Maia, traz a história de um pequeno deus. Ele vivia com a mãe e os dois raramente tinham o suficiente para comer. Os irmãos que moravam nos arredores, sequer ajudavam; quando muito, atiravam-lhes sobras de comida. Baak queria aprender a caçar, mas os irmãos só zombavam e nunca o ensinavam. Um dia, ao ver a exuberante vegetação da floresta, Baak teve uma ideia que mudou a vida do seu povo.
Essas histórias fazem parte da riqueza cultural dos povos indígenas da América Latina: os Yaqui vivem no Estado de Sonora (México), numa região que faz fronteira com os Estados Unidos; sua população é de aproximadamente trinta e dois mil habitantes. Eles vivem da plantação de trigo e do algodão.  

        Os Kiliwa são um povo ameaçado de extinção. Sua população é composta de aproximadamente cento e sete indígenas que sobrevivem da agricultura familiar, da caça e da pesca, no Estado da Baixa Califórnia (México).
O povo Maia é a segunda população mais numerosa do México, com aproximadamente um milhão e meio de indígenas. Apesar do grande índice de analfabetismo e desemprego, o povo Maia são grandes conhecedores das ervas medicinais; conhecem profundamente várias espécies de peixes e mantém as suas tradições.
Para saber mais da cultura e da história indígena na America Latina, vale conferir o seguinte endereço: www.cdi.gob.mx
Nordeste do Brasil, 5 de setembro de 2013
Graça Graúna (tradutora)

Guarani, Kaiowá e muitas mais – literatura indígena

 XVI BIENAL DO LIVRO RIO
Dia 3.set.2013, Café Literário
Tema:
Guarani, Kaiowá e muitas mais – literatura de índio.
Palestrante:
Graça Graúna
(indígena Potiguara/RN)

O tema deste Café Literário sugere que há muito mais literatura de autoria indígena do que supõe o senso comum.
Pensando nas muitas histórias que os parentes indígenas (de diferentes etnias) têm para contar, a intuição me diz que a memória e a poesia revelam que as utopias não se perderam. Nos caminhos da Ameríndia as utopias se realizam toda vez que as pessoas se unem para superar as barreiras a que são submetidas pelo capital e pela arquitetura do preconceito.
O fato de estarmos aqui nos permite afirmar que não perdemos nossa identidade, nossa memória, ainda que o nosso jeito de ser e de viver cause estranhamento  às pessoas da cidade grande. A identidade e a memória (à semelhança do amor) dão sentido a nossa existência.
Há mais literatura de autoria indígena do que supõe a vã filosofia. Este fato nos permite apresentar (embora resumidamente) um exemplo da força que tem a memória ancestral no cotidiano das mulheres indígenas em várias partes do mundo. Vejamos o pensamento de Nicolasa Quintreman, uma liderança entre o povo Mapuche, no Chile (Cf. PORANTIM apud GRAÚNA, 2013, p. 36):

Não me interessa o dinheiro, nem uma casa com cozinha. Tenho o meu lugar, meu fogão e minha terra para trabalhar. Tampouco quero a luz que me oferecem, para isso tenho o sol… com isso estou bem. […] a barragem não melhora a qualidade de vida, como disse o presidente. Tirar uma pessoa como se fosse um animal para um lugar que não lhe serve, que não conhece, isso não é qualidade de vida. Viver bem é permanecer na mesma casa onde eu nasci. A terra nos pertence, temos que cuidar dela, da mesma forma que a madeira, o rio e o capim que os porquinhos, as ovelhas e os cabritos comem. […] não vou amolecer, […] meu futuro será sempre o mesmo, não vou muda-lo. Morrerei na minha terra.
Outro exemplo edificante vem da poesia Mapuche escrita por Rayen Kvyeh. Em seus versos, ela nos convida a romper o silêncio, a lutar pelos nossos direitos; sua poesia nos encoraja a contar a nossa autohistória. Vejamos um fragmento:

rompe o silêncio

da memória milenar
do povo mapuche
neste relato
da história, gravada
nos espíritos
de nosso povo

A sabedoria ancestral é vida que corre pelas gerações, afirma o crítico português Salvato Trigo (apud GRAÚNA, 2013, p. 113). Dentro desta perspectiva, a poesia de Rayen Kvyeh fala dos sonhos, onde os ancestrais (seus avós) aconselham desde sempre a lutar pela liberdade, a lutar pela terra. Vejamos mais um trecho dessa poesia (Cf. GRAÚNA, p. 113):

nos meus sonhos

meus avós têm falado.
Da cordilheira ao mar
de norte a sul,
desde o mais profundo
da nossa mãe terra
suas vozes aconselham
que expulsemos
os usurpadores
da nossa terra.
Os usurpadores
da nossa liberdade.

Em várias partes do mundo há milhares de povos indígenas que expressam seu amor à terra, seu desejo permanente de justiça e liberdade, seja por meio da contação de histórias, da poesia, da arte plumária, do grafismo, do barro ou dos sonhos que trazem as canções da mata e do amor à natureza; pois como diria Ana da Luz Fortes do Nascimento (uma anciã Kaingang): somos a raiz da esperança, a multiplicação da luta à semelhança da terra que multiplica o cereal plantado.

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Rio de Janeiro, 3.set. 2013

GRAÚNA, Graça. Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2013.