Noturno

Escultura: Leo Santana. Foto: Custódio Coimbra

No meio da paisagem tem um poeta.
Toco suas mãos, suas feridas
em meio a tantos saberes no mar da escrita
nossas mãos – produtos de perdas e pedras –
escrevem sobre paz e guerra
sobre (des)caminhos e sonhos abortados.

Tem um poeta
no meio da paisagem.
Da sua retina, diviso o clarão da lua
que abranda a fúria de outras ondas
em Copacabana
a lua, o poeta e outros eus
entre a vida e a morte de mãos dadas
tudo a se multiplicar
numa ciranda de sonhos ao redor

Graça Graúna (indígena potiguara/RN), uma noite em Copacaba/RJ, 1.junho.2008

Nota:poema publicado no Overmundo.

Porantinando*

Criança Saterê
Foto: Jonne Roriz/AE

Remo
Arma
Memória

Sei dos segredos
dos pesadelos

da solidão
dos anseios

do pranto
das matas

dos rituais
das eras

dos mares
das lutas

das curas
das ervas

trago sementes do céu
cultivo os caminhos
conheço o cheiro da terra
mergulho nos sonhos

porantinando a esperança
pelo rio afora
sou arma, remo e memória

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

(*) No idioma Saterê Mawé, porantim significa remo, arma e memória. O povo Saterê (originário do tronco Tupi) habita na área indígena Andirá-Maráw (delimitada pela Funai) entre o Amazonas e o Pará.

Graça Graúna. Tessituras da terra. 2. ed. Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2001, p. 26-27.

Nota:poema publicado no Overmundo com 176 votos.

Terra à vi$ta

Tempo de um cocar, de Gilberto Salvador – 1988.

Perdidos no perdido
os filhos da terra

sem barco
sem arco
sem lança
sem onça
sem terra.

Jogados no mundo
os filhos da terra.

Só o silêncio dos deuses
pelos (des)caminhos.

GRÇA GRAÚNA (indígena potiguara/RN), abril indígena, 2009
Graça Graúna. Canto mestizo. Maricá/RJ: Blocos Editora, 1999, p.50 [prefácio de Leila Miccolis].

Nota: poema publicado no Overmundo com 197 votos.